POEMAS
de
Neste link pode ler quatro Poemas:
1. O Auto das Sete Partidas
2. Cibele
3. O Quadro do Teu Sorriso
4. Eroticu
.....................................................................................................................................................................................................
1.
O AUTO DAS SETE PARTIDAS
.
.
.
Naqueles anos de guerra
do território africano
certa vez um português
beirão varino e vareiro
nado no dia primeiro
do primeiro mês do ano
um dia imperecível
porque não é divisível
.
É unidade de Deus
sejam cristãos ou ateus
.
Estóico por natureza
viajou de cais em cais
como fazem os beirões
cresceu e viveu de mais
.
A Crendice
Estóico por natureza
és a tua fortaleza
.
Aqueles anos de guerra
trouxeram sete pecados
sete pecados mortais
em treze vidros partidos
em treze gatos sombrios
treze sapos peçonhentos
treze alfinetes espetados
em bonecos embruxados
.
Estóico por natureza
conheço a tua fraqueza
.
Treze alfinetes cravados
em fantoches embruxados
.
.
.
Naqueles anos de guerra
um português duma tira
posta à beira do mar
beirão varino e vareiro
nado no dia primeiro
do primeiro mês do ano
fugiu daquele rincão
terra de superstição
e ao Mundo se meteu
.
Fugindo das sete Igrejas
com sacramentos traídos
pois ao Mundo se meteu
e pelas sete partidas
em todo o Mundo aprendeu
que havia sete saídas
.
.
.
.
O Destino
.
.
Havia sete partidas
e outras tantas saídas
.
Escolhi cartas da sorte
para te evitar a morte
naqueles anos de guerra
em território africano
.
Quinas pregadas no peito
hás-de retornar ao leito
armado de honrarias
.
Primeiro tens de cumprir
e na guerra consumar
como acontece aos demais
sete pecados mortais
.
Por natureza estóico
sou o teu caleidoscópio
sou o teu caleidoscópio
.
.
.
.
Do litoral o beirão
terra carente de pão
.
na diáspora da terra
montou os sete cavalos
que Orfeu lhe emprestara
.
E correu assim montado
sete partidas do Mundo
aprendendo novas línguas
deserdando o seu passado
despojado do que amava
e do que era profundo
mais profundo do que o fado
.
Correu a Europa toda
cinco anos refractário
.
Cinco línguas aprendidas
na crista do calendário
a coroa dum fadário
.
Cinco anos escapando
à guerra dos treze anos
tirania dos arcanos
.
A guerra continuava
.
Com saudades do chão
voltou assim o beirão
dia sete de Setembro
e semeou sete plantas
que florescem em Abril
em Abril de cada ano
na ponta de cada cano
.
A crendice
.
É preciso muito azar
para crescer com a guerra
.
Hás-de ir e hás-de
voltar
à tua nesga de terra
.
Sofrerás o teu destino
como beirão e varino
.
Hás-de sofrer muito
mais
as doenças dos teus
pais
quando souberes os segredos
da idade mais altiva
dos teus cinquenta degredos
.
Estóico por natureza
vais suportar a vileza
a crueza dos fiscais
comissários cães
de guarda
por não vestires a albarda
.
.
.
.
..Foi
o destino ardente
que aqueceu o seu berço
.
Foi azar o ter nascido
na cabeça da Europa
das terras do fim do mundo
.
Foram as brigas nos montes
com camaradas do peito
que o levaram às fontes
do horizonte sem leito
.
Foi o mar da fantasia
do destino português
que o levou a trocar
os cavalos de Orfeu
por outros sete cavalos
que Neptuno lhe cedeu
.
E escolheu esta parte
das cinco partes do Mundo
para conhecer a Arte
e o amor que é profundo
.
Foi o destino ardente
que aqueceu o seu berço
foi azar o ter nascido
em terra sem endereço
.
Foi o mar da fantasia
que lhe trouxe o deus Neptuno
em noite de maresia
para lhe dar novo rumo
.
.
.
O Político
Fui o teu mestre de outrora
nem sempre me acreditaste
mas chegou a tua hora
de errar o quanto baste
.
É hora de meditares
nos desígnios de Deus
e se não acreditares
no que te digo agora
já não pertences
aos meus
que no arrojo das horas
deixam ficar as esporas
dos cavalos de corrida
na sepultura da vida
.
.
.
.
O Beirão
.
.
Farto de superstições
amassado com azares
políticos da traição
tento mudar esta gente
.
Ensino-lhe outras lições
desmistifico os lugares
gentios da negação
.
Políticos da traição
a subtrair o pão quente
a este povo tão rente
por não ser tão
exigente
quanto aspira a melhor gente
.
.
.
.
O Mensageiro
.
.
Trago-te novas Amigo
eu te falo ao umbigo
.
Em cada lugar onde estejas
quero eu estar contigo
.
Ignora a ladinice
adestra a sabedoria
vive bem o dia-a-dia
.
.
.
.
O Beirão
.
.
Traz-me novas mensageiro
desfaz a superstição
Reduz a nada a peçonha
eu não sou um condenado
por m'apontarem o dedo
num gesto de danação
dá-me um destino feliz
que é azar não
ter chão
nem o destino que quis
..
Muda o siso do político
que arrecada o trigo
do joio que o povo come
.
Ele é voraz na comida
em terra que é suicida
de gente que sente fome
.
Não só falta
de sustento
mas avidez da razão
de querer mais dignidade
tal e qual uma cidade
com muita alegria e pão
.
.
. .
Naqueles tempos de guerra
um português foi chamado
para lutar contra a morte
cerrado na ponta da terra
seu rincão abandonou
com três vezes sete anos
e três vezes acenou
a mágoa dos desenganos
nos cavalos de Neptuno
.
Correu o Mundo que é seu
e acusou alguns danos
sonhou com um Mundo uno
com três línguas no
saber
Correu a Europa toda
com medo de se perder
.
Mais duas quis aprender
e aí se entendeu
com os amigos de Orfeu
e seu rival Aristeu
.
Sete é o número perfeito
ao sete se recolheu
com o sete ele venceu
.
Foi às sete maravilhas
do mundo que percorreu
.
Falou com os sete sábios
no oráculo de Delfos
recolhendo ensinamentos
sete virtudes nos lábios
.
não há como viajar
aprender geomancia
compreender o dia-a-dia
nunca esquecer a história
do Caím cheio de inveja
que assassina seu irmão
o preferido de Deus
ficando p´ra todo o sempre
condenado com os seus
a viver eternamente
em covis de perdição
.
assim digo assim seja
ó puta, ó puto ruim
profecia de Caím
vais sofrer o teu degredo
na palavra do segredo
.
algo aprendeu o Beirão
para sair do caldeirão
para fugir à fogueira
para ser salvo da guerra
de muitas outras ciladas
as quais lhe foram urdidas
pela inveja e a cobiça
dos que castram qualquer piça
(ai que grande palavrão
rezem por ele na missa
p'ra que tenha remissão!)
.
.
A Sorte
.
.
No meio de tanto azar
virás da guerra contente
porque nem toda a gente
há-de morrer ou matar
.
Mas outras guerras terás
em que te hei-de ajudar
exorcizo-te o azar
.
.
.
.
A Malvadez
.
.
Quero anular-te o poder
da gente que escreve bem
e critica o saber
dos que só dizem amen
.
Recorro a Satanás
às maldades desta terra
à cabeça desta
fera
aos magos e bruxas más
ao político sagaz
ao caldeirão e ao seu
gás
aos sapos mais peçonhentos
aos bonecos embruchados
com alfinetes cravados
às cobras e aos lagartos
a rebentar de tão fartos
.
Que te matem aos bocados
peça a peça do
teu corpo
e te encerrem na cadeia
até saíres de
lá morto
atirado numa seia
de antropófagos cheia
.
Anulo-te o teu poder
de informar a verdade
nas masmorras do teu ser
construirás outro Sade
.
.
O Político
.
.
Cerquem-lhe os passos libertos
p´ra ser para nós
danado
.
Nunca o deixem singrar
que se torna perigoso
deixado em liberdade
.
A verdade é traiçoeira
armem-lhe uma ratoeira
.
Construam laços malvados
perseguições
do diabo
inquisições as
mais reles
castrem-lhe o dom que possua
Caluniem-lhe o negócio
inventem maiores ciladas
nem que sejam arriscadas
.
Não deixem que goze
o ócio
esse é bem o meu negócio
.
Difamem-lhe as relações
caluniem sua vida
inventem grandes pecados
tirem-lhe a própria
guarida
.
Soltem-lhe os cães de
guarda
comissários e fiscais
dêem-lhe porrada em barda
até não aguentar
mais
.
.
.
..Armaram
laços de morte
ao beirão sete costados
fôlego de sete gatos
amordaçaram-lhe a sorte
inverteram-lhe os dados
perseguiram-no com cactos
espinhos da rosa dos ventos
desfizeram-lhe os eventos
em nome de três beatos
.
Quiseram-no pôr de joelhos
desfazer-lhe os artelhos
arrancar-lhe os pintelhos
humilhá-lo em praça
pública
com escárnio maldizente
.
Minaram-lhe as relações
anularam-lhe as lições
basculharam-lhe as gavetas
e inventaram só petas
.
Afectaram com veneno
a pureza de emoções
.
Com o tempo adoeceu
este beirão embruxado
intestinos canceraram
seu coração fraquejou
sua pele cinzelou
.
Foi de facto uma praga
qu'o governo lhe lançou
p'ra reduzi-lo a nada
e o lançarem ao mar
historiando uma linha
- lembrando o antigamente
a quem queriam matar
por papar a criancinha
.
Porém ele quase morto
tudo isto superou
graças à sorte ao
arcanjo
ao mensageiro de Deus
fez dos males sua força
sua e de todos os seus
refugiou-se do mar
Tudo isso superou
recuperou num esgar
Ó gato de sete fôlegos
ó gene da grande Fénix
carne dura de roer
ó asa de Santo Onofre
quem o deve socorrer?
.
.
.
.
A Sorte
.
.
Sempre te hei-de ajudar
exorcizo-te o azar
.
não irás para
a cadeia
por urdida tuta-e-meia
.
Há bagatelas urdidas
inquisições do
diabo
perseguições
fura-vidas
labéus na vida do rabo
.
porém ao fim e ao cabo
não acredites no fado
dar-te-ei o prémio certo
um arcanjo muito perto
.
o melhor gene da Fénix
eu te vou inocular
.
das doenças que tiveres
das devassas que sofreres
exorcizo-te o azar
renascerás num esgar
.
.
O Político
.
.
Nunca mais terás a paz
ó ave desconcertante
enviar-te-ei os fiscais
mum voo muito rasante
para inquirir tua vida
dar cabo dos teus negócios
farei jus de grandes ócios
a eles tenho direito
.
Espreitarei tua vida
tentarei que saias dela
com cabeça amachucada
mais uma perna partida
a saúde combalida
e a vontade finada
e a voz enrouquecida
.
.
O Beirão
.
.
Só tenho fé na
Justiça
e no gene inoculado
.
Vou recolher-me da liça
do vento da danação
do soslaio da maldade
fazer o que ninguém
fez
viver na paz do senhor
da grande sabedoria
viver bem o dia-a-dia
.
.
.
...E
foi assim meus senhores
qu'este beirão embruxado
que quiseram condenar
à desonra à fraqueza
se preparou p'ra atacar
.
Fê-lo com toda a calma
qu'inda tem para doar
curou todos os seus males
ninguém ficou sem resposta
a vida é grande aposta
só a ganha quem lutar
..
Uma luta bem terrível
podendo ser mais temível
ganhará quem for mais crível
.
Tudo isso vai constar
do que vos há-de contar
por isso não despegueis
das revoadas do mar
.
Sente-se bem o beirão
embora os anos já pesem
nos males do coração
.
É vê-lo cheio de paz
por saber que é capaz
de fazer uma justiça
a quem agiu por cobiça
ardiloso capataz
de políticos de caca
os grandes mangas de alpaca
.
virão decerto de maca
cagalhões de jacaré
invejosos só desgraça
malcheirosos da ralé
abutres de pila lassa
passarinhas sem orgasmo
desfalecendo de pasmo
.
estarão prontos somente
a palmar a nossa massa
gente no fundo danada
privada da vida alegre
da pureza e d'harmonia
canalhas qu'enfim não sabem
viver bem o dia-a-dia
...
.
..
A sorte
.
.
Não creias na actividade
dos malvados deste mundo
nunca mais lhes dês descanso
vai à luta sem remanso
.
Vais ter que sentar no banco
alguns dos torpes fiscais
corrompidos pelas notas
que todo o tempo cobiçam
.
Vais ter que os sentar no mocho
comissários e fiscais
no mocho dos tribunais
.OO
.
.
O Mensageiro
..
.
Expande a sabedoria
não temas tanta sandice
e vive bem cada dia
.
Vive com sabedoria
.
Queres do sábio três
conselhos
vais tê-los sem pedir
mais:
ausculta com atenção
os sons dos mestres melómanos
são a tua redenção
afastarão os pirómanos
.
lê filósofos poetas
recolhe o mais que puderes
não te exponhas muito
ao Sol
que traz as forças do
Mal
não ponhas pé
em pó mole
nem pulverizes de sal
a luz pura do cristal
.
ornamenta a tua casa
com sebes de verde intenso
e flores de imensa alegria
mete-lhe arbustos frondosos
arbustos de grande porte
escutarás os chilreios
de passarinhos bondosos
cada vez serás mais
forte
.
se tudo isto fizeres
as aves da maré vasa
levantar-te-ão do berço
num brinde de harmonia
suspenso numa só asa
abençoando o bom dia
.
ornamenta a tua casa
com flores d' imensa alegria
.
.
.
. Ressurge
sistema solar
nove planetas enormes
Nove irmãs
.
ele vê chorar
e aos cérebros informes
faz-lhes contas de saldar
.
Soldado que nunca dorme
e que morreu em La Lis
sepultado na Batalha
no seu Mosteiro de giz
.
A ele recorre o beirão
que fugiu da mártir terra
para evitar uma guerra
e procurou o amor
como o povo procura
a chama do pundonor
.
Acodem anjos do céu
o mensageiro da sorte
arcanjo de grande porte
.
Evitam-lhe as armadilhas
que ameaçam com morte
.
Exorcizam-lhe a maldade
a manha e o fingimento
que o trazem em tormento
nesta altiva idade
.
Ampliam a sabedoria
que contém as nove musas
trigança de muitas cãs
meio século de afãs
corpos sãos em mentes sãs
das artes das nove irmãs
.
Só elas podem salvar
este português beirão
amigo do seu irmão
diáspora de cinquentão
a sorver aprendizagem
.
Trazem-lhe a sorte oculta
do mensageiro de Deus
.
É homenagem adulta
aos cristãos e aos ateus
que duvidam da aragem
de quem vai na carruagem
à espera dum adeus
de quem está na estalagem
a maltratar qualquer pajem
.
Soou a Hora soou
Hora da sabedoria
Há outra Filosofia.
Terras das Beiras,
1996
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
1
.
.
Vivi longo tempo só, e apenas
acompanhado por um vento deliciado de maresia, por uma panorâmica
raiada duma enorme calma fluvial, e ainda por ma paisagem transbordante
inebriante de sussurros emudecidos por uma fonte musgosa, onde a alma sabe
renascer. E ainda que hoje sinta toda a vida feita imanência e toda
a beleza da criação, nem sempre isso assim aconteceu; receio
que a razão seja um ditado, que obriga, como as leis... Esse bem,
que não durava, beija agora a minha fronte, antes cansada, agora
renascida. E eis-me a contemplar de olhar imune os céus azuis, profundamente
azuis, querendo partilhar uma eternidade que antes fui coarctado a repudiar.
Só este azul claro de mar e de céu sustenta a minha força,
a minha vontade, o meu de desejo de continuar vivo. Cansado de olhar mantos
diáfanos e fantásticos; fatigado por ver somente justiça
anímica na imaginação, e extenuado de ouvir as promessas
ardilosas de futuros celestiais, de castigos vingativos, aprendi com mais
vontade e amor, a admirar o que me agradasse de corpo e alma. E em consequência
desta aprendizagem basta-me olhar as urzes do monte, verdes dum lado, queimadas
do outro, para achar nelas toda a harmonia da Terra, toda a relutância
em existir e em sofrer as agruras tempestuosas do fado... sofrer?... não;
amar o que de mal nos parece, para que o mal se transforme em bem e o bem
se transforme em rastro único, projectado pelo porvir além.
...Companheiros, parece que o meu
estado geral é convalescente; ainda sou quiçá corda
bamba no segundo período da descoberta. E, talvez, como incentivo,
para que vos fale de um reino harmonioso, que é o nosso, vos tenha
de falar duma noite tão escura, tão escura, que a mesma escuridão
me reduzindo na compressão, obrigou-me por forças contraditórias
com efeitos de expansão a encontrar-me a mim próprio no equilíbrio.
Pois que quando pensei que tinha vislumbrado toda a visão do Mundo,
como uma lágrima de dor, apertei os braços, cerrei as pálpebras,
e encontrei o meu ser, deduzindo que essa lágrima era puramente
o meu eu. Lágrima que se liquefez tombando e desaparecendo sobre
a terra, ao contemplar o Mundo que mais tarde me sorriu por saber que o
mais forte de alma, é o que mais poderá amar.
.
.
2
.
.
...É noite; noite tão
consistente como o breu, tão triste como a chaga.
É noite; noite tão
brumosa como brumoso é o mar em dias de nevoeiro, tão sonante
como o silêncio do sepulcro. O meu coração é
noite e da mesma película é minha alma.
Quem virá bater de noite
à minha porta e dizer-me que o Sol nascente raiou no horizonte?
Quem virá pedir esmola mitigada ao limiar da minha porta, se esta
é igual à de quem pede? Porque nasci mirrado em palhas apodrecidas
e para que cresço colado a outras envelhecidas sem a distância
de horizontes a alcançar? Que canto dirá que o Sol se pôs,
se o Sol nunca vida para quem vegeta? Para que dizem que é belo
o murmúrio da fonte, se o murmúrio não passa de murmúrio
emudecido? Para que dizem que os deuses são bons ou são mitos
admiráveis, se o efeito do bom ou da maravilha nunca poderia ser
a escuridão da noite?
É noite de dia e noite de
noite. A vida perdeu a vida imaginada. A luz cinza que me alumia pelas
grades da masmorra onde aconteço, é escassa e é também
noite de bruma.
Quem dirá que a chuva veio
encher de alegria o lavrador expectante, se a noite anula todo o sentimento
que tenta escapar-lhe?
E eu digo que os outros são
como eu na igualdade da criação, porque mo disseram, e, como
é escuro, renego a procurar a luz que eles transformaram em chaga,
em neblina de silêncio. Não vejo mar na minha praia, não
vejo campo no meu quintal.
E porque é noite, permaneço
curvado, cabeça entra as mãos, gemendo e chorando sentado,
murmurando aos ventos gélidos a minha lamentação enraivecida,
tendo na massa do sangue em ebulição o impulso da revolta
a gritar quando levanto a cabeça, e depois o corpo, como o lobo
numa noite de luar cheio de medo, mas assustando todo a montanha e vales
sobranceiros, perdido da alcateia, jurando aos séculos vindouros
que a vida continua danada e desprezível.
.
.
3
.
.
Ó Mundo, se estivesses entre
os meus curtos braços, meus braços seriam longos para te
esmagar! Qual modo me sinto debater nas trevas! Que miseranda a vida se
tornou, se é que algum dia, algum minúsculo dia, ela foi
diferente por artes de magia! Quão infeliz, desprezível,
abominável foi a obra que se criou por si, sem princípio
nem meio nem fim! Só a morte, só a inexistência, só
o nada, seriam benfazejos. Para que peço a protecção
dos deuses, se os deuses erraram a sua obra e ainda estão mais desprotegidos
do que eu, porque de mim dependem para existir ao serem ou não nomeados?!
Ó desgraçada e maldita e amaldiçoada humanidade que
não encontraste um objecto igual ao teu nome, ou um projecto realizado
que o igualasse!... Ó egoísmo generalizado dos homens e das
divindades, construídas no seu imaginário, como vos podereis
compatibilizar e coordenar numa humanidade à espera de ser solidária
com as pessoas que carecem de solidariedade?!
Cubra-se, cubra-se toda a humanidade
de luto da noite, pois que a existência do homem conflui na morte
e a ela se reduz à luz milenar! Que venha a Guerra que devaste tudo
o que se operou em vão; tudo o que nasceu desprovido do menor interesse!
Que venha uma praga, dessas que puseram os povos à míngua
e na penúria, e pulverize toda a corja animal que habita o planeta!
Oh, como és, como sois,
Universo: um conjunto de forças malvadas conducentes à perfídia
e à crueldade!...
Oh, Mundo, põe-te nos meus
débeis braços e meus braços serão fortes na
suficiência e na abundância para te esmagar!...
Oh, Mundo, põe-te na minha
boca e os meus dentes serão algozes, que te degolarão a cabeça,
como sejas um verme digno de lástima!...
E depois disto, oh Mundo, se vires
que o homem na sua cobardia de morrer ainda persiste, sê tu o herói
que se vence a si mesmo... e então ó majestoso Universo,
crê que os deuses te abençoarão, uma vez que no seu
debate elas prometeram que só tu os poderias livrar das cordas de
mordaça que os prendem ao penedo megalítico, onde as águias
sobranceiras os virão tragar ao lado dos abutres que comerão
os restos do repasto!
.
.
4
.
.
Quem veio beijar a minha fronte,
que vai ser o ontem da vida, julgando que eu estava acordado?
Quem veio cariciar os meus cabelos,
sabendo que eles nunca e até nunca mais foram de seda?
Sinto que os meus olhos querem
abrir, porque de tão fechados só me sinto uma figura fantasma,
um espantalho inútil, num deserto tenebroso. Experimento que o meu
coração quer pulular de mansinho, cansado de descansar na
espera do dia último e derradeiro. E ontem que há-de ser
porventura quase o ontem primeiro, pois que no seu ser uma existência
de formigas o imitaram, deixando história com leis gerais, esse
ontem foi hoje banhado por uma luz ofuscante, reflectida num candelabro
de bronze; tocou-me as pestanas com um Sol a erguer-se majestoso no horizonte...
brilhou... e como o que brilha e é real atraiu os meus sentidos.
É a altura de preencher
o ontem da humanidade!
O Sol clareando as nuvens banhou
as torgas do monte e os fetos dos torrões... O Sol espelhando-se
nas ondas elevou a perfeição dos búzios e da conchas.
O Sol espelhou raios nas oliveiras
e nas couves do campo.
O Sol abriu clareiras no moliço
e nas águas clamas da ria e da ribeira.
Os melros levantaram-se na madrugada
franzina e de bico amarelo entoaram cantos sonoros estridentes de geada.
Os coelhos entraram mais depressa para os covis porque adivinharam que
a aurora ia nascendo... lentamente... lentamente. E como as toupeiras lentamente
vão construindo a sua rede subterrânea, assim eu irei operar
insensivelmente a minha rede sensorial...
.
.
5
.
Gri-gri-gri...
Vozes de grilos. Um luar tal qual
uma alma de profeta. A Lua redonda tal qual a solidão, beija com
vozes de medicina o solo bronzeado do monte que vai ligar as dunas brancas
da costa marítima.
Num voo sereno e ébrio,
de êxtase, uma agulha cai lá do alto; cai e tudo em volta
mantém o ar calmo e doce duma virgem adormecida num sonho de fadas
e de danças delirantes e sobradas.
O cheiro agudo a sémen floral
perfuma o solo tépido.
E enquanto o milho, ondulando ao
sabor da brisa morna, parece a inquietação do mar, os altos
troncos bailam num vaivem constante, embalando o filho do céu e
da terra, que uma estrela distante persegue em ritmo baloiçante
para não perder o fim da noite que será o seu dia primeiro.
A doçura dos torrões
de mato, de saudosa pela solidão branca duma geada que havia cobrido
a leituga e a fraga, expira um lamento cativante na temperatura morna de
quem vive de frutos e de amor bem desenhado.
Às papoilas, vem do penhasco
o seu pão e o seu vinho, um ritmo de fogo e de espanto, a reluzir
de gosto e de sonho, como quem cria graça no desengano.
É a novo fim da noite. A
noite primeira. A noite que se confunde com a aurora do sempre.
.
.
6
.
.
Qual modo nasceste, nascente, parida
entre a fenda feliz de dois penedos e como te conservas leal e amorosa
num cântico murmurante não o poderei adivinhar, ainda que
te possa imaginar. Não importa, porém... o que importa é
realizar o Bem que tu deténs por natureza. O que importa é
que sejas a parábola das parábolas, cheia de amor e ternura,
cheia de calor e ventura, cheia de suavidade e frescura.
Parida no teu começo, tu
és o exemplo da vida digna de ser vivida palmo a palmo... e no traço
a eito feito pelo tempo, inexistente face ao Ante e ao Após de linha
eterna, és verificável de ser olhada pelos olhos dignos de
tal nome.
O aroma picante dum frio que aquece
a alma, envolve as rochas que te banham numa humidade que deixa saudade
a quem quer que um dia o tenha ladeado de face rubra.
É a Vida que dá vida,
é o Amor que dá amor e é a Alegria que dá alegria.
E, como assim, que mais haverei eu de fazer além de ladear a minha
fronte sobre as vossas faces rubras de infelicidade, de mentira e de depravação?
Já isso é tanto e
isto tão pouco!
.
.
7
.
.
O vento fresco e repousante, nascido
das correntes marítimas traz da sua aliva um sabor amaciado de algas.
E eu estendido por cima da carqueja, caruma e folhas de eucalipto com cheiro
silvestre e montanhês, penetrante e forte, recebo na minha cara uma
indecisão de amor repartido por igual.
Amoras e morangos, ofertas do terreno,
aumentam a vibração dos sentidos à mistura com as
correrias lentas das formigas por cima dos ombros.
Tão claro dia, com o luar
se confundiria numa vaidade baloiçante e feliz! Aleluia! A vida
circunda-me e eu circundo a vida, como se, de qualquer forma, ela não
pudesse viver sem a minha companhia. Mosquitos, cigarras, grilos, carochas
e gafanhotos pululam à minha volta e eu, no meio deles, é
mesmo um dote mui difícil de alcançar. As canções
dos cucos, dos melros e dos gaios, diferentes e intermitentes, suaves e
ternas, confundem-se na minha alma, qual diapasão repercutindo o
som da Beleza.
Ali, junto ao mourejar da fonte,
junto ao cetim lânguido das flores da giesta, ali, um coelho podre,
ao ser devorado por um festim de vermes negros, dá vida e irá
viver nas células de novas vidas. Aquela vida que já havia
nascido da decomposição, decompôs também, chegada
a sua vez, a sua forma unida, para dar novas unidades à vida infinita
dos seres e do ser.
.
.
8
.
.
- Criei a temperatura mais amena
para não saberdes se fui eu que mudei, se sois vós que deveis
mudar
- Enchi de água límpida
a minha taça para beberdes do lado em que bebi
- Carreguei o meu barco moliceiro
de algas raras para dividir de igual modo pelos vossos campos depauperados
- Enchi o meu cortiço de
mel revigorante e saudável para espalhar pelo planeta o odor dum
remoto desejo apetecível
- Aceitei carregar frutos em cima
dos meus ramos para que esta dádiva vos possa deliciar
- Quis receber correntes no meu
céu para que as nuvens, daí nascidas, vertam por cima de
vós um novo elixir
- A minha mó rodou de novo
sob o caudal do rio porque um novo pão terá de ser dividido
pela humanidade
- Lancei ao húmus novos
grãos na esperança duma nova colheita depois da sementeira
e na certeza de repetir o gesto nos tempos que virão
- Converti a minha sombra em cepas
de nova vinha para vos saciar a sede anímica que há longo
tempo mantendes
- Enchi de água límpida
e desusada a minha taça para beberdes do lado em que bebi
.
.
9
.
.
Uma aragem salgada e talentosa
ergueu a minha cabeça ao elevado mundo dos castelos cinzentos, construídos
suavemente pelas depressões atmosféricas.
Miríade de pontos reluzentes,
a reflectir os pirilampos do campo, jogando entre as lufadas de vento os
seus frutos de luz ténue e preguiçosa...
Do aroma nocturno fica-me nos lábios
ressequidos a humidade mansa e hesitante de carícias franzinas,
espalhadas por cima das areias, nas quais me estendo.
As águas do rio por cima
do limbo contente emitem canções de embalar e das suas lindas
melancolias ressoam pensamentos repousantes.
E eu sinto-me um vagabundo longínquo
rolando em cima dum ambiente de delícias na ânsia duma lembrança
sempre nova, encarando o mundo como uma margarida cujas pétalas
infindas vou arrancando lentamente... lentamente...
...Ó manto preto que continuas
em ti uma existência amargurada!... porque te fechas na cela à
espera do que se vê impassível?
Oh, que grande desilusão
senti por durante anos esperar um fruto inexistente!
Ó alma ingénua e
dolente, é de ti que espero a conversão! É por ti
que abro as veias e deixo correr o meu sangue, até que o seu caudal
te possa banhar. Porque te fachas? Porque te fachas se tens todas as portas
abertas na Natureza? Já lá vai o tempo em que fui um pouco
de ti e por isso me dirijo até ti para que me ouças com uma
atenção especial.
Ó alma ingénua e
dolente, é de ti que espero a conversão!
.
.
10
.
.
Companheiros desta viagem efémera,
cuja vida começou estéril, e sem frutos vegetastes uma existência
improdutiva como os cogumelos no matos selvagens! Influenciastes-vos por
conceitos, preconceitos, cânones normas de origem duvidosa. Na vossa
vingança contra a existência improfícua, entregastes-vos
aos prazeres concupiscentes. E aproveitastes as flores artificiais para
criar lodo poluído nas vossas almas. Assim como o artifício
em que vivíeis, assim foi a vossa existência, julgando ser
esta desta forma exuberante.
Descerrai o manto negro que vos
cobre. Queimai os véus somente hábeis na imaginação
e não são válidos e meditai na mensagem.
Como uma gema escarlate, plena
de cambiantes sanguíneos, é um globo de laranja, fixo lá
por cima do horizonte onde o mar é cinza escuro.
O vermelho, quase laranja, perto
do rosa, rasteja por cima das ondas como a cobra por cima da relva. Reflexões
de calor e desejos de simplicidade; amores de quem ama e quer amar.
Aurora. Alma sã e fiel que
vai nascer de felicidade.
Crepúsculo. Amora silvestre
de gomos naturais. Desejo de quem quer e saudade da Natureza perdida.
Quem voltará a cantar o
teu amor e a tua mensagem? Quem voltará a bater à minha porta,
para que o leve ao reino harmonioso? Quem gritará ainda o nome da
morte, se tal concretização jamais existiu. Quem voltará
a chamar morte ao que apenas se chama transformação transmutação
metamorfose?
Aurora e crepúsculo, que
belas mensagens proporcionas ao nascimento e ao fim do corpo, porque a
alma nunca morre,,, a alma estava lá antes, está aqui agora,
estará acolá depois !...
Conserva-te assim fiel e assim
alegre e verás que algo de novo nascerá deslumbrante entre
os habitantes do planeta e que a mensagem é digna de novo nome.
Morango suculento, colorido de
cores vivas, amor de redenção e de espanto, aí vai
o crepúsculo da mensagem e a aurora da nova era.
... E eu olhando o crepúsculo
do Sol, cheio de ternura vespertina, esqueci que vos falava, companheiros
desta barca que flutua na imaginação, e olvidei os meus deveres
para com a humanidade... perdoai, companheiros, mas tanta Beleza só
poderá se ressarcida com uma imaginação infinita !
As outras formas de vida podem ser modos de alienação ou
alheamento da confusão do mundo real, contudo, o mundo do sonho
é uma realidade inconfundível...
Abençoada, Cibele, que me
puseste a sonhar !
.
.
S. Vicente de de Pereira, Ovar, Aveiro, 1961
.
.
(O Poema Cibele foi todo publicado
na Antologia Poética MÁKUA 4, Publicações Imbondeiro,
Angola, 1963)
.....................................................................................................................................................................................................................................................
.
3.
O quadro do teu sorriso
.
1
.
Nos meus braços
hoje agora
até que o Sol se finde
noutra hora.
.
2
.
Dos teus beijos me recordo
com a saudade dos grandes
momentos
que duram tanto
e ao fim
ficam na memória do
tempo
até ao regresso.
.
3
.
Nestes dias de chuva incómoda
desagradável quase tenebrosa
teus olhos me acendem um Sol
radioso
qual sorriso meigo expressivo
mirando os lábios
do meu rosto ansioso
.
teus olhos
estrelas cintilantes
igualam o regresso dos
amantes.
.
4
.
Aguardo que este tempo cinzento
me traga um sorriso
dos teus lábios sedentos
sequiosos
a sugerir o abrigo
dos nossos encontros amorosos.
.
5
.
O vento agreste fustiga
os vimes dobrados
submissos de força
resistente
em atitude veneranda
.
é a natureza que me
impele
ao teu encontro ardentemente
desejado
alvoroçadamente inquieto
irresistível sempre
irrepetido
irreprimível
no impulso da paixão
que une a mente ao coração
.
é esta vontade sensível
de seguir à toa
a rota do destino
para o local ansiado onde estejas
sempre a meu lado
abrigada do vento agreste
que dobra o vime torturado
.
neste tempo em desatino
o nosso abrigo esse sim
impõe-se numa fonte
do horizonte
e tem a força do destino.
.
6
.
Num rochedo
frente ao mar
com maresia numa taça
vazia
está a tua na minha
mão com sabor a jardim
.
aspiramos o ar
maresia do mar
que mais havia de ser ?
.
é o calor do possível
do passível de ser paixão
com a ingente força
dum vulcão
ou um maremoto dos mais
ignorados
.
foi esta procura em cada mão
na tua e na minha
em cada olhar perdido
neste mar onde um povo se encontrou
e chorou sem a dor trágica
dos momentos impossíveis
neste olhar
que busca o teu olhar
com a certeza
da paixão ter a profundidade
do mar
este mar que se confunde
com a serra
que ruge e que berra
que uiva e se esmaga de planície
por dentro
.
ou de outro cabo Bojador
ou se infiltra até ao
centro
da terra
ou até à ausência
da dor.
.
7
.
Porque me chove
no coração magoado
.
será indiferença
suspeita
será mania ou maleita
.
esta ânsia pelo teu olhar
exclusivo
um brilho outrora ignorado
nos olhos que se me cruzaram
.
8
.
Há veleiros de vela
panda
no horizonte longínquo
que ficou na outra banda
da tua língua que quero
minha
como o teu sorriso
da casta
duma só e minha vinha
próxima tão próxima
que me ata no tecido
duma só linha
.
e vejo-te
no semblante atrevido
que me errou
que vai e vem tantas vezes
de mim para ti
para lá e para aqui
neste lado que quero
(sem saber como perpetuar...)
.
mas quero (oh se quero !)
que nada seja falso o que quero
desejar
mesmo que o mar engolfe
em qualquer penedo fugidio
erecto como o dólmen
mais antigo
soberbo de raridade
rochedo de realidade
e suspeição
.
9
.
Não quero mais falar
de palavras
suspeitas pelo uso
nem que o coração
seja objecto de abuso
.
só quero que a chuva
pare de uma vez para sempre
esta lágrima que enxugo
com a mão de uma luva
.
não há, nunca
mais haverá ferocidade
neste jogo ou neste jugo
que são a luta dos outros
a luta inglória dos
ausentes
.
e é meu dever talvez
meu direito
alguma vez ousar exigir
pedir peito feito
aquilo que se sussurra no leito
quando toda a vida se rende
à gloriosa paz extraída
do amor
como se ao amor nada pudesse
ser negado
.
10
.
É em ti amor que a poesia
se anula pelo ímpeto
da nulidade
ímpeto subjacente
no local infinito onde qualquer
negação
é interdita
.
E é assim que te pergunto
sem qualquer intenção
anunciada
nem mesmo qualquer obrigação
de resposta
que possa vir a ser argumentada
:
será tudo vão,
tudo imenso
tudo tão enorme que
anula
qualquer senso tudo acumulado
e só lhe resta o odor
dum egrégio incenso ?
.
Perdoa tanta inquietação
a dor do peito submisso
!
E, por isso,
pergunto-te, agora, amor,
eu te pergunto
se é isto que tu sentes
pelo teu porte liso nesse sorriso
e quanto devo acreditar
que não me mentes ?
.
11
.
Na cinza do tempo
na voracidade da vida
na agonia da memória
te recordo sempre viva
algumas vezes nula
meu amor, minha diva...
.
12
.
Quanto mais longe
de mim estiveres
mais perto estarás
é o prodígio
da memória
.
Quanto mais longe mais
perto
quanto mais perto
mais sinto a tua auréola
de glória
.
é este o papel que tenho
aberto
dum livro nunca fechado
seja qual for o fim
desfechado
.
Mais perto fica o vime
que agora se mantém
erecto
ou a cana deste canavial
que se aconchega no abrigo
deste pinhal
vivendo comigo
vivendo sempre à
tua espera
aguardando a fera
que fica em paz e retorna ao
umbigo
tal com aquela ingénua
estória
da Eva comendo um figo
.
13
.
Na cinza do tempo
tu és a luz que ilumina
meus passos com novo alento
.
Será esta a minha sina
(sina de amor)
duma glória que irreconhece
no momento da dor
este poema que se tece ?
.
Por mais que te afastes
às terras mais distantes
as mais deslumbrantes
e nessa loucura te gastes
como quem só tem de
vida
um dia de esperança
eu conservo sempre o teu sorriso
no meu siso, no meu senso
deste conjunto imenso
também pequeno
minúsculo seguinte
por vezes quase nulo
em todo o sangue
em cada músculo
no final glorioso
prodígio da natureza
que fica, ao sentir-nos, exangue
infinito de tanta divindade
rendido à estátua
de mármore
com um lugar certo
mas sem idade.
.
14
.
Esqueci na retina o sorriso
dos enigmas de Mona Lisa
.
é este o quadro não
pintado
mas que o há-de ser
por qualquer pintor hoje ignorado
mais tarde glorificado
.
Vou sendo eu quem to descreve
em linhas tortuosas nesta verve
utilizando todos as alfabetos
dispersos em todos os continentes
num papel virgem liso
com grafemas de emoção
.
Também o poeta consegue
colorir
o que vai e vem no coração
e tudo há-de ficar memorizado
no tempo eternizado
.
É em papel imaculado
e liso
que deixo o quadro
do teu sorriso.
.
15
.
Os vimes e as canas
estão pacíficos
neste tempo marinho
.
até os pássaros
saíram do ninho
e saúdam a manhã
.
saúdam a saudade
e a chegada
à miragem de Canaã
.
é tudo azul
com flocos de lã
a Norte e Sul
já não sei
.
o que existe entre nós
se é que alguma coisa
nos transcende
é o fogo que não
acende
.
há alguma nuvem atroz
para além dos fumos
a extinguir-me a voz do vento
.
será o silêncio
aquém duma paz
só existente no momento
em que o amor se faz?
.
ou será simplesmente
os resíduos do amor
que já não se
sentem
e já depois do ardor
na cinza restante
não mais acendem?
.
16
.
A linha do tecido
abrigada no teu sorriso
num Sol que parece infindo
quando estás entre os
meus braços
à espera do teu regresso
aqui confesso
que tenho sede da sua cintilância
expressa nos olhos
de fogo do amor
.
Quando o fogo gera a paixão
é o lírio que
se expande
no nosso abrigo de ocasião
e a taça tem o sabor
a maresia
até à extinção
.
momento em que finda o lamento
certamente feliz
quiçá eterno
mas apenas nulo
para ambos
nulo porque ao aniquilarmo-nos
somos deuses
como se o universo estivesse
a ser criado
pela prime