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                         Daniel Cristal
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OS COMPULSADORES DO MEU ALTER-EGO

 Foi nos bancos do Colégio de Oliveira de Azeméis, onde fui aluno desde  1951, aí internado com dez anos de idade, que comecei pela primeira vez a ser incitado para a escrita de ficção, motivado pelo aplicado Professor de português Maurício de Sousa, que além desta função, exercia outras, tais como a de correspondente de jornais com o nome de Patrício de Sousa. Este pedagogo lia em 1957 as minhas redacções na sala de aula da sua disciplina, como modelos de escrita exemplar. Iniciei aí a feitura de um jornal clandestino colegial, escrito em papel A4, divulgado e lido pelos colegas, os quais também contribuíam entusiasticamente com desenhos, variados temas, palavras cruzadas, coisas simples, mas extraordinárias, porque cheias de alento e de talento. Este professor levou-me a admirar, com o enlevo dum apaixonado, o nosso extranormal poeta Luís de Camões, de tal modo que sonetos escrevi nele inspirados. Devia ter então os meus 15 anos. Decorara alguns, e no exame do 5.º Ano liceal (hoje 9.º Ano de Escolaridade), em vez de ler, recitei.

 Vim a reencontrar esse bichinho da escrita aos dezanove anos no Colégio João de Deus do Porto, na ocasião portador de cadernos de poesia garatujada, e aí colaborei na revista Inicial. O seu director era o colega Manuel Cerveira Pinto (Ferreira).  Não mais deixaria de manter com este colega uma interligação e aproximação muito estreitas, tendo o mesmo publicado poesias e ensaios nesta revista, e mesmo depois da minha saída do Colégio, em 1961, refugiado em Paris, refractário a uma guerra recém-rebentada em Angola, continuei a nela colaborar.

 Editei, entretanto, um livro de poesia "Dor e Amor", que teve alguma aceitação e simpatia nas palavras dos críticos do Jornal de Notícias, O Comércio do Porto, O Primeiro de Janeiro e nas dos jornais estudantis do Colégio Portuense e da Escola Normal (Magistério Primário). Críticas essas que guardei ciosamente no Arquivo, destinado à memória desta actividade.

 Tendo oferecido um livro ao semanário regional Notícias de Ovar, o seu director António Coentro de Pinho, um lutador invulgar pela criação de Associações que projectassem o seu concelho pelo País e estrangeiro, homem influente, de qualidades invejáveis e por elas notabilizado, generoso autarca durante alguns mandatos à frente dos destinos da Câmara Municipal de Ovar, pediu-me para colaborar no jornal, o que fiz de bom grado durante vários anos, até à sua extinção (já depois do seu falecimento), continuada a sua obra jornalística pelas excelentes mão e inteligência da sua esposa Beatriz Campos, senhora de qualidades invulgares, uma autêntica Senhora de excepção, considerada uma singular artista plástica, à qual podemos acrescentar uma notável artista da arte cerâmica, reconhecida em Portugal e no estrangeiro, sendo eu, mais do que uma vez por ano, instigado a mandar artigos e poesias, mimando-me com apreciações muito gratas pelos meus trabalhos e com incitamentos para mandar sempre mais, apoiados por considerações de enorme simpatia e cordialidade, que muito me honraram e empolgaram.

 Em Paris e Londres, entre 1960 e 1965, estudando e trabalhando, refractário ao serviço militar, nasceu o altérnimo Daniel Cristal, que agora uso praticamente em todos os trabalhos de criação, reservando o nome próprio para trabalhos mais prosaicos, crónicas e ensaios. Em França, na qualidade de intérprete no Syndicat d'Iniciative (Agência de Turismo), conheci um extremoso jornalista chamado Philipe Gobert, do jornal L'Union de Reims, diário da capital da região do Champagne, que me ajudou a traduzir as minhas poesias, e este publicou algumas no referenciado jornal, e difundiu-as na Rádio Reims, onde fui entrevistado algumas vezes.
 Estas Poesias viriam pouco depois a ser divulgadas na Emissora Nacional pela voz desse homem excepcional na sensibilidade, na voz e na cultura que foi Igrejas Caeiro, e impressas em alguns jornais estudantis que lhes deram honras de destaque entusiástico, como aconteceu na revista do CNA (Colégio Nun'Álvares) de Tomar pela iniciativa do excepcional Poeta e Professor Camilo Rebelo Gomes.

 Ainda de braço dado com o Professor Cerveira Pinto, nesta altura director do jornal Miradouro de Cinfães, e autarca prestigiado e incomum, eleito por maiorias insuspeitas para vários mandatos na Presidência da Câmara Municipal de Cinfães, já depois da Revolução dos Cravos, de tal modo que lhe chamaram invejosamente um entre meia dúzia dos dinossauros autarcas de todo o País, este  remeteu-me para a descoberta de uma Colectânea de Poesia Luso-Hispânica. As suas direcção e edição deviam-se a um influente e dinâmico jornalista, chamado José dos Santos Marques, empreendedor de iniciativas editoriais, por intermédio das quais o Cerveira Pinto publicou um bom livro de poesia: VOZES DE SILÊNCIO. O outro também excelente intitula-se NO DEALBAR DA IMENSIDÃO, e foi prefaciado por um modelo prestigiado entre a juventude de então, um pedagogo chamado Zacarias de Oliveira.

Tendo eu enviado alguns trabalhos poéticos a Santos Marques, estes partilharam umas mostras colectivas de poesia que este promoveu por todo o País,  e com a sua ajuda, pois que me encontrava na altura em Paris, publiquei um opúsculo chamado "Palavras dirigidas à geração de 1960", hoje fora do mercado. Só não editei livros de poesia nessa Editora, por ele me pedir para as custear como fez com quase todos os associados ao seu empreendimento, contrariando assim o que tinha prometido a todos os aderentes. Ainda por intermédio do José dos Santos Marques, entrei em contacto com a Mákua (Colectânea de Poesia, onde colaborou Agostinho Neto, além de outros excelentes poetas) e com as colecções de ficção Imbondeiro, dirigidas corajosamente por Garibaldino de Andrade e Leonel Cosme, de Angola. Além destes contactos, mais uma vez, é Santos Marques que promove a minha participação no Cormoran Y Delfin, revista de poesia de Buenos Ayres, dirigida por Ariel Canzani, participando eu nesta com Poesia e Ensaio.

 Na ocasião vários jornais tinham aberto as portas à minha colaboração: VIDA REGIONAL DE COIMBRA, GAZETA DE COIMBRA, O DESFORÇO,  NOTÍCIAS DE GUIMARÃES, ALMANAQUE DE FAFE e LITORAL. É esta a época em que a poetisa, injustamente pouco conhecida, Aurora Santos tomou a iniciativa de abrir com arrojo páginas literárias nestes jornais e noutros, pedindo a minha colaboração para publicação de poesias, devaneios, contos e uma novela.

 Retornado do estrangeiro a Portugal em 1965, por causa das saudades insuperáveis, ingressado no Exército em Aveiro e depois em Mafra, vim a conhecer o extraordinário jornalista televisivo, jornalista de excepção, Rui Ganhão Pereira, um virtuoso católico, que, na ocasião dirigia o jornal Azimute do C. O. M.. Foi este Amigo quem me convidou para participar na página literária ARRANCADA, do jornal da Diocese de Leiria, e aí me publicou poesias e ensaios. Tempos depois, na década de 90, voltou a pedir-me trabalhos literários que eu concedi, e aí lhe foram dados generoso relevo.

 Durante a estada em África fui jornalista do DIÁRIO DO NORTE, o vespertino portuense mais vendido nas regiões acima de Leiria, tendo sido seu correspondente especial. A minha  contribuição pautou-se por crónicas, ora quinzenais, ora mensais, sobre África e a guerra colonial, evidenciadas com um destaque que me surpreendeu.

Acumulando as funções de Alferes Miliciano com as de Professor de Francês no Liceu de Quelimane, experimentei um dos períodos mais agradáveis da minha vida, por ter mobilizado os meus alunos para o exercício de "sketchs" teatrais que percorrerem toda a Zambézia com espectáculos cénicos que muito divertiram populações e tropas por aí estacionadas, e nos foram dados a conhecer alguns nomes da nossa canção e poesia portuguesas, nunca tendo sido esquecido esse grande desconhecido, mas meu conhecido, com quem algum tempo convivi, o já falecido em condições extremamente irónicas em Braga, na condição assumida de artista vagabundo, melhor, de poeta clochard, o excelente poeta Sebastião Alba.

Acabada a mobilização militar, em 1969, acarinhado por todos os jornais onde colaborei, realçando eles toda a minha actividade jornalística, noticiando além desta, os louvores que me foram prestados pelos Comandantes das Unidades do GACA 3 de Espinho e de Muidumbe, ascendendo estes tributos gradualmente até ao Comando da Região Militar de Moçambique, onde exerci o serviço militar obrigatório, um camarada do Colégio João de Deus publicou um livro de contos, intitulado NÃO MATEM A ESPERANÇA, tendo-me concedido o privilégio de o posfaciar na contracapa. Manuel Coutinho Nogueira Borges, o seu autor, extremoso artista da escrita, é hoje reformado bancário, e continua a desenvolver uma tarefa antiga, na qualidade de articulista do ARRAIS, jornal da Régua.  No exercício da arte de contar, este escritor singular projecta qualquer dia editar um Romance.

A abertura à colaboração, em 1965, do prestigiado jornal regional LITORAL, que foi o que não é hoje , deveu-se a um contacto com o raro espírito de clarividência demonstrado pela aveirense Clara de Sacramento, filha do notável Mário de Sacramento, meu conhecido em Paris e no Porto, e a um extremamente culto e invulgar amigo comum, chamado  David Cristo (filho).

 Regressado das Colónias em 1969, mas tendo voltado a Moçambique em 1970, como professor de Português, Francês e Inglês por mais cinco anos, publiquei poesias e artigos em todos os jornais diários de Moçambique, incluindo o Tempo, na ocasião dirigido pelo excelente poeta  Rui Knopfli.

Depois de definitivamente retornado a Portugal, em 1975, e até 1992, passei a exercer funções docentes em alguns dos mais centrais Liceus do Porto. Em 1980 encenei um elenco de alunos na Escola Secundária do Cerco, representando o Auto da Alma de Gil Vicente e recitando poesias, não só animando esta Escola nas Festas de Natal como também fazendo parte nesse ano dum Cartaz de Fim de Ano na Escola Comercial D. Henrique, onde foram exibidos outros grupos cénicos estudantis doutras Escolas. Em 1982/3/4, fui destacado como Formador para a Direcção-Geral de Educação de Adultos, cargo que abandonei por incompatibilidades insuperadas com a chefia da Região Norte.

Continuando a colaborar em Jornais, alguns artigos, para minha surpresa, eram transcritos noutros, na sua totalidade ou parcialmente, quando tratava dos assuntos mais controversos relativos aos anos que se seguiram à época conturbada nessa época vivida, logo após a Revolução que nos restituiu a Liberdade, e até à instituição do Regime Democrático com as primeiras eleições.

Entretanto, colaborei nas páginas de ARTES E LETRAS de O COMÉRCIO DO PORTO, dirigida e orientada pelo excelente Professor Universitário, extraordinário Ensaísta e Poeta, José Augusto Seabra, assim como na Tribuna do Leitor do JORNAL DE NOTÍCAIS e nO PRIMEIRO DE JANEIRO (a página "hemeroteca" deste diário, fartou-se de transcrever recortes mais ou menos longos de artigos meus publicados noutros jornais, até há bem pouco tempo), e o Comércio do Porto ainda há um ou dois anos publicou excertos de uma crónica de guerra, da iniciativa da Editorial AUSÊNCIA).

  Não deixo de aproveitar o ensejo, que vem neste momento a talhe de foice,  para destacar alguns mestres universitários, que serviram primorosamente à minha formação literária, sendo eles: Helder Godinho, Maria de Lurdes Cortez, Isabel Pires de Lima, Salvato Trigo, Arnaldo Saraiva e José Augusto Seabra. O melhor incitamento à prossecução dos meus objectivos e gostos, foram as excelentes notas com que me brindaram no meu tempo de estudante nas duas Faculdades que frequentei, a de Lourenço Marques e do Porto. O primeiro despertou-me para a obra extraordinária de Vergílio Ferreira e para a Poesia medieval, a segunda maravilhou-me pelos métodos pedagógico e ensaístico revelados, uma virtuosa na exegese da crítica literária, a terceira pela capacidade surpreendente de trabalho demonstrado dum rigor primoroso, o quarto  acelerou-me o gosto pela Literatura africana, já iniciado anteriormente pela Segunda muito aprofundadamente, o quinto espevitou-me o gosto pela Literatura marginal/izada, o sexto fez-me entender quanto uma inteligência pode abarcar e desenvolver pela  oralidade e pela escrita (sendo este no entanto o mais avaro a classificar).

 Em 1992, aposentado da função pública, e tendo começado a afastar-me das actividades privadas, nas quais fui gestor de Empresas e Negócios, arredei-me voluntariamente destas pelas náusea e repulsa em mim provocadas, ante a descarada imiscuição dos poderes financeiros estatais na devassa da minha actividade, inquisitorialmente persecutória, difamadora, que chegou a tentar conspurcar a minha vida privada, actuando sem a noção exacta do que é a honra e a dignidade das pessoas. Dediquei-me, a partir daí, a recolher, seleccionar e corrigir os trabalhos literários mais destacados publicados na Imprensa, investindo em criação noutros géneros literários.

Não seria completamente reconhecido e justo, se não chamasse à lembrança e colação, um excelente Amigo e colega do Colégio João de Deus com quem convivi no ano de 1994 e anos seguintes: António Jacinto Rodrigues, hoje Professor Catedrático na Faculdade de Arquitectura. Foi este Professor e Ensaísta que me ajudou a saber compreender, a gostar de olhar e ler espiritualmente pelas lentes mais íntimas e pessoais, as cidades, aldeias, carreiros, monumentos, sinais e paisagens, quando com ele percorri parte da rota da Peregrinação a Santiago, acompanhados pelas nossa mulheres, e me fez descobrir alguns saberes e roteiros experimentados dos esotéricos antropósofos europeus no Sul de França. Não poderia esquecer a talhe de foice, neste momento, um outro aguerrido lutador intelectual desde sempre, um bom poeta, e internacionalmente conhecido como ensaísta arqueólogo, um companheiro que tem animado alguma das digressões culturais que temos vindo a efectuar pelas terras portuguesas, desde 1994, e me tem ajudado a entender a História e a pré-História, é o Professor Eduardo Jorge Lopes da Silva, ex-colega do João de Deus e das lides jornalísticas da adolescência e da juventude. Foi ele o director do SINAL nesse tempo.

Em 1996, Vítor Nobre, jornalista de invulgar cultura, durante todo o ano, divulgou pela sua voz excepcional na dicção, várias poesias minhas na Antena 2, algumas divulgadas em simultâneo na Antena 1. A Revista Literária SOL XXI publicou poesias, ensaios e estórias, dirigida então pelo muito bom poeta Orlando Neves. Esta revista é agora dirigida pelos excelente Ensaísta e Professor Vítor Wladimiro Ferreira e a incansável e destacada poetisa Luísa de Andrade Leite, acessorados estes pelos talentosos: escritor e poeta Idalécio Cação, poeta Cândido da Velha, escritor Luís Filipe Maçarico e a romancista Pilar de Figueiredo.  Nesse ano participei numa Colectânea de Contos desta Editora, assim como no Boletim dos Escritores de Gaia, onde um talentoso artista Agostinho Santos e uma excelente escritora, Anabela Mimoso, seus directores até há pouco tempo, me apoiaram desde o início com muita consideração.
 
 Editado um "site" na Internet com o nome de Daniel Cristal, o mesmo vai encontrando o seu espaço de leitura, num trajecto planeado que poderá concretizar-se na edição em livro, qualquer dia, das obras consideradas nessa ocasião mais perfeitas e maduras.

 Em Julho de 2001, enviei um texto sobre uma paraíso litoral moçambicano, a Ponta do Ouro, ao jornal PÚBLICO, em resposta a um desafio lançado pelo Suplemento FUGAS, designado por: QUAL A MELHOR PRAIA DO MUNDO, tendo sido o 1.º Vencedor, sendo-me na sequência oferecido o prémio de uma estadia no magnífico HOTEL DOS TEMPLÁRIOS de Tomar durante um fim de semana completo para duas pessoas, que foi muito bem aproveitado no início de Setembro.

 Hoje, faço o que quero, me apetece e mais gostava antes da juventude e durante esta; leio, escrevo, crio, viajo, caço (cada vez menos), pratico ginástica e natação, convivo com os Amigos, os de longa data e os mais recentes, algumas vezes associo-me em excursões que partilho por esse Portugal fora e pelos Países originários da nossa Civilização.

  Por todas as razões expostas nesta panorâmica experimentada de relações humanas, que definem com a possível objectividade, e num vasto âmbito de laços duradouros, a origem e a criação compulsiva e o desenvolvimento libertado do meu alter-ego, ponho em dúvida neste momento a vantagem ou a justificação prática da sua existência tendo como finalidade a oferta de alguma coisa de útil e agradável, agradável sobretudo, aos meus contemporâneos e conterrâneos; parece que me meti num terreno estéril, inóspito, endurecido pela competição desenfreada e pela ambição de gente com mais ou menos talento que deseja brilhar seja a que custo for, e assim ofuscar a variedade de temáticas diversas (receiam, creio eu, que outros lhes roubem algum espaço particular! E inundam-nos de referências, sempre as mesmas)... mais parece um terreno árido, cheio de vastas cordilheiras de calhaus, iguais àquelas que observamos no interior remoto deste País do fado, da desgraça mal disfarçada, do futebol e das telenovelas alienantes, das peregrinações medievais, onde medram a urze, o tojo o feto e a esteva (muito embora no percurso dos vales e dos baldios mal cultivados, servindo o gado, algumas papoilas e margaridas selvagens até dão lindas flores!); ou medram os lamentos, a bazófia, as queixas, os suspiros, a tacanhez, os e as ressabiados/as, a inveja, o dolo, os farsantes, a escola da vigarice, os videirinhos, os chacais da política, a má-língua, o controle e a obstrução religiosa muito disfarçada, a perseguição rasteira, o voyeurismo despudorado e a pedincha. Por cima de todo este o quadro negro, estão as aves de rapina, os iluminados, os grão-mestres, os plutocratas e oligarcas manuseando os videirinhos, os sabujos, os comissários, os fiscais e os chacais. Riscamos nesse quadro, apesar de tanta obscuridade, algumas palavras em giz branco na esperança de sermos lidos na diferença, e, tanto quanto for possível, propício e capaz, na inovação!

Como não estou dependente da escrita para coisa nenhuma, especialmente para a minha sobrevivência, e se escrevo é mais para mim do que para mais ninguém (de facto ensinaram-me ou fui eu que aprendi, já não sei bem!, que assim deve ser o escritor), fui concluindo em suma que a escrita não deve ter qualquer finalidade, senão ela mesma... De certo modo, este estado cultural do País até me diverte um pouco; não é que não gostaria de ser motivado para dar mais do que tenho de melhor e mais útil dentro de mim para servir de usufruto mais generalizado, mas ao preço em que esta luta está para se arranjar um lugar vago no palco seja em que linha for, por uma actividade tão precária, tão poluída (exceptuando alguns concorrentes, muito poucos), como esta na qual alguém tem de sujeitar-se a uma luta com a qual não se identifica, leva-nos sobretudo a passarmos a ser observadores cada vez mais afastados ou distantes... ela é, com efeito, a luta dos que precisam, dos que têm necessidade de sobreviver, às vezes do resto, dos que se esfarrapam todos por obter outra coisa qualquer; mas depois do estômago cheio, a ganância deve-lhes pedir a satisfação de qualquer ambição irrequieta, alguma luta feroz e voraz pela defesa dum território demarcado, no qual mijam os escolhidos todos os dias como os cães duma mansão privada, território esse que com o tempo cheira mal que tolhe de tantas mijadelas, uma luta intensa e corporativa, uma força cega e íntima, essa que faz parte da natureza humana e é indigna dos horizontes das abertura, liberdade e tolerância da espécie, porque redu-la, limita-a e egocentra-a com um sentimento que a conspurca por tudo o que se depreende a seu respeito e do que venho a expor. Por uma questão de precaução acrescida, não quero e não vou expor-me demasiado, nesta viagem que já vai longa e requer um porto de abrigo, e não entro na liça para não sair da luta diminuído sem necessidade nenhuma, ainda que sofra já de escoriações várias, as quais contudo não me afectam de morte.

Mais vale fazer as coisas com algum desportivismo, com algum fair-play, à inglesa, escrevendo uma coisas para mim e para alguns que me pedem para os informar sempre que houver novidades, rindo e sorrindo do estado extranormal com que a actividade literária se pinta para que as máscaras sejam bem nítidas e floresçam... e assim tornem este mundo interessante e divertido para o sentirmos e usufruirmos como um espectáculo teatral, um divertimento numa sala onde não é preciso pagar bilhete de entrada, o que neste caso é uma generosa dádiva da natureza humana deficiente, digna, em contrapartida, de ser extremamente apreciada e aproveitada. Vamos de alma satisfeita, assistindo a uma cómica peça gratuita num palco real onde podemos rir à gargalhada, ou sorrir se os protagonistas forem requintados. Não falta por aí quem goste de ser palhaço, bobo ou arlequim. Os mais sérios, creio eu, são os mais recolhidos, mas também há exemplares para todos os gostos.
 
 
 
 

 
O Autor informa:
 

- Este espaço vai dar lugar brevemente à obra de Teatro A MÃE DO AMOR.

- A Casa de Eros foi retirada deste site.

- Vão ser editadas novas estórias, algumas já prontas, até ao Natal, inseridas em Narrativas Curtas.
 

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Copyright: Reservados todos os direitos ao Autor em todas as obras.

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