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Continuação da Antologia Líquida de Daniel Cristal - (Do Amor)
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                                                                                                                                                                        ESCULTURA

 
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Gavinhas a dedilhar
o barro vazado
no molde róseo
do teu corpo
altivo
exclusivo
irrecusável
e imperativo
como o amor
incontestável
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De quem os braços?
Cárcere de quem?
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Provável o tornado
que
se vier
será moldado!
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                                                                            CÂNTICO LITORAL
 
 
                                                              Ao Mário Sacramento, Clara Sacramento e David Cristo
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uma salina ao lado e ao longe um cone ao perto uma pirâmide a imprimir-se no espaço e no tempo nas noites de luar um triângulo a projectar-se até na Lua e nos planetas
no cimo uma vela olhá-la foi espanto a brancura feria os olhos o branco era o sal e a pirâmide erguera-se da água salgada a aspirar novo ciclo cidade anfíbia a arrebatar o sangue recirculado
o moliceiro levava a vela desfraldada de repente a brancura voltou a ferir então no profundo o branco era a vela e o monte de sal
o Sol deitava-se no cimo da pirâmide um globo perpetuava o eterno e efémero ciclo diurno em toda a parte um cântico litoral a redobrar o seu som perdido na esperança duma aurora nascitura
era Aveiro a deusa anfíbia de Portugal no interior dum grande silêncio vespertino era ela no círculo o monte de sal e o moliceiro era ela a ofertar um novo caleidoscópio a fazer renascer novas formas ignoradas e novas harmonias
adoráveis pirâmides e rectângulos raras e exóticas linhas geométricas...
amor estampado nos pares de namorados a olhar o deitar do Sol no horizonte manso semi - círculo a perder na memória a esfera encarnada a encimar o vértice branco num clarão litoral de proximidade e distância...
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                2. DO SER
 
 
 
 
 
 
 
 
                                                                                             VISTA IMENSA
                                                                                                                                 A Vítor Wladimiro Ferreira
 
 
 
Vi os olhos no mundo - vislumbrei formas;
olhos postos no tempo - li consciência.
Os olhos viam óculos, leis e normas,
por dentro eram lentes de essência.
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São lupas escondidas do outro lado
nas pupilas fulgentes, obscuras...
perfeito é o estado clareado
mais ciente, atrás das lentes puras !
.
O nosso ser retém-se na emoção;
vaidades e riquezas leva-as o vento...
ouvir bem é usar o coração.
.
A emoção induz o sentimento...
essa sim, é a alma mais intensa
fazendo-nos sentir a vista imensa.
 
 
   Francelos, Março de 2001
 
 
 
 
 
 
 
 
 
                                                                            DEO IGNOTO
 
 
Quem é esse Deus
criador da terra e dos mares
povoado de seres completos
de perfeitas imperfeições?
Quem é esse Deus
mudo na nudez das formas?
 
                                                  Abandono ou mistério ?
.
Quem é esse Ser
na secura dos séculos
feito Homem
e pelos cidadãos Deus nomeado
crucificado com expressão de abandono
olhos de angústia
e de braços abertos?
.
Quem é esse Deus
a quem desconhecemos o contorno
e nos faz pensar
sermos robertos?
 
                                                                                                                            1979
 
 
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                                                                                    Dia de Finados
(Requiem aeternam eis, Domine, et lux perpectua luceat dona eis)
 
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Ano após ano em tempo de Outono
eis-me entre vós, companheiros deste dia
soluço profundo, credo na boca
cheio de nostalgia.
.
Pergunto-te, Senhor, se a viagem se cumpriu
para todos estes defuntos irmãos
e nada me dizes...
.
Insisto implorando com boca e mãos
olhos postos em lugar nenhum
e não obtendo resposta
por ti respondo
- dependeu de cada um.
.
Que a terra, Senhor, lhes seja leve
que não existam ossos que a sustenham
coberta de lajes ou de neve
sejam os Céus que os contenham!
.
Pergunto-te, Senhor, se a vida se cumpriu
e não obtenho resposta
é então que eu respondo
- para a arrogância o céu nada lhe deu
para a ambição tudo foi em vão
para a humildade o réu humilhado
foi exaltado.
.
Se não pedimos a ninguém para nascer
tão pouco para morrer
à mercê de quem estamos, Senhor?
Do dedo em riste?
Do acaso que nos dá
um amargo sabor?
Insisto, Senhor, nestas perguntas
que nunca obtêm resposta
e respondo eu sempre por ti
- seja como tenha sido
cumpriu-se a dança da vida
entre a espada e a balança
como promessa incumprida.
.
E é assim, Companheiros... hoje rezamos nós
nestas campas floridas com forte cheiro a cera
e sentimo-nos sós
neste murmúrio a soprar velas acesas
prece de tantas preces
tendo por morte e saudade
as únicas certezas!
 
 Publicada na revista SOL XXI
 
 
 
 
                                                                                                                                                                MENS AGITAT MOLEM
 
 
De tanto falar dele
de tanto querer amá-lo
sem qualquer remissão
foi ele cair ao chão
e com ele a perfeição
.
Quando tentei levantá-lo
por nele me ter revisto
já ele se tinha erguido
.
Como tudo isto
faz sentido !
.
Feito por mão de artista
(com a mão que Deus me deu)
sozinho crucificado
em dois pedaços de lenho
(como foi eternizado)
não foi ele quem se ergueu
foi a gente
(os que vivemos
naquele espaço de luz)
quem ergueu
a sua cruz
.
A sua vida é lição
só traduzida no Livro
da infinda encarnação
.
E por mais voltas que dê
só é perfeito quem lê
os sinais da perfeição.
.
.
Publicada na ARRANCADA e vários outros jornais
 

 

                                                                                                                                                            Heresia
 
 
Quando Jesus nasce e é deitado
com extremoso cuidado
nas palhas da manjedoura
não é Deus originado
.
(Perdoai a heresia
que não segue essa via
duma longa convenção!)
.
É a forma do Ser purificado
nascido nascente loura
nas palhas da manjedoura
das malhas do grande dia
.
(é o Sol que irradia
e para sempre se doura!)
.
É o Bem corporizado
atingida a perfeição
duma longa evolução...
.
E é assim que eu entendo
este milagre da vida
.
...Desta sorte vou vivendo
com esta ideia sustida.

                                                                                                            1996

 
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                                                                        AUTOS EPHÉ
 
 
O barco balança
com esperança
.
As gaivotas voam
de alma esverdeada
.
...Há homens que caminham
sem esperança
.
com a alma negra
e instintiva
.
Neste rumo incerto
e curto
.
Ai da gaivota
Que renuncia
.
Com a alma escura
ao após dia!
.
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                                                 [Poesia editada no livro "Dor e Amor" (1961), traduzida e editada no jornal francês "L'UNION" (1963), dita por Philipe Gobert na Rádio Reims, e dita por Igrejas Caeiro na Emissora Nacional (1963)]
.
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                                                                                                                                                            MISTÉRIO
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Cada encontro nas ruas da cidade
a esperança do mundo clama
.
é no labirinto uma certeza
de sermos uma jornada de chama
.
o nosso encontro é desencontro
a união é oração
.
Alma livre num corpo indomável
não transige o compromisso
.
grande mistério insondável
este de ser tanto quanto
ou mais do que isso.
 .
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                                                                                                                                                    A AVE SUAVE
 
 
Deus pensou
e disse
crie-se o homem
.
e o homem foi criado
mas o homem nasceu contrariado
.
e então Deus
por piedade
voltou a dizer
.
crie-se a felicidade
e a felicidade nasceu
como uma ave suave
.
passou junto aos olhos tristes do homem
e foi pousar nas mãos de Deus
que a recebeu
.
Contudo a ave suave
ao pousar
morreu.
.

......................................................................1979
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                                                                INCONFORMISMO
 
 
esta raiva surda de querer
fugir à hora presente
.
de se sentir morrer abafado e baço
a aguardar a morte futura
.
de ser sempre igual
no limite da duração e do espaço
.
de ver minutos desenhados
na monotonia dos tempos calculados
.
de ter visto a extensão esfumar-se
em fugidios contornos vazios
.
a dor do passado sem glória
da frustração diária sem ponto final
.
raiva do presente circunscrito
a um conto já escrito
.
um futuro igual ao presente
sem perspectivas de mudança possível
.
esta raiva de ser máquina
ou robot ou títere ou escravo
.
esta de ser cigarro queimado
a sorvos de segundos paralelos
.
de ser mortal sem projecção
na terra no mundo no universo
,
sujeito à miserável condição
de maré fugaz indo e voltando sempre
.
ah quem me dera ser tempestade ou furacão
ser lava ou terramoto
ser deus ou ser harmonia
ter asas de azul e de espectro
.
esta raiva sufocante deste agora
de ser sessenta minutos da hora
.
eu hei-de sucumbir de agonia
de não morrer noutro dia
.
eu hei-de perecer empestado
por não morrer noutro lado
.
acredites tu ou não
hei-de morrer de revolta
hei-de morrer de revolta.
 
.
.
.
 
                                                                      NATAL MAQUINAL
 
 
 
 
 
 
Maquinalmente o menino foi posto
ali, sobre as palhas da manjedoura.
Todos os anos encontro-o formoso,
bem opulento, de cabeça loura,
.
olhos piedosos, divina expressão,
dois dedos a indicar a salvação.
Recebe reis que lhe rendem homenagem,
ou somos nós quem precisa desta imagem ?
.
Outro menino imaginei diferente,
pobre, franzino, de tudo carente,
de ajuda e piedade precisado...
.
Este, com tanta personalidade,
como está, ciente da divindade,
não precisa de reis magos, nem de nada !
 
 
                                                                                                                                     GENTIOS DO FOGO
 
 
Nascemos num fruto olhando uma flor
e esperamos pela noite
com o luar
pulverizando a terra
.
Lembramos então o fruto
contendo
gusanos em potência
e a flor
um ventre
com uma imensa sepultura
.
Giramos na face das papoilas
e morremos curvados
temendo os gusanos
que nos aguardam
de olho atento
e guloso
Durante o dia
o fruto é cristal
e a flor
um silêncio
inacessível
.
São espontâneos
como os estigmas
da morte
e nada nos farta
e tudo nos falta
.
até mesmo o prazer
de nos sentirmos
gentios do fogo
encarnados no fruto
amanhã
devorado
pelo tempo.
.
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                                                                                                                                  (Poesia dita por Vítor Nobre na Antena 2)
.
,
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                                                                            AO DEUS SEQUIOSO
 
 
Naquele momento preciso
em que o Sol arvora na serra
e o galo cucurita
a sua canção de fome e desespero
e o cão uiva a sua maldição
e a peste descansa sobre os resíduos
duma putrefacta canção
eu descanso a minha maldição
e desespero.
.
Nasce o dia preguiçosa e dolentemente
insuflando energia à vida quase morta
na noite de cansaço e de insónia
e ao meio dia às treze horas
a vida e a morte cruzam-se
na sua magnitude e esplendor
para agoniarem no momento
preciso e precioso
do crepúsculo sangrento
.
momento de imolação de vidas
ao deus sequioso.
 
                                                                                                                    .Publicada no Notícias de Lourenço Marques
 
 
 
 
 

                                                            SIBILÂNCIA
 
 

não há sons restituindo
a sibilância da chuva
e no entanto vivemos
.
nem há poema dizendo
de que enguiço somos feitos
e entretanto morremos
.
cheios de incógnitas temíveis
somos a própria morbidez
alegoria de sonhos
.
e no entanto vivemos
e entretanto morremos
pela doença gangrenados
.
que ilusões nos esperam?
não há sons restituindo
a sibilância da chuva!
.
.
.
                                                                          mea culpa
 
 
Eu não sou nada, Senhor,
Sou uma pedra perdida
Numa pedreira sombria.
.
Eu, eu não sou nada, Senhor,
Sou uma estrela ferida
Num horizonte sem dia.
.
Eu, eu não sou nada, Senhor,
Sou uma ave cativa
Posta aqui por engano.
.
....Que pena tenho dum anjo
Morrendo no infinito
de quem a mãe não tem seio!
.
Perdoai, Senhor, perdoai,
Mas eu já não creio em nada,
Nem sequer em mim já creio..
 
 
 .
.                                                                                                                                        Publicada em vários jornais
.
.
 
.
                3. DA GUERRA
 
 
 .
.
 
 
                                                                                                                        ANÁTEMA
 
 
Belos sonhos tivera
extintos no dia após dia
.
Flores murcharam de amargura
no estio da desilusão
.
Fantoches foram modelados
no teatro da vida
.
E ergueram-se caravelas
naufragadas
nos sonhos de beleza
.
A paz não tem lugar nem destino
nem existe um paradigma
do ideal
.
a guerra anima sempre um caminho
pela maldição desejado
igual...
 
 
 
                                                                                                                                            cogumelo
 
 
 
um dia feitor de
luz como outro dia qual-
quer deflagrou imponentemente
uma bomba inocente e abriu-se o pa-
no a um espectáculo nunca até aí admirado em
todo o santo mundo : no pacífico nascera um cogumelo
um cogumelo enorme e negro descrito poeticamente em milhares
de jornais sensacionais com espanto em centenas de países com respeito comentado por milhares
de bocas religiosas
penosamente o
cogumelo
ganhou
pernas e
volatilizou
milhares de
crianças de
mulheres e
homens o
cogumelo
foi então
admirado por
aqueles que amam
a gastronomia humana e divina:
OS ANROPÓGAFOS DOS CIFRÕES.
 
 
 
 
                                                                            VADE RETRO, SATANA
 
 
Deusa exasperada
lançando a terra fertilizada
em sangue abominável
.
És feitora de ódios
manipulando
preconceitos imperdoáveis
.
sob a tua ira
a terra vomita pó
aniquilando vidas inocentes
.
olhos sangrentos crânios cravejados
braços perdidos rastejam
despedaçados
à procura de luz
.
E o Homem de Nazaré contempla
a Deusa exasperada
para sempre imperdoada
por crianças expiando famintas
.
Repete homem repete
Vade retro, satana
.
Guerra
tudo comes e consomes
ingentes e infindas
injustiça e loucura
.
acompanhante putéfia dos séculos
peste que ninguém cura
.
Repete homem repete
War, putain, prostitute, hure, putana
Vade retro, satana
 .
.
.
 
                                                                                                                                            Natália
 
 
 
 
Natália
   
 .

                (Publicada em espanhol na revista CORMORAN Y DELFIN de Buenos Aires)

 
 
 
 
 
 
 
                                            AURORA
 
 
 
Aurora erguida
numa felicidade de vida
.
De laranja ornada
sempre laranja ou rubra
na beleza do sangue
encontrarás a razão.
.
No abismo sensível
do sumo renovado
e do espírito puro
sentirás o coração palpitar
como as ignotas ondas do mar.
.
E a guerra será ignorância do sangue
e o sangue será ignorância da guerra
e a morte será o furor do abismo
e a rapina:
o sangue da guerra e da morte.
 .
.
.
.
                                                                                                            Paris, 1963
 
 (Editada no Almanaque de Fafe - 1963)
.
.
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.                                                                             A ILHA DO OIRO
 
 
 
Debaixo dum lençol branco
dum lençol manchado de sangue verdadeiro
dum sangue amassado na morte verdadeira
está o seu corpo de filho mutilado pela guerra
morto pelas balas perfuradoras de crânios
seu crânio esbelto
vinte anos sobre a terra sorridente
.
Na luta
na luta a cumprir coagido
o seu filho caiu morto por balas assassinas
pelas balas feitas por homens
para matarem outros homens
.
Debaixo dum lençol
dum lençol salpicado de sangue coalhado
seu filho jaz heroicamente
sem saber que destino assassino
lhe calhou em sorte
para apodrecer na ilha da morte
.
Jaz com o crânio esburacado
por balas traiçoeiras
e sobre o seu corpo
onde o sangue sagrado deixou de circular
a sua mãe num gesto de angústia verdadeira
repete aquelas palavras contidas
que só o coração de mãe sabem repetir:
" Meu filho, oh, meu filho !..."
.
E o seu pai
ébrio pela dor dilacerante
lança-se sobre o crânio perfurado
sobre o crânio por balas fuzilado
e exclama baixo entre soluços
"Meu filho, porque é que te mataram!
Porque te chamam herói se te perdi!
A tua vida meu filho
a tua vida extinta
era a minha pátria
a minha nação o meu amor....
E ainda que a pátria vença o inimigo
a minha pátria a tua vida
já está perdida
contigo.
 
 .
.
 
 
                4. DA CIDADANIA
 
.
.
.
 
                                                                    DESTINO
 
 
 
..Não tenhas ilusões..
enquanto o vento é suave e carinhoso
e o mundo rejubila
com a tua canção de amor
os homens sorriem e julgam
ser sedução
.
mas se o vento devier tempestade
e um acto injusto e revoltante
te apertar o nó
pungido na garganta,
o mundo já em ti não vê esperança
e os homens adornam a sua carranca
e julgam-te um mau discípulo
.
e tu recordas o corpo amante
e nele vês o pó
pelo destino cerrado
com ninguém a pretender libertar
.
Amar todo o mundo ama                   é preciso amar
.
Mas o mundo tem diferentes faces
para outra gente
.
é suave e doce para os eleitos
e para os deuses futuros
é amargo e fel para os outros
monturos
.
não recordes o teu coração
nem tenhas ilusões
.
Vieste ao mundo para seguir a sorte
deixada vaga pelo destino dos outros
.
és a pedra da calçada
impossível de ficar na pedreira
porque não tinha à beira
a cepa
duma videira.
 
                                                                                                                                1969
 
 
Ao pescador
 
 
Alma clara
com tempestade do mar
.
Traças teus poemas
no pão minguado
que ganhas na ânsia
do sustento
.
És o alimento da esperança
e das desilusões conservadas
em mágoa
.
 Tens em ti a garnde força de vencer
    Contigo fui ao mar
e te ajudei a remar
.
Comigo partilhaste o peixe
na rede vindo a saltar
.
Fiquei no entanto a perder
porque não aprendi contigo
a tua força de vencer
.
Mas hei-de voltar ao mar
e contigo remar!
 
 
 
                                                                                                         Publicada no NOTICIAS DE OVAR
 
 
                                                                  COMPANHEIRO
 
 
O importante é a pessoa,
não são as fontes nem os montes.
 
É a pessoa que fascina
e não o que outrem destina.
 
O importante é a pessoa,
não são as longínquas estrelas...
 
Esqueçamos por momentos
as flores, que só de vê-las,
o rumo perdemos!
 
Os astros não têm rasto,
só tu o tens, companheiro,
 
só é possível ter pão na mão
sem que te domem;
é assim que se é homem!
 
Numa das mãos o ramo da oliveira
para que a vida seja inteira
e no teu manto não caiam o pranto
nem a mágoa.
 
Tens o rumo certo, a mente sã
ao olhares de frente
em todos os olhos da gente...
 
Na mágoa,
existe a água da fonte
que lavará amanhã
as estradas do horizonte.
 .
.
                                                   (Poesia  dita por Vítor Nobre nas Antenas 1 e 2, em sinultâneo, no Aniversário do pianista Adriano Jordão, na Casa de Mateus em 18.09.96)
 
 .
.
 
 .
                                                                                            Da diáspora                                                                                                                                                                                                                                                         (A M. Cerveira Pinto e M.Nogueira Borges)
 
Homem errante pelo mundo
no mundo encontrando novos mundos
à volta do ideal tecendo sonhos
de pátrias acomodadas
.
Homem errante pela Europa e África
anos irreversíveis
escoando a mocidade em noites agitadas
onde te encontras hoje
que ideais ainda te absorvem?
.
Homem visto corpo irrisório
errante de país em país de cidade em cidade
cavando servindo contando traduzindo
vivendo mal o curso dos anos na esperança
onde está a esperança
ainda tens a esperança?
.
Homem seduzido pelo ideal da cristalina perfeição
perdidos dois anos na guerra africana
e dois anos antes na preparação
e cinco anos ainda antes refractário
ido e vindo e ido novamente
que sonho quixotesco ainda te abastarda
que sonho grotesco te vai traindo
expulso de mão em mão?
.
Que decepção homem simples e são
se colou aos lábios e treme a mão
para te sentires sentado no chão
em terreno vão
que sonhos te traíram
que esperanças desfeiam a tua canção?
.
Porque não te deitaste dócil como um cão
e teimas em uivar nas noites de luar?
.
Homem sem pátria fixa
ou terra sedenta
dividido no mundo como bastardo repulso
que esperas da vida senão a morte certa
o pó suave o calhau duro
Mas ficará ao menos
o sonho e a esperança
no futuro?
 
 
 
 
 
                                    LIBERDADE
 
 
 
Palavra mágica orgulho de deuses
renascida hoje dos ventos obscuros
acariciando nas suas mãos um Povo amado...
.
Vinda das estrelas fruto suculento
pulverizando um solo estiolado pela calúnia
os olhos bebem as fontes do amor
renascendo da tua face iluminada
.
verde vento veloz brilhante de esperança
os dedos já não se projectam nos céus
mas estreitam-se nos dedos dos outros homens
.
fecundo vento da verdade
vento portentoso vento
.
Respiro a tua mensagem
com sede imortal de flores
desfeitos os fantasmas da neblina violenta
.
trazes a chama dos heróicos testemunhos
és vinho a merecer taças vazias aguardadas
.
Vinda do Sol sintonizando Homens
as aves da promessa do futuro
chilreiam belos sonhos cor de jade
e o canto da anunciada
liberdade.
 
 .
.
.
                                                                                                                            Lourenço Marques , Maio 74
 
 
 
Publicada em vários jornais e páginas literárias
 
 
 
 
 
 
                                                                                                        POLÍTICOS E LEÕES
 
.
políticos e leões paralíticos e escorpiões
sifilíticos patríticos fulgazões
corações martelíticos entre anões
minha pátria de povo espoliado
.
patres padres e pais padarias e cais
padrinhos e calaceiros mandriões
fornicões na furna dos compadres
iguarias e sais vinhos e curandeiros
.
martelam o marmelo dos que têm
matres madres mães mamas e fães
madrinhas orleães vê lá se te vens
.
e o deus (ou os deuses) o inferno e o céu
coseu-nos o cu seu e somos ferro
e chapéu feudo do deus que lhe sucedeu.
.
.

...........................................................1973
.
.
.

                                                                POVO DESDITO
 
 .
.
.
 
Menino prodígio
filho de mãe sem pai
ensina o catecismo
a este povo desdito
que não sabe o caminho
por onde vai.
 
 .
.
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                                                                                                                     Editada em vários jornais e páginas literárias
 
 
 
 
                                                                                                                                                        Lavradio
 
 
No extermínio diário do turbilhão das cidades
um povo espera a hora exacta
refractário ao dever imposto
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Alma e corpo esperam
o milagre inefável
céu redentor das dores
via utópica do paraíso
quase alcançado em momentos perenes
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sinos amargos alarmes simples
acerbos espinhos de cactos
onde os corvos gravitam
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Todavia o homem há-de gravar
na pedra o seu destino
e então
o sangue deixará de ter exílio
no bravio da humilhação.
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                                                                                                                        .                                                                        1965
 
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 Continuação da Antologia Líquida