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Daniel
Cristal
ANTOLOGIA LÍQUIDA
(Colectânea de Poesias de 1961 a 2000)
seguida dos Poemas:
O AUTO DAS SETE PARTIDAS
e
O QUADRO DO TEU SORRISO
Pormenor
do Jardim das Delícias de J. Bosch
( QUARENTA ANOS DE POESIA )
.____________________________________________________________________________________________________
.
Esta
Colectânea está dividida em Sete Partes:
.
1ª
- Do Amor
2ª
- Do Ser
3ª
- Da Guerra
4ª
- Da Cidadania
5ª
- Da Saudade
6ª
- Da Amizade
7ª
- Da Poesia
___________________________________________________________________________________._______
.
.
1.
DO AMOR
quase erótica
.
Quando eu a vi, era no início uma abelha desenhada a cinzel num
prato redondo de cobre, como se estivesse sobre uma lareira com troncos
de fogo, labaredas de sangue trepando pelos tijolos.
Tempos depois, a abelha cinzelada desprendeu-se do quadro cobreado
e ganhou forma humana, ela me ficou em face, zumbia, suas asas trémulas
aproximavam-se, seus olhos circulares semicerravam-se. Era a metamorfose
do primeiro amor que da inércia se fez vida e da vida se faz sedução.
A Lua cheia permanecia no topo do horizonte à espera de
outra vez se tornar minguante, enquanto todos os túneis do mundo
esperavam a invasão do meteoro atraído por todas as forças
energéticas que nos perpetuam no Universo.
Eu via-a, assim, primeiro sendo abelha dum cobre quase ouro, a
seguir a escultura de Afrodite quase Vénus, deusas vulgares comparadas
com ela mestra, cujos seios eram duas pequenas meloas ceráceas cortadas
a meio.
A água pura corria transparente, em bica de fonte, caía
em cima dos lábios semiabertos carnudos, rosados, circundando dentes
de madrepérola, na expectativa reprimida de articular uma palavra,
pairando sempre por dizer porque trémulos estavam os olhos castanhos,
amendoados, castanhas de algum castanheiro perdido nos confins duma terra
morena, gretada pelo sol do meio-dia, essa terra morena e ocre, que quando
fendida estava em brasa e nela o Sol espalhou a secura até uma próxima
vez de alagar de chuva ou rio.
Mas, com o tempo não era a abelha por mim vista, era a
mulher quase amada ganhando a forma da ansiedade e do desejo, do desejo
renascido das cinzas, fénix ressuscitada de milénio em milénio,
vulcão expandido até ao limite em que se der a implosão.
Depois do olhar, houve o aroma dos bosques frondosos. O cheiro
das flores sorvidas pela tua boca. As de açucena, de rosmaninho,
de alecrim, de campânulas, das amoras e dos morangos. Do tojo, das
laranjas e dos pêssegos. Cheiro a ervas e a mar. A água salgada.
Foi depois um cheiro inebriante a mosto, uma aguardente viva, quase anis,
moscatel de vapores embriagantes.
Havia no ar quente alegres chilreios das aves da madrugada voando
na liberdade da planura, o som alegre das melodias ritmadas na celebração
da vida, a voz do canto conjunto sob ogivas policromáticas dos altíssimos
mosteiros em granito trabalhado, impelindo teus lábios à
aproximação. Um murmúrio, uma palavra carente de outra
carente, espelho da fonte de água cristalina correndo e balbuciando
um afago, um entrelaçar de emoções, laços de
carícias até ao ósculo. Ao beijo. Emudecendo sussurros.
Unindo todos os acordes.
Fizemo-nos dança, por fim, onda projectada até à
Lua, onda batendo contra o penedo megalítico irrupto pela força
suprema da Natureza, dólmen desafiando o tempo e a tempestade...
onda desfeita na areia, onda batida pulverizada em espuma vaporizada pelo
Sol na forma de maresia...
Dia dos namorados
Amo a água filtrada
que desliza da tua fraga
e tu amas o incêndio de fogo
que me ofega e me afaga
.
amo-te sem qualquer mágoa
mas com a estilização
da ternura
.
e com toda esta ardência
te evaporo na caverna da rocha
diluviana
virada ao mar à borda d’água
centuriana
.
e tu me sacias e desfazes
desvaneces e enxaguas
as labaredas
inexauríveis do fogo
que me abrasa
.
amor és tu que me atormentas
em brasa
amor sou eu quem te apaga
em combustão
e esta detonação
decifra-nos a alma
e o coração
.
é o estado do desempenho
que na chuva do desenho
me esfria e me apaga
.
não sei por onde vou ou venho
a arder de ardor neste lenho
para o tornar puro
estéril e ardente
como um tição de cristal
ou estalactite impendente
ou carvão de antracite
.
Afrodite meu amor e paixão
Apolo teu amor e firmeza
forças de dinamite
coluna erecta formada
num concreto sedimento
.
amor eu te atormento
neste tormento
com a alegria denunciada
imputrescível do incenso.
Publicada em vários
jornais e revistas
poema a quatro dimensões
perfeito e esbelto
cantou o seu corpo
afagou seus cabelos
embalando pensamentos
.
acordou depois ao som
da ferida que sangra
eternamente
e já não reconheceu
a sua face gélida
procurando seus lábios
que se colaram às nuvens
.
todo o dia se olhou
com espanto
e viu a sua sombra
mais além no labirinto
.
a manta que as dores afaga
cobriu com piedade
sem que fruísse seus ossos
.
mais tarde encontrou
olhos dissolvidos
braços distanciados
e foi então
que reviveu
as questões eternizadas
que o homem põe a si - mesmo
porquê ? para quê ?
.
teve medo da chuva
que repentinamente
bateu forte latejante
nos vidros da sua janela
e reconheceu na evidência
que tinha medo dentro de si
.
num lindo dia com lua
encontrou a sua sombra
no tempo e no espaço
um pouco mais além
na sombra dos que se extinguiram
sem jamais se distinguirem
.
e quando a refulgência
banhou o leito revoltoso
onde dormia fremente
com sua amante agitada
voltou a tactear
seu corpo de singeleza
neste mundo sempre igual
como estátua ancestral
.
e viu seus dedos sedosos
sentindo diferente
seus lábios róseos beijando
com poros desavindos
seu calor retribuído
na arte do desigual
.
um êxtase
perdido
num mundo de pedra e cal.
1966
UM SEGREDO IRRUPTO
A estrada é longa e nela suamos
Algumas vezes almoçamos um guisado
enquanto amamos o sabor da vizinha do lado
roçando as pernas dum cabrito assado.
É longa e avançamos com medo...
.
Em conversa nos perdemos sobre o que dizemos
sem nos apercebermos da rotina nomeada
e neste xadrez comemos os peões, as torres e os bispos,
ou éguas, ou Reis e as Rainhas.
.
Porque é longa a estrada e o Sol queima...
Jantamos sobre a relva e sobre ela
fornicamos enquanto alguém espera
sermos à hora exacta o rosto conveniente.
.
Dos lados os desertos secam-nos o rosto...
E guardamos o segredo secreto dos nossos amigos
querendo possuir a mulher por nós possuída
numa ceia, num cocktail, num rendez-vous.
.
Sob o ruído dos aviões suamos mas continuamos...
Às vezes uns trocam connosco o passo indeciso
e sonhamos o argumento que somos incapazes
de representar sob o riso estridente duma plateia mordaz.
.
E continuamos suando com o passo trocado...
Até que os fantasmas do mundo desçam sobre
nossos olhos, os tapem, os quilhem como convém
e , então, só então, seremos nós
ou ninguém.
Ela é o sol
Ela é o sol que me aquece
manhãs de amor noites de frio
estrela que nunca fenece
fermento margem de rio
.
as estrelas bailam com ela
e os seus cabelos comigo
o seu aroma é fogo casto
açafrão em campo de trigo
.
noite ou lua tenho-a na luz
extingue-me fecho os olhos
vejo-a cristal que reluz
amor sem dor cravo aos molhos
.
embala-me como num berço
amo a pequenez enorme
homem feliz rezando o terço
adormeço enquanto ela dorme.
.
ODE À ETERNA JUVENTUDE
Confundidos sobre a relva
numa noite de cadências
indagávamos o céu
o firmamento
a galáxia.
Eram evasões submersas
fluídos dos nossos corpos.
.
Vento quente ruborizava a meia-noite
noite de infinito assim abrindo
presságios
sobre seixos de moliço
permanecendo obscuros.
.
Dançávamos assim na eterna esperança
do mundo
pólen recomeçado
na liberdade esquiva.
O sangue apelava
lembra-te ó mulher diva
e vicejava nossa pele de sal
ternura e mel.
.
Mas alguém ao longe de cinza coberto
ardia de raiva de fúria e lamento
toda a alma desfeita em ciúme
por traições dilacerada
de recusa.
É a noite que te acusa...
.
Era noite de Amor. As harpas tangiam
nosso rosto bronzeado de vida prateada;
era prata nosso sal
poros suados
ternura?
.
Languescia a luz da noite
como cinza de loucura.
Vivendo em mim vento quente
respiras plenitude
...Permaneces sempre bela, ó deusa,
resplandeces de orgulho!
.
Lembra-te somos eternos como a eterna juventude.
Embora tanta incerteza do tempo
Amor
somos eternos, ó deusa, ó bela adormecida
e somos espanto
e somos estranhos
e somos afinal
quem sonhas...
.
Quantas carícias trocámos de seda ó
crisálida
dedos de penugem
expulsando fantasmas de cavernas medonhas!
.
Se algum dia morrermos eternizando a imagem
do nosso Amor
é a lua a escrever sobre a relva
os nossos passos perdidos
no cabelo do gelo
paraíso adiado
com Deus não sei onde
não sei de que lado!
.
Porque decepámos os ramos da árvore
do presságio
e desflorámos a proibida maçã
paraíso de plágio
descobrindo o rio do infindo ideal
estendendo a canoa na margem do naufrágio.
.
É o Amor que buscamos na eterna juventude
é o Amor é sempre o Amor...
Porém, se esta mensagem
a nenhum porto ancorar
na terra da desolação atearemos a revolta
iremos à praia destruiremos as conchas
dissolveremos corais com unhas agastadas
suplicando punhais e dentes de fel e cal
e arrasaremos tudo até ao holocausto
ou até à erecção final
de novas madrugadas.
.
Recorda-te agora, mãe, de tempestades de mar
alagando cearas montanhas e rios
onde o fogo as guerras e a peste fizeram estragos
e o pó cobriu sementes louras
de gente com fome.
.
É o próprio mundo que vibra em mim
ninguém o destrói...
Nasci da relva e do vento
e escrevo com espigas
de cristalino lamento
abro-vos a porta, ó deuses do fogo e da água,
ó loucura de ser assim sem mim,
chegai-vos até nós, dai-nos a mão
até ao espaço desta trilogia
da criação,
purificai-nos os ossos másculos
colados a outros de fêmeas fecundadas.
.
Os ossos varonis imperecíveis
os ossos de donzelas fecundas
- girando todos na pedra dum açude -
e o Ser a quem não há quem O mude,
vaporizar-se-ão como fumo na forma dum gigante
e aclamarão na distância
no tempo em riste
num açude de pedra
a essência
da eterna juventude.
Publicada no Litoral
.
Minha Ofélia
Minha secretária de umbila
em desalinho com memória
onde os poemas pariram
textos imprevisíveis
.
Seis pernas erectas
ou talvez sete membros
entesados e rectos
.
Se é orgia que aspiras
fecundo-te no mar do tinteiro
e polenizo-te abundante
e frequentemente
na concha do cinzeiro
.
Aborto ou feitura
inventada e acabada
ou só rede escritível
esta sede terrível
(dá ou dê para o que der)
de lançar a pedra ao charco
para afundar qualquer barco
quer seja arco quer mulher
.
E amá-la depois de afogada
secretária minha Ofélia
louca flor de umbila
enxaguada.
PROMETEU
Há milénios que existo
De mudança em mudança
acompanhando o ritmo do homem
Eis-me entre vós entre mim
Nesta nuvem de marfim
onde os séculos ressoam
vibrações de revolta
.
Comi a minha carne bebi o meu sangue
E comerei a carne alcançada
e beberei o sangue respirado
.
E lançarei meus ramos de cordeiro
no sangue puro
para renascer árvore da vida
.
Se vos falarem de verdade
direis ser esta a verdade
e esta não é nenhuma
( toda a verdade da mudança
do ritmo e do progresso )
.
Há milénios que existo
e procuro
como no dia do início
o amor em vez do medo
.
Companheiros
homens da mesma unidade
somos os príncipes da paz
somos os novos redentores
somos Prometeus invioláveis
O sumo novo e libertado
a seiva fervente e rutilante
o sangue da vindima deste ano
.
E procuramos
como no dia da origem
o amor.
Publicada no Miradouro
.
A PEIXEIRA PRINCESA
Sou eu quem te leva, és tu quem me leva?
dizia eu àquela princesa
do cais da Ribeira.
.
Não sei se sou eu, se és tu quem nos leva !
retorquiu aquela peixeira
linda mulher descalça
duma beleza infinda
que me envolvia ligeira
e eu a sua cintura
estreita e pura
que jeitosa és tu
( que bem feita ela era ! )
porque vais descalça peixeira ?
.
Porque contigo me movimento,
tira o boné por causa do vento.
.
E eu lhe disse ó linda peixeira
tira o corpete para eu olhar,
teus lindos seios
eu tos quero beijar
.
e ela me levou para o celeiro
ao lado do rio
e beijou meu ombro
que descobriu sem me ver
e lá fiquei com ela princesa
rente a uma vela acesa
até a alva romper
e o galo cantar.
Publicada no Boletim dos Escritores de Gaia
CARNAVAL
Deixai-me pôr outra máscara
repetir o sonho vão
rolar nos enfeites das ruas
com a alegria das crianças
fingindo que o não são
.
Deixai-me pôr outro traje
em cetim de arlequim
num sonho de perdição
cheio de amor e marfim
.
evadir-me noutra aventura
no rodopio do samba
noutra visão de ventura
.
Deixai-me ser infinito
no sonho do ser impossível
longe do mundo medonho
e ao acordar voltar
a sonhar
o mesmo sonho
.
Deixai-me enganar a mentira
e a cilada
.
acordar e voltar a sonhar
o modo evasivo
de ser estranho
alheio ou esquivo
ao disfarce
do desengano.
Publicada em vários semanários
em destaque na primeira página (Notícias de Guimarães,
Viseu Informação, Notícias de Ovar, Miradouro, Litoral
e outros nas edições durante e após os festejos carnavalescos)
PRIMAVERA TRIUNFAL
Feliz teus olhos brilharam
e nos meus reflectiram
a Primavera
.
vi-te vi teu rosto teu corpo
vi o brilho dos teus olhos
a suavidade do teu gesto
ouvi a tua palavra terna
teu pensamento claro
a tua idiossincrasia
peculiar e macia
e jurei
jurei ter encontrado
a deusa da Primavera ansiada
.
jurei seguir todos os teus passos
todos os teus gestos
sorrisos e palavras
.
jurei esperar
bater insistir redobrar
precipitar todos os anos do passado
no momento em que te haveria de propor
uma união sem tempo nem lugar
.
sim precipitarei toda a força do meu saber
todo o fluxo do espaço e do tempo
e das dimensões desconhecidas
redobrado através dos séculos
desde o ressurgimento do Universo
.
sim precipitarei todo o mistério
no momento em que te hei-de de dizer
(para além de toda a verdade
da terra aparentemente incoerente)
que a chama
a chama criada no meu peito renascido
na Primavera triunfal
havemos de erguer
ambos
até ao infinito majestoso.
1966
(Editada no NOTICIAS DE GUIMARÃES em 1966
e reeditada no mesmo semanário, trinta anos depois, recordando a
sua aparição e destacando-a)
SALVAÇÃO PELO FOGO
O fogo é como o tojo
a arder em qualquer fojo
.
Inflamados fogos ateara
naquela mulher de água
banhada na minha ardência !
Quando lhe dizia
"eu te amo e eu te quero"
nesse momento o fogo entrava em mim
e ofegante avançava assim
com arrojo
.
Receosa era a água a dizer
"pára ou eu te afogo"
.
Beijada então ela dizia
"só tu tens o dom de desempenhar o jogo
do amor
e por isso te afogo esse fogo"
.
Seguia-se o desempenho
com a arte do desenho
.
Benditos a água e o fogo
Benditos o fogo e a água
A água sempre lava
e purifica
.
O fogo sempre aquece
gratifica limpa
e santifica
.
É uma paixão desempenhar
o que por dizer
fica.
Amor ardente
Teus olhos lábios de chama
ígneas lembranças
da minha existência
.
envolve-os uma onda
de raiz escaldante
onde a Lua esconde
um Sol deslumbrante
.
e se a vida for uma mistura de encontros
e se amar for viver demais
iremos esculpir uma estória
e ressuscitar a memória
homenagem aos lábios e olhos
que no rescaldo
devêm glória
.
e me escaldam no tempo
muito mais...
GLOSA AOS MEUS TRÁGICOS AMORES
1.
Amei-vos tanto que nunca
deixei de vos amar
.
Eras tu um incêndio de arbustos vergastado
pela violência do vento suão
um fogo dominado
pelo chicote e pela mão
a água a extravasar a alma
e o coração
a apaziguar num suspiro
já tanto passado!
.
Ou foste tu mulher recolhida
à espera da viagem sonhada
sempre adiada
.
o que é que encheu a tua esperança
e ficaste desolada
carente do ritmo da dança?
.
Ou tu mulher fabulosa
saída como ninfa dos mares quentes
atenta a estórias de insectos alados
voz de cristal voz de fado voz de alguém
esbracejando
sem nunca ir mais além?
.
Ou foste tu mulher febril
ansiosa e alegre
querendo mais amor para ser servil?
.
Ou tu outra mulher
sôfrega de amor
a morder tanta ansiedade
com a explosão de lírios e rosas
nas tuas estreitas e musgosas
cavidades?
.
Prendias-me com mãos pequeninas
teus dedos com pés de menina !
.
Quando foi o momento
arrebatei-vos como o fogo com o vento
numa caverna sem um lamento
com o ritmo
ora impetuoso ora lento
.
Amei-vos tanto tanto tanto
que sois mais suspiro do que pranto
2
Amei-vos tanto que nunca deixei de vos amar...
Tanto amor conseguido com relva e areia
por meridianos repartido!
Tanto amor açoitado pelo destino
pelo preconceito sem tino!
Tanto amor incendiado tanta combustão de sangue
que nos colhia a madrugada
exangue!
.
Que a água da lava e da relva passada
a água pura e fresca
nos deixe a recordação de uma viagem
adiada
e toda a areia inexplorada!...
.
Como pode ser assim a saga do amor
nascido extinto perdido
e logo renascido!
Como pode ser vento vendaval fogo imenso
e movimento
de astros e estrelas
no firmamento!
.
Como pode ser música de repente
de violinos de clarinetes de órgãos
a solfejar em castanhos e cinzentos
nos invernos de chuva e vento suão
na neve sobre a terra quente
até que esta cubra a lava dum vulcão!
.
Como pode o amor ser extinto
do mesmo modo que surge e ressurge
sem que o corpo entorpeça?
Ou até que ele adormeça e morra
aguardando o túmulo e a lápide
numa masmorra sem ar
e nos deixe o coração magoado
pelo ferrete da angústia e da revolta
onde iremos ressuscitar
o que vai e volta
que é afinal o que acontece ao mar
e ao infinito que se renova...
.
Ó amor ó vitória fingida e perdida!
A vida que sonhei
tinha qualquer coisa a mais
talvez de mais
mais do que a tragédia
a dança pela relva
a colher o fruto da mão que semeia
a mão que ao agir nunca receia
a tempestade de água
ou de areia
3
Amei-vos tanto que nunca
deixei de vos amar...
Que puto de preconceito
a nossa memória envenenou sem jeito
e o que foi uno matou
sem a razão a preceito?
.
Que suspiro ficou amargo
na garganta
e a água lavou?
Oh que Deus perdoe
sermos feitos dum barro moldado
perseguindo sempre
o alvo errado !
.
Trágicos amores porém amores
com dissabores e dores
que mais os tornaram fermento
deste tormento
que é hoje calmo e nítido
e se atira ao firmamento
e de lá ouvimos
sons de paz de tardes cálidas
de zumbidos a saber a vento
sons de violinos em luz clara
e alegre
que nos serve de sustento
e nos dá alento
.
até que alva nos traga o relento
e afugente o vento do Sul
que devém nortada como rajada
e nos tolda o que mais nos inebria
de azul...
.
Trágicos amores perdidos no sal da madrugada
trágicos amores pungidos de Sul a Norte
trágicos amores com gosto e mosto de amora
amores que tão bem e mal viveram nesta era
para além da morte pela essência fora
e esperam
como sempre fizeram
a aurora da Primavera.
MENSAGEM DE LUZ E INFINITO
Ainda que a guerra nos tenha
separado
ó bem-amada ó
estrangeira da minha vida
hei-de cantar-te eternamente
e hei-de cobrir-te com as flores
intensas
da aldeia que me deu ser
Na diversidade da existência
que suportamos
continuamos a ser unos na alma
que nos une
e na variedade da existência
que sentimos
continuamos a ser idênticos
e imortais
.
Cada vez que entro na memória
dos nossos amores
e não te encontro
sinto a resignação
das águas duma ria indiferente
e a tristeza de ter amado como
alguém que nunca amou
porque o nosso destino
a nossa ilusão
ó bem-amada ó
companheira da minha realidade
que és ideal na verdade
dum mundo que não tem fim
partilham a imensa chama
que acalenta e ilumina
a Vida universal
.
Vieste da guerra impassível
e serena
vieste da guerra
morta e infeliz
vieste da guerra
Chorei sobre o túmulo
que construí
e procurei no fundo mar
estrelas para adorar-te
Mas só eu te adorei
e jurei
que o símbolo do Amor
é o Infinito
e depois da morte hei-de encontrar-te
.
Cada vez que penetro no planeta
infinito dos nossos Amores
e não te encontro
juro soluçando que vingarei
a guerra
que nos desuniu
e feriu
num arco-íris disperso
em cavernas de gelo e de terror
Então eu conto ao espelho
- imagem
prisioneiro dos meus olhos
que nesse sono profundo da
noite universal
cada um de nós foi parte
dos pais eternos
E lembro-me comovido
do brilho fantástico
dos primeiros raios do Novo
dia universal
no qual partilhávamos
o gérmen do Ovo cósmico
E ambos nessa noite escura
e imutável
de formas virgens existentes
envolvidos do neutro de sexos
opostos
participámos no início
da criação
.
Hoje separados na ausência
dum mundo sub-real
precipito-me na tua direcção
na vertigem das flores que
constróem consciências
e nas cores geradoras de princípios
universais
.
Hoje, ó bem-amada ó
companheira do meu Universo
agrupo as partes dispersas
pelo passado
e convoco as ideias astrais
que realizei
jurando vingar a guerra que
nos ceifou
a presença vivida do
Amor eterno
mutilado assim o dom da bênção
nesta constante evolução
nesta morte continuada
(vingá-la-ei, eu te
juro !)
de seres angustiados
curvados sobre
o Futuro.
Paris, 1963
Publicada em vários jornais , páginas
literárias e revistas
HINO À FEALDADE
És tão feia tão exótica
que me excitas a mente
.
curioso de te conhecer
eu não me arrependo nunca
ao descobrir tanta beleza
a beleza do junco
o esplendor do amanhecer
.
amor nascido subitamente
na nossa junção frenética
como esta chama acesa
que vibra mais do que sente
.
com todos os erros de óptica
torna-te sempre ilesa
porque me possuis e me tens
me cinges e me conténs.
PRIMAVERA
Halo quente de Sol, como botão em flor,
Dissipa a coacção da noite repressiva...
Odor a Primavera mole e remissiva
Assevera ao pólen o mundo em mudança...
.
Respiremos fundo, Amor, ouvindo as canções
Das primeiras andorinhas. Belos botões
Das flores irão florir sobre a indolência
Do torpor. As minhas são tuas mãos, Amor...
.
Com essas mãos juntas, os frígidos fantasmas
Da morte serão para sempre desintegrados,
Contundindo aos pés a opressão das galés.
Respiremos fundo, Amor, o sangue do mundo...
.
Sorvamos água do calor e do botão
Em flor. Morna aragem trouxe a tua beleza
Que sempre amei ao Sol em completa liberdade
Do céu azul, translúcido e descoberto.
.
É Primavera, Amor. Há tantas flores brancas
Dos rostos anónimos rebentando sós,
Que vamos gritando, com vontade, aos deuses
Que propalem crianças beijando os avós.
Publicada em vários
jornais
À ESPERA DUMA DESCONHECIDA
Vem bem-amada
vem bater suavemente à minha porta
vem recolher depressa
ao leito do meu destino
.
Ó desconhecida ó bem-amada
sinto-me perdido na noite sem tino
sinto-me só num leito
sem madrugada
.
Vem bem-amada
traz teus dedos fadados de seda e de rosas
desfaz esta noite muda
no engano crescida
.
Que os meus passos desafiando o orgulho dos medos
que os meus passos na noite errante
errantes como datas falíveis no prazer
subam mais alto
até à seda dos
teus dedos
.
Que os meus olhos
nas noites vagabundas
vagabundos com raiva de se curvarem
em corpos prostitutos
que os meus olhos vejam nos teus
a certeza dos corpos incorruptos
.
Que a minha fúria de sexo pecador
que o meu ímpeto de volúpia diferente
seja escrava do teu encanto
seja idade perdida
seja ave caída seja palavra morta
ou água derramada
.
Vem bem-amada
Vem bater à minha porta.
1967
Publicada em vários jornais e páginas
literárias
O FUMO LAURENTINO
O fumo esvaído dum cigarro a arder no cinzeiro
e a coca-cola bebida dum trago
com ou sem aspirina
.
O olhar de alguém
quebrando o ócio cinzento da câmara
olhar filósofo perdido na vida
.
o último caso do dia sorvido
na xícara de café quase quente
em redor dos criados pretos servindo chá
às senhoras maldizentes
.
"o diabo do calor não deixa de apertar"
assobia a última canção do euro-festival
futebol basquete garraiada
a boca aberta de sono
o sono atrasado de dia para dia de sábado para domingo
de mês para mês de ano para ano de vida para vida
de século para século de criação
para criação
de deus para deus
do ser para o absurdo
.
"onde está o meu amor?
onde está o meu doce melado de cereja?"
Lourenço Marques, déc. 70
.
.
.
.
ZINHA
corpo singelo
na palma da mão
erguido
.
diz-me que amas
o fogo aceso
pelo coração
com vida
.
moldados no amor
lábios de chama
com o calor
de quem ama a terra
concha de sol
à espera
deste sabor
a fera
.
amor penetrado
de outro amor
querendo alcançar
o amor infindo e fundo
dum mundo
com êxtases suados
na explosão de segredos
guardados.
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(Dita por Vítor Nobre em Antena 2, programa
Allegro Vivace)
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CANTIGA MEDIEVAL
Ai montras do Porto antigo
que me trazeis seduzida
ai Deus ele está distante !
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Às lojas ouro fui comprar
para os meus dedos ornar
ai Deus está tão distante !
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Do ourives trouxe prata
para meus vestidos bordar
ai Deus que distante está !
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Linho rendas e cetim
para os olhos enfeitiçar
do meu amor tão distante !
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E trouxe o negro da noite
para minhas mágoas calar
ai Deus que o tenho distante
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E a Lua meu amor eu trouxe
para teus passos alumiar
ai Deus que está tão distante
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De nada meu amor gostou
nada este amor aprovou
ai Deus como está distante !
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E fui trocar por sorrisos
por este regaço de beijos
meu Deus como está distante !
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Ai montras do Porto antigo
ensinai-me vos suplico
quero ser a sua amada !
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Make love not war
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Longe dos cordeiros a pastar à flor da terra
sorvi o teu corpo afrodisíaco
naufragado na babugem do mar
pleno de desejo louco de erotismo alagado
teu corpo que nascia e morria de prazer
teu corpo lúbrico e despido
que se erguia e despenhava
entre o sexo entumecido
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Três anjos auxiliaram a correcta posição
para que o tufão fosse de tal modo amor
que nos projectasse no limbo
extenuados e nulos
guardando para sempre o instante cioso
a recordar nos dias de agonia
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Fantasia de visões oníricas
lassidão virtual de maresia
vivência transposta a outra dimensão...
riso de gozo... olhar rufião...
a areia desflorada
o dia escuridão...
E nos marcos da palavra o lobo
faz guerra ao outro lobo
e na cidade devora a caldeirada
do cordeiro ou do cabrão
e no cinzeiro ingere o enfarte da festa
sem que o povo se aperceba desta
perpétua situação.
Lourenço Marques, 1972
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