e Plurais
de
1º Caderno
1- Contos de Natal
1.1 - O Reizinho Mago (a
editar no dia de Natal)
1.2 - Uma estória de
Natal (NOVA!)
2- A Aranha
(NOVA!)
3- As encruzilhadas do ludíbrio
2º Caderno(link):
4- Confidências duma puta de luxo
5- Meu grande amor
6- O Ronca
7- A Bilha de Barro Fresco
8- A Escola da Igreja
9- O pretérito tabu
3º Caderno (link):
10- O Divórcio
11- Parábula fabulosa
12- A Caça aos Pardais
13- Gostava de ser Mosca
14- Peripécias de Combate no Planalto
dos Macondes
_____________________________________________________________________________________________________________
1. Contos de Natal
1.1
1.2
Levantar cedo que é
dia de Natal! É dia de beijar o pé do Deus menino na Igreja,
beijá-lo ao lado do enorme presépio, cuidadosamente feito
pelos meninos da minha idade. Era assim em S. Vicente, minha terra natal.
Eram os tempos saudosos em que frequentava a Escola Primária, a
qual da Igreja só distava uma estrada empedrada. Cedinho me erguia
da cama para me deslocar célere a pé, empolgado e com o coração
cheio de alegria e pureza, beijar o rosado pé divino feito em barro
que os meus conterrâneos disputavam, esticando o pescoço franzino
até aos limites do suportável, para serem os primeiros.
A perfumar a memória
da nossa existência, ficam estas recordações de pureza
e candura, amaciadoras das agruras da vida e das suas peripécias
atribuladas, algumas das quais riscam e amolgam o coração.
A vida está cheia de ciladas insidiosas, onde menos se espera, e
a falta de prudência ou o desconhecimento da sabedoria mais profunda
à mistura com alguma tontaria propositada, quantas vezes nos prejudicam
e devastam.
O Natal é, além
de um dia de festa, de confraternização quase universal,
o dia da Criança bafejada pelo espírito divino. Porque é
ela, a Criança, o centro de atenção e afeição
dos adultos. A pretexto do nascimento de Jesus menino, em Belém,
ou como sua consequência e sequência ininterrupta, revemos
uma inspiração a nível planetário: são
todos os meninos unificados neste menino, e as prendas que lhes oferecemos
são também um tributo colectivo a este nascido na manjedoura,
e nós somos os Reis magos, todos ligados por um cordão umbilical
acrónico e utópico.
É este o dia em que
meditamos sobre a nossa própria meninice, memória sempre
renascida... é ocasião de revermos o projecto que, mal temperado
no início, condimentado o bastante com as vivências dos nossos
erros e dos nossos sucessos, traçámos para o nosso percurso
terreno, a nossa efémera e incerta viagem neste planeta, que nos
acolhe transitoriamente numa prova de humanidade, bem ou mal sucedida.
Jesus Cristo veio à terra numa missão
necessária e urgente: indicar o caminho da redenção.
Sem meditarmos de vez em quando na sua mensagem, corremos o risco de nos
afastarmos da harmonia universal, esta que nos auxilia no convívio
e na parceria com e entre os nossos semelhantes.
Este halo mágico de
espiritualidade, a percutir emocionalmente as comunidades das Nações
cristãs, vivi-o junto de outros povos, especialmente em Paris e
Londres, numa idade ainda jovem. Lá, como cá, as ruas e avenidas
fervilhavam de vida, resplandeciam de luz, brilhavam de deslumbre, a comemorar
o dia mais feliz do ano; este que celebriza o espírito da incarnação.
Já nessa altura os brinquedos e os bolos
eram expostos ao consumidor da forma mais fantástica e radiosa,
apelativos aos transeuntes, a solicitar a tentação da compra
irresistível.
Trocávamos nos dias
antecedentes postais ilustrados, alusivos à quadra festiva,
autênticas obras de Arte com mensagens poéticas, algumas originais,
pessoais.
Natal é, repito-o,
o dia da Criança simbolizado no menino Deus. O dia em que todas
as crianças são uma só Criança, unificadas
num menino Jesus colectivo.
Por isso, em homenagem a este
dia, vos estorio o que se segue:
Adoro as ruas, as avenidas,
os quelhos, as praças da nossa cidade. Em dias de festa por elas
deambulo para observar o ambiente artesanal, arquitectónico, escultórico
e humano, ou seja, reparar bem nas pessoas de todos os tamanhos, distinguir
os ornamentos de todas as épocas, valorizar a azáfama de
todas as dinâmicas, diferenciar os matizes de todas as cores, odores
e auscultações, fixar as montras de todos os tamanhos e recheios.
Vai fazer um ano, percorria uma rua e deparei, de repente, com uma pobre
criança, rota e suja, a observar uma vitrina de bolos de chocolate,
resplandecentes pela luz incidente. Eram bolos castanhos, brilhantes, frescos,
apetecíveis que faziam crescer água na boca. E a criança
ali estava pespegada, imóbil, como uma estaca, não arredava
pé de tanto desejo, certamente salivava de apetência descontrolada.
Olhei-a e abeirei-me
dela. Perguntei-lhe se queria escolher algum.
Que sim, e escolheu. Levei-o
ao interior da confeitaria, pedi-lhe para escolher mais alguns e comprei-os.
Dei-lhos com a embalagem. Ele sorriu, um sorriso enorme, franco, fascinante,
do tamanho do Universo
- não me agradeças, porque sou
eu quem te vai pedir um favor! No dia de Natal, vais beijar o pé
do menino Jesus à primeira missa do dia, na Igreja mais próxima
- está bem, não me vou esquecer
e continuei a minha deambulação.
Era uma rua comercial, engalanada por todos os ornamentos e enfeites adequados
à quadra festiva. Uma rua com arcos e ogivas e muitas lâmpadas
coloridas incandescentes. Da rua saía uma auréola de
energia luminosa que impedia de se verem as estrelas; não era preciso
esticar o olhar para o céu, elas estavam ali na rua. As montras
exibiam artigos variados de consumo, lindos, apelativos, acantonando a
cada passo um presépio feito com esmero e beleza. Resplandecente,
sobre as palhas da manjedoura o menino era aquecido pelo jumento e a pela
vaca. Maria e José olhavam-no embevecidos.
No dia de Natal de há
um ano, lembrei-me daquele menino vadio, que, como eu quando era criança,
beijou o pé de alguém que morreu na cruz para nos dar um
exemplo da purificação da alma.
E este ano, antes do dia mais
caloroso e espiritual do ano, continuarei, à semelhança de
todos os anos anteriores, a observar as ruas com a esperança de
que aconteça algo tão emocionante como o que vos contei neste
episódio que não difere muito do nosso dia-a-dia... Apesar
de tudo o que possa surgir, ficarei mais empolgado se outro cenário
e cena mais belos acontecerem, como, por exemplo, deixar de ver crianças
esfomeadas a olhar vitrinas opulentas, pela simples razão de que
deixou de haver fome neste mundo, neste que todos compartilhamos sem até
agora termos dele uma consciência global!
2.
Uma aranha, vinda da Lua, tece o seu próprio
fio de seda pelo qual desce, enquanto o vai gerando, e, chegada à
areia enrosca-se nela própria, como que descansando do seu esforço,
e do esgotamento a que é submetida. Ela é o artista que,
no fim da obra, se esgota e se aquieta de anulação
toda esta aventura ocasional, que vivemos,
com música imaginada à mistura, mas, na realidade, é
uma aventura musical, é a própria feitura do estória,
desta estória que se escreve a si-própria, sem interferência
directa, seja de quem for, e se vai desenhando no écran, como de
uma partitura se tratasse, invadida pelo imaginário e pela imaginação
do próprio Universo que nos surpreende a cada instante. Se lhe sobrepusesse
a autoria de um anónimo, esse seria o autor, melhor : o narrador
entretanto, a aranha descansa para recompor as
forças e revitalizar-se, e os nossos corpos refulgem a sua patética
majestade
a aranha parece morta de tanta quietude. Também
ela gerara : não há parto que não se faça com
essa dor que responde a qualquer acto de amor. Mas a seguir à violência
vem a imobilidade e a felicidade, ressurgida do abandono
grave e magnífico, o Céu. A magnitude
e beleza da Morte nunca se poderão igualar a esse Céu.
A Lua olha-nos mais uma vez, e perfuma-nos com os odores próprios
do mar, carregados de maresia e iodo. Há um vento suave, morno,
carícia dedilhada pela ternura de cinza, que é o seu sangue
a minha amada tem a cabeça sobre o meu
ombro. Estende os braços, como quem se desprende da vida. Não
há dor, todavia, neste momento, há sim o sentimento profundo,
íntimo, intenso, imanente do encontro revelado com a razão
do ser, ainda mal percebido em toda a sua total amplitude e dimensão
absolutas
a aranha recobrou as forças, deixou a meio
do caminho mais uns pontos, onde se obriga a fixar a sua teia... fá-lo
instintivamente, com recurso ao instinto mais primitivo que se pode imaginar,
e sobe a teia que gerou, ficando inerte, lá em cima, a meio do trajecto,
esgotada novamente, em descanso absoluto, revigorando as forças
por ter ocupado tanto espaço, sem tempo, estende uma perna, duas,
deixa-se bambolear à procura de algo firme, mas cega como está
por tanta luz, por tanta lucidez, o seu esforço é infrutífero...
porquê esta aranha? talvez tenha surgido
como alegoria da vida? como efabulação? porque aparece assim
repentinamente ? não se sabe porquê, nem para quê ?
mas vem no momento exacto em que algo de insólito tem de aparecer,
está designado por artes mágicas, como acontece em todas
as coisas que vivemos e fazemos... vão-se elas urdindo nelas próprias
com a nossa vontade, interpenetrada por vontades alheias? !
os violinos redobram de intensidade, o violoncelo
apenas harmoniza o seu vigor, aproximando-o da areia, ou da terra,
e quebra-lhes a exclusividade e a sua vontade de se volatilizarem.
Há, na atmosfera, uma ânsia de arrebatamento,
de ascensão, que nos faz atrair a Lua, ou será a Lua a atrair-nos?,
querendo absorver-nos, aspirar-nos, arrancar-nos da praia e atrair-nos
até ela, aproveitando o fio da aranha...
devagar, muito devagar, a aranha sobe novamente
pela sua própria teia tecida, e é uma aparição
tão repentina, que julgamos ser um golpe de magia, feito por qualquer
ser invisível, mas presente, tão só: bem sensível
!... porque o impacto faz-nos tremer as entranhas genéticas!
na praia virgem, inexplorada, sentamo-nos, totais, unificados, presos intimamente à Beleza. À música imaginada junta-se, agora, outra, bem mais real: o murmúrio, sem tempo demarcado, das ondas a enrolarem-se na areia, com um ritmo lento, o ritmo da languidez, da indolência de quem não tem pressa em chegar, seja onde for
o Céu está impaciente e perdido
na sua solidão impessoal, sombreado pela sua cor magnética
do bronze
repentinamente, a música pára,
a aranha, lá, quase perto da Lua, pára também... levantamos
as nossas cabeças. No firmamento, tudo parece igual, vivo, grandioso,
imponente, soberbo, venerável. Os horizontes, de todos os azimutes,
unem-se
a estaca apropriada, medindo as águas
oceânicas na maré-alta e na maré-baixa, lá está
adormecida, absolutamente erecta, deificada, como um mausoléu de
significância sobrevivente
a sombra das dunas altera-se um pouco, mudando
ligeiramente de lugar na sua extensão e expansão
a sombra do corpo dela é incomum, uma auréola
nunca antes observada. Os seus olhos são lindos, raras preciosidades,
parecem duas esferas dum colar de madrepérolas
não como aquele, que vimos em locais do
passado, porém um colar, já não de xistos, negros,
mortiços, só valiosos pela antiguidade; estas duas pérolas,
todavia, distinguem-se agora pela substância outra, e pela actualidade
o seu cabelo era a conjunção de
todas as sedas, que a aranha até hoje teceu, ele está estático
e mudo, como pertencendo à estátua mais perfeita, solta,
mais viva do que a compacidade do mármore, esculpido por um deus
incarnado no artista de eleição. As formas do
corpo dela são lustrosas, salientes, seráficas, a expressão
da Arte mais sublime
vamos, agora, banhar-nos nas águas do
Oceano. Sorrimo-nos com o corpo pleno de felicidade; são sorrisos
cheios de sonhos e de magia... estreitamos as nossas mãos mais fortemente
; nadando até longe, e, voltando, por fim, às areias mornas
e infecundas da praia prateada
subitamente, pelo impulso da criação,
abraço aquele ser deslumbrante que me ladeia. A aranha já
subiu até à Lua e deixou-se cair, num ápice, deixando
no seu trajecto espacial mais uma linha de seda, visível aos nossos
olhos deslumbrados, quase verosímil, e a música renasce na
substância de jazz, acordes de piano rápido, subindo e descendo
de tons, acompanhado do bandolim, que suspendeu subitamente todos os outros
instrumentos e então surgem os clarinetes, as trombetas, os címbalos
e os bombos. Um frémito de arrebatamento percorre-nos violentamente
disparo assim, repentinamente, no desejo de amá-la
e ela olha-me fixamente, sob o revigorado clarão da Lua... e é
certo, que nos amamos, estamos a amar-nos, colados um ao outro pelas
gotas de sal aplanadas, depois da convulsão pela sobreposição
cheia de ternura dos nossos corpos, teimando em permanecer fora da duração
do tempo, na pele plúmbea ! seguidamente... saciados, mais pacíficos
do que tudo o que nos envolve, mais marmorizados do que nunca, esquecemo-nos
de que existimos.
A aranha desapareceu, a música parou,
e escutámos um poema de amor, que se conservava na memória,
sobrepondo todos os outros, que já esquecêramos. Nunca houve
maior Beleza do que aquela, que a natureza nos ofertava, "nesta noite":
a da nossa espontânea criação.
A sua cabeça voltou a ficar inerte sobre
o meu ombro, o clarão da Lua continuou redondo, nesse espanto de
brancura. No ar havia palavras jovens de alguém que estava dentro
de nós e nos dizia: "Bendito o milagre da revelação
desta imanência... ser alguém, que pode amar e ser amado e
pode esquecer que cada vida é um perdido grão errante de
areia neste majestático e imensurável Universo, um grão
que é tudo, e, paradoxalmente, não é nada, e há-de
ser consumido pelo tempo, ou renascerá na forma de um deus, que
está sempre em núpcias com a natureza, dando-lhe o ser, ou
a sua memória escondida e imperceptível... dentro de nós,
há marcas da genialidade, puramente originais, que nunca investigámos,
nem explorámos, nem expandimos. Vivemos quase sempre na obscuridade
da contiguidade, e não sabemos o que perdemos em cada minuto que
passa por não expandirmos o nosso ego pelo Universo".
Esta oração foi ouvida pela minha
amada, que me disse ser a dela. A oração dela era afinal
igual à minha, nunca soube porquê... como pode ter tudo
isto acontecido a traço negro configurando uma sombra vibrante prateada
abarcando o infinito e centrando dois corpos ínfimos levemente rosados?
O meu nome é
César da Gama e Albuquerque. Apresento-me, antes de mais; aliás
o que dá mais prazer é dizer o meu nome completo na dicção
mais eloquente e enfática. Tenho como podem constatar um nome pomposo,
que me fica a matar. Serve-me como uma luva. Tive uma meninice citadina,
a melhor que alguém poderia ansiar ou imaginar. Os meus vizinhos
gostavam de todos nós, mãe, pai, irmãos e irmãs.
Com a sorte com que Deus me bafejou, o meu pai era médico e consequentemente
mais prestígio tínhamos na zona. E eu sentia-me um autêntico
príncipe das Astúrias, quando na Escola Primária me
começaram a ensinar a História e a Geografia dos reinos de
Leão e Navarra, do Condado Portucalense, da Galiza e da hegemonia
de Castela.
A minha adolescência
foi igual àquela que tiveram os meus antecessores e os meus amigos
urbanos. Uma adolescência frequentando os melhores Colégios,
não abdicando de privilégios com que os directores me favoreciam,
excepcionando-nos às muitas regras, que só eu e os meus amigos
de igual berço desrespeitavam, porque eles veneravam-nos muito,
dando assim provas da sua inteligência superior, motivada pelos nossos
estatuto, estirpe e desafogo.
A minha juventude
foi a mais bela de todos as gerações. Estudando em Coimbra,
conheci os maiores farristas deste mundo, as mais belas garotas deste planeta,
os melhores professores da nossa intelectualidade. Foram tempos memoráveis.
Aos quais me inclino, hoje, com cinquenta anos bem cumpridos, conforme
manda a puta da sapatilha ou para não ser tão malcriado (embora
este signo seja o que mais se ouve por todo o lado), ou seja, para ser
mais cândido, conforme manda a milagrosa chinela da Cinderela. Tirei
o meu curso de Letras (a mais não chegava a minha inabilidade para
a Matemática); de resto, esta disciplina foi nos Colégios
a minha maldição (indiscutível e irreverentemente,
os professores da matéria eram pedagogos incompetentes, até
parece que lhes dava um sadogozo ter alunos desistentes para que a aprendizagem
se tornasse inacessível a, e repudiada pela maior parte dos alunos,
mas diziam com uma desfacetez medonha e uma dicção mórbida:
nem todos podem ser doutores!), porém o meu Curso predilecto era
o de Economia. Esbarrei-me no entanto na 6º Ano com os algoritmos,
logaritmos, senos e co-senos, e desisti então do meu projecto pessoal.
Foi a minha primeira decepção comigo próprio. Acabei
por conseguinte o Liceu na área de Letras, antes de ir para a tropa,
o que me deu direito e o dever de defender a Nação nas terras
de poentes de sangue como Oficial Miliciano no Ultramar.
Fazendo jus
à esteira do meu genearca, acreditei que era também um sedutor
donjuanino e me estava destinada uma carreira de sucesso. Sobretudo, graças
ao bafo benfazejo de Deus, aconteceu que me tornei alto e esguio, com um
metro e oitenta, todas as mulheres me olhavam com natural atracção
cobiçosa, o que me dá uma superioridade insuspeita, e por
isso tive de recusar muita provocação de mulheres candidatas
ao piso, mas pelas quais, na maior parte, eu não me sentia atraído,
nem me despertavam o mínimo de interesse. Lá fui dando uns
beijos furtivos às marafonas mais atraentes, e algum aquecimento
fogoso a outras mais libertinas, as que queriam mesmo sentir-me por inteiro
dentro das entranhas genéticas, mas tudo não passava de uns
provisórios tempos mais ou menos cronometrados numa gozação
momentânea, com fim à vista, nem nenhuma obtinha acolhimento
para muitos favores ou promessas.
A arrogância,
a vaidade e o orgulho ganhei-os na minha condição do estatuto
social adquirido em família. A superioridade e a obediência
foram exercitadas e afinadas na apreensão e compreensão da
disciplina e hierarquia militares. Desta arte, dentro de todo este caldeamento
psíquico-cultural e com toda esta formação varonil,
considerava-me um homem perfeito, consciente dos meus direitos e dos meus
deveres em sociedade.
O meu passatempo
ou hobby predilecto era o envolvimento promíscuo com prostitutas
aferroadas e de fogo no rabo, à noitinha nas casas de passe, as
mais ingénuas e frescas profissionais com jeito inato e propensão
para posições funcionais aeródatas de tal modo intensas
e violentas que as deixavam saciadas e prostradas, assim como me punham
fora deste mundo, aquietando-me por uma semana os sonos e as depressões,
que o tédio, a indolência e o aborrecimento da rotina bafienta
de dias intermináveis, me causavam em períodos de férias
ou em dias de relaxe profundo e de noites seguidas de insónia. Lá
fazia de vez em quando um joguito de futebol com os amigos para espairecer
e desgastar energias acumuladas, praticava musculação culturista
quando me dava na gana, frequentava o Cine-Clube para estar sempre actualizado
quanto às últimas novidades de Ingmar Begman, de Orson Welles,
e do Roger Vadim, aquele francês que descobriu a Brigitte Bardot
e a desflorou pondo-a nua na película, tal qual a Eva no Paraíso,
lia livros que estavam mais ou menos na berra. Adorava o Goldfinger, o
007, o James Bond. Não perdia o Peter Sellers, os clássicos
westerns de pistoleiros e cow-boys.
A minha vida
não era desequilibrada quanto isso, também gostava
de ler as páginas em livro do filósofo-político Bertrand
Russel, as obras literárias de Albert Camus, Céline, Sommerset
Morgan, William Faulkner, Henry Miller, Miguel Torga, José Régio,
Luís de Camões, Virgílio Ferreira, Eça de Queirós,
Fernando Pessoa e Tagore. De quando em vez também mergulhava na
filosofia dos tempos, li textos de Platão, Sócrates, Aristóteles,
Sigmund Freud, Nitzche, Shopenhauer e outros mas tenho dificuldade
em reter nomes dos quais não faço uso, gostava ainda da música,
de Dvorjac, de Beethoven, Bach, dos Blues, de Jazz, de Elvis Presley e
de Jonny Halliday, Sylvie Vartan, George Moustaki, Joe Dassin e são
estes os nomes de quem me lembro ainda. Claro, adorava a Amália
Rodrigues e os fados de Coimbra.
Vim da guerra
colonial em 1973 com uma blenorragia à prova de bala de quase me
fazer esticar o pernil, decepcionado não comigo mas com o tempo
perdido numa guerra inglória e infrutífera, desiludido com
a humanidade que faz guerra por plutoconveniência e por um idealismo
estúpido e primário. Algumas pretas por lá andavam
pelos acampamentos a fornicar, que nem as gatas com cio, com quem lhes
aparecia à mão e lhes dava uns cobres, de modo que com tanta
promiscuidade vénera, não admira que muitos de nós
andassem com o títere a escorrer ranhos venéreos por cima
de cavalos calosos e mulas gelatinosas. Aliás, antes da minha mobilização
militar para a África nossa, já eu era conhecido em todos
os bordéis da cidade, constantemente à espera da última
novidade, a mais tenra, feita pela angariação militante das
proxenetas, que me estimavam e avisavam da chegada da noviça. De
modo que não era para admirar... de vez em quando andava com o órgão
genético embrulhado em trapinhos, porque de tudo fui alvo, esquentamentos,
gonorreias, mulas, cavalos, chatos, sarnas apanhadas por contágio
nos bares dos cais citadinos em mulheres, que transavam que nem umas doidas
com marinheiros e embarcadiços.
Mas aquela doença venérea
trazida da Guiné ia liquidando por completo a minha esperança
de viver mais uns anos para contar como foi aos meus futuros filhos e netos,
não fosse os cuidados médicos a que o meu pai se predispôs
com um zelo ternurento e um profissionalismo fora de série, repreendendo-me
semanas seguidas à frente da minha mãe para aparentar ser
um bom educador, mas no fundo gozando que nem um nababo e glorificando-se
entre os amigos de ter um filho, que em matéria de mulheres, não
ficava atrás dele, porque, para ele, eu era merecedor dos genes
herdados com muito esmero de geração em geração
num venerável tronco genealógico, jamais rejeitado por fidelidade
aos antepassados históricos, que Deus tenha em boa guarda!
Só depois
acabei o curso de Filologia Germânica, e por intermédio dessa
autêntica arte que era fazer uso de cunhas influentes, habilidades
e astúcias que simplificavam todos trâmites de concursos a
que fingida e supostamente me teria de sujeitar para ser merecedor dos
melhores empregos, passei logo a gerente de Hotéis, com uma vida
muito facilitada, atribuindo-se-me a tarefa de cumprir as ordens e as directrizes
de que ficaria incumbido, não facilitando um pinchavelho quanto
à organização e eficiência destes serviços,
não descurando o bom gosto, nem a gestão de boas maneiras
e simpatias proporcionadas aos clientes, especialmente aos turistas e homens
de negócio provindos de Inglaterra, que eram o grosso da coluna
da nossa clientela de elite na Capital.
Decepções
tive-as sucessiva e consecutivamente depois de casado. Antes disso,
decepcionado, comigo, só duas vezes como vos contei: a do meu curso
predilecto e a da quase fatal doença venérea trazida da Guiné.
Depois de casado, efectivamente, decepções foram o que mais
que houve. Caber-me-ia o azar (neste campo, de facto, Deus não ajudou
muito à minha salvação, antes pelo contrário),
de ser exactamente na altura em que as mulheres começaram a reivindicar
a igualdade. Se aos homens coube a tarefa ingente de iniciaram a reivindicação
da sua individualidade na época de sessenta, o seu direito à
diferença, e a necessidade da libertação do sexo,
elas reivindicariam a sua liberdade vinte anos depois, mas já na
década de sessenta, muito mais na de setenta, elas travariam a luta
pela igualdade e pela libertação de tabus, preconceitos e
concepções de amor opressores. E isto tinha uma lógica
divinamente natural, é que se os homens queriam ter direito à
libertinagem, só poderiam a ela ter direito, se elas se tornassem
mulheres libertinas. Olha que dedução inteligente, valha-me
Deus, que parece que até andávamos todos cegos e sem medir
as consequências dos nosso actos! Elas vinham educadas então
noutras bases de relações, e, neste caso, numa sonhada relação
de diferença em relação à mãe, pois
que esta queixava-se na maior parte das vezes por silêncios insuspeitados
de ter saído duma clausura, a ditadura dos pais, para outra prisão,
a ditadura do marido. Umas vezes exprimiam só um queixume, outras
uns suspiros de tédio e de amargura. Mas as mães, esposas
e profissionais da geração seguinte, olhavam mais por e para
si. Miravam-se mais ao espelho. Escolhiam os maridos entre os jovens que
lhes pareciam candidatos a homens de sucesso social ou empresarial, os
que lhes proporcionariam o desafogo económico que as guindariam
ao jet-set sonhado, status ansiado especialmente pelas que eram mais belas
e perfeitas, e uma ou outra menos esbelta com aspirações
a tal, impondo-se outrossim (que não enganavam ninguém, embora
o julgassem) pela riqueza angariada pelos seus pais ou pela situação
de sólidas herdeiras. Queriam no fundo sair da cepa torta em que
as suas progenitoras estavam mergulhadas por causa duma cultura oficializada
em termos unicamente machistas, afirmavam elas. Elas estudavam nesses tempos
de ambígua memória, para serem independentes e úteis
à sociedade, e para além de não saberem cozinhar nem
lidar com os afazeres da casa, reivindicavam o seu canto próprio.
O casamento era para elas um lugar idealizado por elas para si, exigindo
do marido a fartura de bens, os cuidados e desvelos do servilismo masculino
num altar de rainhas com poltrona, e exigiam o sucesso conjugal alicerçado
na competitividade, na ternura humana dos apaixonados enlouquecidos e perenes...
impunham em suma a fidelidade supracanina, mesmo a contragosto.
Ou... será
que na encruzilhada escolhi o pior caminho, o melhor era não casar,
que as condições não interessavam para selar uniões.
E porque não?... podia muito bem tê-lo feito. Teria sido o
melhor, até para ela. Porém, como não estava dentro
dos usos e costumes da nossa terra, fui levado pela tradição
obsoleta na interpretação dos jovens dos bons novos tempos,
os de então.
- mas como foi possível
ocultares-me a verdade que conhecias melhor do que toda a gente?
perguntei indignado, a voz
irada, pois não acreditava que pudesse haver entre nós congeminações
ocultas, baseadas no ludíbrio. No fundo, estava perante uma constatação,
tão evidente como o Sol nascer todos os dias a Oriente e morrer
no Ocidente, julgando nós... imaginando-o a amar a terra quando
pela força generatriz da sua fecunda energia, explosiva e
generosa, as sementes germinam, os botões abrem-se em flor, as flores
resplandecem, são polinizadas e frutificam, e os grãos dos
frutos apodrecidos caem gerando novas plantas e árvores, duas mulheres
ocultavam-me a verdade, uma dizendo que nunca me traiu, e outra, que se
dizia verdadeiramente apaixonada, era capaz, por razões narcísicas,
de me ocultar a verdade.
- toda a gente sabia, foste
o último a saber, comentava-se nas tuas costas... o corno, lá
diz a sabedora boca popular, é sempre o último a saber
e sorriu... e então
eu concluí
- não posso acreditar
no que estou a ouvir
Aquela mulher
que conheci e que foi a minha adoração durante meses, um
ano depois do matrimónio, passou de apaixonada para a mãe
da fonte das minhas preocupações obsessivas, até então
inimagináveis e imprevistas. Para seu regalo e para minha desgraça,
ela era parecida no corpo com a Rita Hayworth, a minha paixão dos
sonhos de adolescente, e na cabeça e postura com a Faye Dunway.
Nunca gostei da rechonchudinha Marilyn Monroe, era toda melada e
fingida, até na voz arrastada de cana rachada. Mas a falta devia
ser minha porque os soldados na guerra onde me desgastei ingloriamente,
adoravam-na e punham-na quase nua colada nos cacifes do guarda-roupa ou
no topo dos beliches colada à parede, para onde olhavam antes de
adormecer com olhos concupiscentes e as mãos bombeantes sob o lençol,
esquecendo-se do sacrificado crucifixo preso por fios ou arames à
cabeceira.
Na exemplar
imitação da sua mãe, julgou que o casamento era a
instituição social que a libertaria para a concretização
de todos os seus desejos e ambições, frustrados até
então, e que iria ser uma autêntica cortesã,
admirada pela elite social da ribalta.
A grande preocupação
destas novas esposas era viver felizes para sempre, naquele enlevo de alma
puro e cego, idealizado e sonhado da Cinderela de sapatinho, sapatilha
e chinela, e de todas as estórias dos romances cor-de-rosa, os que
se vendem aos milhares de milhões num só dia, com final impecável
e invariavelmente feliz, onde não faltava o muito e apaixonado amor
durante o percurso da vida matrimonial, embora com todas aquelas trapaças
odiosas e transitórias de mulheres traiçoeiras que a certa
altura pretendem, sem resultado vitorioso, roubar o marido à melhor
amiga, e a juntar a tudo isto era fundamentalmente suposto, gerar dois
ou três filhos... dois de preferência, o terceiro, se o havia,
na maior parte das vezes era para aglotinar e cimentar os laços
de amor doce e tranquilo com alguns momentos de paixão, na eventualidade
de esta surgir esporadicamente num surto irreprimível desse sentimento
imperecível... um final feliz com apaziguadoras emoções,
reciclado tempos depois, não muito longos, a seguir a outra arremetida
amorosa preocupante por parte da sua melhor confidente, e que punha
na berlinda o marido cobiçado e o amor conjugal, esse comum sentimento
intrínseco que Platão teorizou tão candidamente, corrigido
por Sócrates como a procura da pureza na Beleza, um pouco antes
de aquele ser ferrado por uma pérfida abelha deste século
e de este ser mordido por um escorpião, ou...
Uma descoberta
salvou as mulheres da humilhação continuada e aos homens
deu-lhes a possibilidade de provar com variedade os prazeres da carne fêmea:
a pílula contraceptiva viria a resolver o último anseio e
endrominava a sua consciência feminina de virgindade, porque mesmo
já grávidas enquanto solteiras, na esperança de casarem
com peixe graúdo que lhes teria mordido o anzol, consideravam-se
totalmente ingénuas e inocentes, até no caso de abortarem
por imposição do fecundador refractário (também
os havia quiçá menos do que hoje!)... ou logo que outro pretendente
se abeirasse e se embeiçasse, mas nunca perdiam o selo de garantia,
estas virgens pretendidas e jovens imaculadas, ainda que com ímans
genéticos demasiado elásticos, úteros raspados por
parteiras carniceiras, sólidas películas genéticas
só esgaçadas na sua dureza e elasticidade escandalosa na
ocasião da menstruação, para que o sangue manchasse
os lençóis no acto da evidente demonstração
da inconfortável virgindade. Uma boa parte dos nossos contemporâneos
deixou-se ludibriar com estas estórias simplesmente mitológicas,
só justificáveis através daquele anexim que garante
que o amor é cego e perdoa todos os enganos. Por isso, e sabedoras
destes bons velhos costumes e hábitos seculares, as futuras noivas
sabiam que estariam perdoadas à partida e não admitiam que
se falasse mais nisso durante toda a vida vindoura. Era ponto assente.
Conheci-a na
Faculdade de Letras, onde fomos colegas estudantes, tendo eu cinco anos
a mais do que ela, e esta diferença justificava-se por duas reprovações
no Ensino Secundário (aquela maldita Matemática decepcionante,
ensinada por professores incompetentes), e dois anos e tal de tropa, arrastada
por questões plutocráticas de monopólica soberania
como vos disse nas campanhas bélicas da África negra. Com
um namoro curto de dois meses, uma gravidez indesejada ao quarto mês,
redundado em casamento fulminante ao sexto na parte terminal do curso,
os nossos primeiros meses de casados, foram iguais a todos os dos nossos
contemporâneos, geraram um filho varão (só um que a
situação conjugal era periclitante e não admitia facilidades
extras), um matulão espadaúdo, um desportista de surf
da melhor qualidade, estudante igual aos seus amigos e colegas... revê-se
no pai, é o galifão das moças que por aqui circulam
com uma curiosidade assolapada de lhe deitar o olho concupiscente em cima
e por baixo do canastro, trazem-no e levam-no de carro, e ele lá
anda de caravana em caravana a lavar os cestos da vindima ocasional, debicando
aqui, chafurdando acolá, pululando nas camas e esteiras que encontra
pelo caminho mais à mão de semear. É assim, o meu
filho, o Bruno, o Bruno Silva da Gama e Albuquerque, um potencial touro
generativo, disposto a não deixar os trofeus por mãos alheias.
Mas não engana ninguém, que ele tem o sorriso mais matreiro
que se enxerga à face da terra, como o desse depredador de fêmeas
chamado Warren Baties, o engatatão mais bonitão que apareceu
na sétima arte, deixando todas as fãs a coçar a dura
virgindade elástica na refrega contra os fins da vigília.
Colecciona calcinhas de renda que acaba por surripiar às garinas
desprotegidas e confusas depois das sessões polvorosas; já
encheu uma gaveta delas; são centenas de todos as cores, formas
e feitios, só visto!; e quando visto, dá um tesão
de esfregar os tomates em qualquer esquina, à falta de melhor! E
vejam bem a ironia do destino - é ele que segue com total rectidão
o meu sonho frustrado, o de Economista! Quanto a namoros, eu disse-lhe:
ó rapaz o melhor que há no mundo são as uniões
de facto, com muito jeitinho (pílula obrigatória à
mão, a do dia seguinte), que é para não criares prole
e cadilhos, a não ser quando tiveres a certeza, mas uma certeza
inconfundível, vinda do mais profundo do teu ser e pensar com a
cabeça de cima, porque a genética nunca merece confiança,
uma certeza insuspeita nos mais imperceptíveis indícios e
ínfimos pormenores, de que acertaste mesmo na muche ao escolheres
a tua parceira e futura companhia (aquela certeza dentro duma lógica
de dedução, que, com alguma margem de erro, não engana
ninguém), porém quando qualquer dúvida te ocorra,
salta da carroça, uma vida são tantos anos, todavia tão
poucos se os avaliarmos numa visão retrospectiva, no género
duma regressão vídeo a alta velocidade, que é o que
acontece na minha idade!... e não se pode desperdiçar um
só que seja! mas não te distraias em demasia nem relaxes
depois dos trinta, ó Bruno, porque continuar o nome é vital
no seu tempo próprio, e não há nenhuma mulher que
o não deseje, faz parte da natureza... contudo, nunca te esqueças,
esta é uma máxima fundamental, vital mesmo, esta que te digo:
as pessoas nunca mudam, aquilo que são, são... são
permanentemente iguais até ao fim! A regeneração é
uma treta, a mudança de carácter é a maior trapaça,
a mais ilusória de todas, um ludíbrio aliciador no qual caem
ridiculamente os ingénuos, os simples, os inocentes, os parvos,
em suma!
A minha mulher
não diferia, nem difere muito da generalidade das minhas contemporâneas.
Usava a máscara que todas usam enquanto solteiras, a máscara
da bondade e da mansidão, da tolerância e da dependência,
da timidez e da virgindade.
De amável e atenciosa, começou
a remoer os meus defeitos, que também ela, assim como eu, desconhecíamos
com certeza, passou a ríspida e brusca e distante e indiferente.
Tornou-se arredia e repulsiva. Notei-lhe mudanças nas tácticas
comportamentais de aproximação e envolvimento, uma predisposição
para aceitar desafios que mexessem com e pusessem à prova o nosso
relacionamento conjugal, medindo forças para verificar até
onde podia ir no distanciamento. Sumariamente, ficava sempre na expectativa
das reacções mais íntimas e das exteriores mais facilmente
visíveis e ponderáveis. A máscara dela ia caindo aos
bocados, dava ensejo a que eu lhe notasse os defeitos do seu rosto e do
seu carácter, ambições e azedumes, propensões
e desejos. Era um flor a desabrochar que em certos dias, cada vez mais
espaçados, cheirava a rosas, noutros a odores nauseabundos.
De facto, começou
a abrir-se, parecia inicialmente que andava a tactear às escuras,
a gatinhar como um bébé ao dar os primeiros passos, a saber
como e onde pôr o pé para não se desequilibrar e cair...
e continuou a desprender-se, a perder a timidez e a deixar-se envolver
pelo mundo das atracções emotivas e das tentações
desenfreadas até então reprimidas por motivo de uma religiosa
educação opressora e de um namoro anterior mal compensado.
O seu primeiro namorado não se sentia impelido ao nó matrimonial.
Que sorte se me escapou, que boa ventura se perdera! Mas com outra teria
sido a mesma coisa provavelmente, que elas andavam todas ao mesmo, de cada
vez mais me convenço disso quanto mais avanço na idade.
Um dia fomos ao Teatro e apareceu
por lá um colega de trabalho que a saudou efusivamente, e quando
lhe olhei o rosto, ela tinha-o todo corado que nem um tomate, perguntei-lhe
quem era, e disse-me apenas: é o Luís, foi meu colega. Mas
a razão de tal rubor nunca mo explicou por embaraço evidente.
Foi a terceira decepção comigo próprio, ou melhor
ela me decepcionava, e eu, por tabela, fiquei decepcionado por tê-la
escolhido para minha companheira. As decepções seguintes
sucederam-se num ritmo regular sempre que aparecia no horizonte um novo
amigo ou conhecido.
Principiou a
aceitar como amigas, as colegas com quem ia travando relações,
especialmente as que tinham maridos jeitosos e interessantes, como elas
costumam dizer, mas, a meu ver, os apetecíveis. Os meus amigos também
eram aceites, e os meus colegas de trabalho, idem aspas. Alguns meses depois,
vi a minha casa ser invadida e devassada por um ou outro piçudo,
que às vezes me aguardava no seu interior, num sofá, desconhecendo
eu o que se passara dentro das quatro paredes até ao meu regresso,
sabendo todos eles que eu estava fora ou em trabalho ou satisfazendo compromissos
de agenda. Às vezes encontrava-a de robe de seda, um robe cor-de-rosa,
que nunca usava na minha presença. Não quis dar muita importância
aos factos, mas às tantas quando toda aquela marmanjada me começou
a cheirar mal, comecei a enxotá-los, sem saber bem porquê,
a recusar convites para convívio, almoços e jantares, de
casais que mal sabiam por que é que estavam casados. Comecei a chegar
a conclusões mirabolantes: a maior parte desta juventude casa como
quem vai a uma Discoteca ou ao Cinema. É um modo de estar mais tempo
com a namorada, é uma praxe, eles não estão talhados
uns para os outros, não têm projectos comuns, e agarram-se
depois a outros casais, ou porque ela gosta do marido da outra, ou ele
gosta da esposa do outro. E o esquema é assim: um ver se te avias
o mais depressa possível, mesmo que se notem as intenções
à vista desarmada, porque a vida é curta, urge usufruí-la,
e as fantasias rapidamente obcecam os mais ansiosos. Observei coisas do
arco da velha: até um explicando batendo à porta a todo o
instante, oferecendo brinquedos ao meu filho, e como era bexigoso que se
fartava, um dia apareceu sem borbulhas, cara lisa como seda esticada, a
perguntar pela Alicinha, espumando sucos nos cantos da sua boca imberbe,
e então pensei, há mouro na costa, esta bodegada tem que
acabar. Este puto imaturo se calhar quer é fazer-se pai do meu filho.
Deixa que eu tas digo: as explicações acabaram, não
chateies mais ó fedelho, vai rondar as entradas de outra freguesia,
e ele lá foi de rabo entre
as pernas, espinhas outra vez a nascer-lhe da barba, que andava a arreliar
os pais, com uma burrice de bradar aos céus no referente a estudos,
e a perder tempo e vontade para estudar e fazer-se um homem a sério.
Só então
percebi aquela tirada do Drummond sentimentalão versejando
A Alicinha não
dizia nada, olhava todo aquele País das Maravilhas, querendo descobrir
qual era o espaço que lhe estava reservado, e foi então que
eu acordei, ai se é isto que se gera depois dum casamento, então
também vou pôr a minha habilidade a funcionar, a minha natural
propensão para o engate sedutor, uma sedução imanente
à prova do que aparecesse na rede, e lá comecei a rondar
as mulheres vagas, experimentando os trilhos dos espaços sexuais
em aberto com que era surpreendido, e me apareciam depois do convite nas
alcovas emprestadas do rapace em que me tornei.
A Alicinha andava
assim entretida num mundo de maravilhas (cada nova experiência devia
trazer-lhe uma iluminação extrasensorial fantástica
arrebatando para os espaços celestes aquela frágil cabeça
oca), exercendo funções docentes, comprando o que de melhor
aparecia nas montras, cuidando das unhas e da pele, nunca esquecendo o
batom mesmo quando ia para o areal tórrido duma praia escaldante,
apanhando o máximo de sol, besuntando-se e besuntando-se para não
estragar as células menos pilosas, apresentando-se nas festas de
amigos com roupas da mais alta qualidade, corte francês ou italiano
a preceito, bem penteada, impecavelmente calçada pelos ricos ditadores
da moda, malada com igual estilo, boa parte destas coisas a minhas expensas,
cuidando da casa, sendo nela coadjuvada por mulheres-a-dias, pagas por
mim, acompanhando a educação do Bruno, estudos que eu pagava,
pespegando-se nos cafés todas as tardes com as amigas que nem sei
bem que tipo de amizade era aquela, porque quase nada tinham em comum,
a não ser conversas de banalidades extremas, de vez em quando eu
era surpreendido por conhecidos em casa à minha espera, sabendo
eles que eu não estava, numa continuação de hábitos
adquiridos mas não consentidos e acima de tudo censurados, e assim
se passaram vinte anos, que nem vos digo nada, uma vida completamente estragada,
uma merda de vida, igual a tantas outras, acho eu... eu correndo para o
emprego, procurando ganhar o sustento para uma existência cheia de
douradas frivolidades, zelando pelos serviços hoteleiros à
minha guarda, com o máximo e sempre impecável profissionalismo,
tendo que aturar uma ou outra garota atrevida que não me saía,
durante algum tempo, do encalço por mais voltas que eu desse, pespegando-lhe
normalmente uma faena desse género artístico com que os toureiros
fazem para ludibriar os touros, neste caso, salvo seja (que estou a ser
um bocado reles, porque estou ferido de corno e demasiado linguareiro,
mas isto assim dito não é com intenções malévolas),
neste caso, salvo seja, uma finta para driblar as vitelinhas despertas
para os desejos e as fantasias que lhes carcomiam as entranhas véneras,
e as punham loucas e insaciáveis, e o pior de tudo é que
não despegavam nem por nada deste mundo, umas autênticas carraças
fornicadoras, brindando-me com requebros e regalos tão fantásticos
durante tanto tempo que cheguei a pensar que elas tinham sempre medo de
morrer no dia seguinte. De facto, esta actividade, ainda não vos
disse, proporciona o conhecimento de muitas marmanjas, aparecidas nos Hotéis
e Restaurantes para pôr à prova os seus apetites sexuais e
gastrointestinais, noutras palavras: a gula sexual ou o amor pantagruélico,
mostrando e exibindo aos gulosos, aos gourmands, as suas potencialidades
obscuras, as suas capacidades de surpreender os tansos e os mais avisados,
e não era difícil deitar a mão a estas aves de arribação!
Assim, depois de as deixar poisar no galinheiro e de lhes saltar para a
espinha, tinha mesmo que me perder na reinação lasciva e
luxuriosa durante algum tempo, senão nem era de homem nem era nada.
Um dia fomos
à praia com um casal amigo, e eu estirava-me ao sol, sem nada para
dizer a todos eles, farto de tagarelices, quando reparei que a conversa
fiada os absorvia de tal modo que os filhos (o outro também tinha
um filho, mais marado do que o nosso) andavam a bracejar no mar quase afogados,
pois que já se debatiam contra as ondas não conseguindo respirar,
e lá fui eu a correr salvá-los... Nenhum dos três se
levantou, tal era a intensidade e o enlevo em que a tagarelice tinha caído.
Mas, como é possível vocês perderem a noção
da responsabilidade do que vos envolve, especialmente dos filhos, disse
eu... respondeu a minha querida mulher: ah, é assim... nem demos
conta. E continuaram sentados na areia embevecidos em coisas de lana caprina
que me enfastiavam e carregavam de nojo. Quando
chegou a ocasião de alugarmos quartos, ficou-se num impasse tremendo,
havia um quarto bom e um quarto mais pequeno. Ninguém resolvia nada,
pois então dormimos todos numa cama, disse eu para os experimentar
aos três, está bem, disse o outro marido, a Alicinha manteve-se
calada que nem um rato, vão-se todos lixar, emendei, eu quero um
quarto só para mim. Deitámos sortes à escolha e coube-nos
um deles, já nem me lembro se foi o melhor se o pior. Quando nos
deitámos a minha adorada esposa pôs de permeio o filho a dormir,
exactamente entre mim e ela, para que não houvesse tentações
liberais ou ataque sexual de surpresa; havia sido um dia fantástico
para ela, impedido para mim de ser coroado de amor no fim de todo aquele
sacrifício esforçado: aturar o banal trilogia ou esta santíssima
trindade não me agradara nada, dado que o amor conjugal e a sua
prática estariam por parte dela fora do contexto circunstancial
e do encantamento psíquico, criados pelo dia fora em convívio,
que ela gozou bestialmente e para mim foi um frete de todo o tamanho, e
eu merecia (estava e estou convicto), uma recompensa generosa... nem é
bom continuar a contar! Seria mais um sacrifício pungente!
Nos dias seguintes,
o marido da amiga fartava-se de nos convidar para novas saídas em
conjunto, mas esbarrava com a minha recusa: vai tu, ó Alicinha,
vai tu, acompanha-os se tens prazer nisso, eu não quero nada com
eles, mas ela não foi, ela queria conservar-me apesar de tudo...
mas eu sentia uma enorme vontade de que ela fosse, precisava mesmo desse
pretexto vital para optar em conformidade, mas infelizmente, não
foi, recusou, ponderou segundo as suas conveniências, pois era mais
certo do que dois mais dois serem quatro, que quando voltasse ficaria para
sempre sem a companhia do César, seu marido ao dependuro, seria
definitivamente a última vez que voltava... porém ela decerto
também tinha essa certeza, pois não era uma tola varrida
e era, sempre a julguei, sobretudo perspicaz; em qualquer encruzilhada
optaria pelo caminho mais certo e mais cómodo.
Pus-me de atalaia,
ele rondava a minha casa, ele notou que eu o observava e redobrou de cuidados.
Pouco tempo depois, a Alicinha foi ao cabeleireiro, e perdeu-se nas horas,
eu saí, reagindo à desfeita, e fui almoçar com um
colega e só a voltei horas tardias da noite. Se voltares a fazer
isto, separo-me, disse a Alicinha, eu é que me divorcio se voltares
a perder uma manhã e uma ou duas horas da tarde, nem nunca cheguei
a saber quantas (para não dar muita confiança), no cabeleireiro,
pois não acredito que tenhas estado lá todo esse tempo. Foi
no cabeleireiro, sim senhor, telefona se quiseres. Não, não
telefono, não quero chegar a tamanha humilhação, ficas
a saber que é a última vez. E ficou por aqui a discussão.
Azedume e amargura, mais outra decepção aviltante me trespassou
a garganta, o coração. Nessa altura eu tive a sensação
que definitivamente tinha errado no casamento, não era necessário
mais explicações, a continuar deste modo toda a relação
teria de meter mais pessoas que preenchessem um vazio dentro do peito,
e fosse o que Deus quisesse... até quando quisesse.
Lembrei-me então do verso
seguinte do sentimentalão Drummond
Os nossos fins-de-semana
eram monótonos de estarrecer! À Sexta-feira havia divergência
e crítica azeda, ao Sábado havia discussão e faltas
verbais de respeito, ao Domingo havia impropérios e imprecações
violentas de toda a ordem... era de enlouquecer!
As férias
eram gozadas pelas areias quentes do Algarve, pelas praias apinhadas de
veraneantes do Sul de Espanha e pela águas tépidas de França.
Se íamos, ao começá-las, com vontade de fazer as pazes,
aproveitando assim o ambiente de súbita acalmia, à espera
de um acerto de contas, de uma paz acordada na prossecução
de tantas guerras caseiras, desiludam-se os cépticos e sobretudo
os mais categóricos em naturais reconciliações conjugais...
vínhamos pior que estragados, trombudos, chateados que nem perus,
ansiosos por voltar à doce rotina da vida familiar, atreita a azedumes
amaldiçoados e imprecações de toda a espécie,
reconhecidos a toda a hora, e de atirar pela borda fora, mas felizes também,
eu por voltar aos hábitos honrosos de cumprir as minhas obrigações
profissionais com zelo e competência extremamente responsáveis,
e, nos intervalos, praticar os actos mais ordinários, os empolgantes,
que eram os de trucidar mais uma lambisgóia apetitosa e ardente,
e, quanto a ela, certamente alegre e feliz, por trazer mais um conhecido
para casa, onde o recebia de robe cor-de-rosa, esperando por mim, mesmo
sabendo que eu estava ausente na ocasião da ocorrência. Abençoada
a condição, esta de cônjuges destinados ao casamento
feliz, com amor de permeio sempre que a ele houvesse lugar! Houve um período
de tempo, que chegada a Sexta-feira eu fazia a trouxa e metia-me a caminho
com as amantes maneirinhas da ocasião, e só vinha no Domingo
à noite, de barriga cheia e as partes genitais serenadas, todo refastelado,
e nem sequer dizia para onde fora, dado que não teria valido a pena
dizer fosse o que fosse, pois estávamos bem sintonizados em relação
à estupidez a que a nossa relação tinha chegado. Sem
ponta por onde se lhe pegasse. Ela não valia, isso é mesmo
verdade, a ponta de um corno.
Ano após ano, invariavelmente,
chutando uma bola que se consumia em polvorosa mediocridade, arrastámos
a carga de um casamento moribundo, encorajando (talvez fosse isto a única
coisa que nos unia) um filho a ser o mais educado entre os conhecidos,
frequentador do Colégio da Opus-Dei mais reputado da Região,
o mais desportista entre os desportistas, o mais aplicado entre os colegas,
o mais insubmisso às regras estabelecidas e destinadas ao secular
matrimónio feliz.
E foi assim, pois então,
que num dia conclusivo em que fazia sol, o sol mais esplendoroso que já
me foi dado admirar nestes cinquenta e um anos de idade, numa tarde amena
e doce, que faziam vibrar todos os sentidos e humedecer e coçar
as partes mais pilosas, foi assim que a meio da tarde me desloquei, imprevistamente,
a minha casa e sem fazer qualquer alarido, desloquei-me ao salão,
e quem encontrei eu em cima da trouxa da Alicinha? O Luís, o colega
de trabalho, lembram-se do Luís?, aquele que a fez corar quando
por ela passou e efusivamente a cumprimentou no Teatro. O Luís,
de calças descidas até ao joelho, e ela desnudada por cima
do enigmático robe de seda cor-de-rosa, nunca usado na minha presença.
Entraram em pânico e eu apenas disse: ora, cá temos a confirmação
de toda a trapaça, da mentira em que andei mergulhado todos estes
anos... até que enfim, vi-me livre de um fardo que me ia pondo maluco,
cada vez mais, ano após ano... ponham-se na rua, seus adúlteros,
desavergonhados, nunca mais vos quero ver à minha frente!
E saí de casa, vociferando:
quando eu chegar quero a casa sem esta puta farsante e este porco imundo.
Demorei, dei tempo a que ela retirasse
o máximo dos seus haveres. Ela assim fez, acarretou as suas jóias
e roupas, sapatos e malas, objectos de estimação, ocupantes
da maior parte da casa. Os melhores objectos, comprados por mim, tinham
sido levados. E deixou um bilhete: « César, quando estiveres
calmo quero falar contigo, há contas a fazer, há que falar
sobre a separação ao nosso filho para que ele dê a
sua opinião sobre o seu futuro. Vou para o meu apartamento. Não
me leves a mal o sucedido, aconteceu o que é natural que tivesse
acontecido. »
Mas que apartamento? Ela não
tinha nenhum apartamento. Só mais tarde, algumas semanas depois,
percebi, comprara-o há um mês atrás.
O nosso filho
continuou comigo. Vê a mãe aos fins-de-semana de fugida, que
ele é um desportista dos melhores, até se levanta antes da
aurora para surfar!, e tem pouco tempo obviamente, assim como é,
para a família.
No momento em que vos narro a minha
estória exemplar, meses depois do sucedido, a Alicinha ainda anda
a dá-lo em práticas vergonhosas e goza as doçuras
do amor clandestino com o Luís, às escondidas da mulher deste.
Nem ele, nem ela deverão querer outra coisa, que é para todos
andarem numa estabilidade emocional digna do século e à prova
de qualquer mal-entendido, que aqui não tem cabimento, este século,
que agora principia, e que é também para não haver
imprevistos incómodos sentimentais daninhos ao amor construído
na proibida clandestinidade. E a mulher do Luís andará certamente,
na lógica dos tempos que correm, também a dar as suas ardentes
facadinhas pipilantes com algum conhecido ou amigo seu, dentro de algum
esquema quase perfeito, e dentro do modo que lhes seja mais favorável
e secreto. Habituar-se-ão todos à situação
da alegre e trivial farsa bem urdida, e contentar-se-ão com as delícias
do secretismo e com os gozos do ludíbrio, além obviamente
dos momentos de luxúria e êxtase que os une e unirá
até morrer.
Mas não
vos disse ainda o pior! Uma semana depois de ter saído de casa,
recebi um extracto da conta bancária da Alicinha e ela tinha um
saldo muito baixo, mas quando reparei bem nas linhas descobri que tinha
levantado uma soma avantajada com um cheque, capaz de comprar um
pequeno andar de luxo na melhor zona. Por isso, me dizia no bilhete deixado,
aquando da expulsão, que ia para o seu apartamento. E eu, o trouxa
que fui, acreditando no que me garantia a pés juntos, que andava
sempre tesa, que gastava todo o dinheiro em comida (mas que comida!), lá
fui pagando todas as contas, as prestações da vivenda que
comprámos, os carros, pneus, revisões, consertos frequentes
do motor e da carroçaria depois dos acidentais mais ou menos trimestrais,
almoços e jantares fora, festas principescas a homenagear acontecimentos
frívolos e partilhadas com os amigos, telefones, gás que
alimentava o aquecimento central da vivenda, sempre bem climatizada, reparações
periódicas em todo o imóvel, jardim e logradouros, electrodomésticos,
férias gozadas em paraísos e bons hotéis, roupas da
mais fina qualidade, casacos de pele e jóias, estudos caríssimos
do Bruno, carros e motas, mesadas substanciais.
De facto, eu andei sempre desconfiado,
até julguei a certa altura que ela deveria andar a ser chulada por
alguém ou pagando algum resgate desses que os vigaristas engendram
para não revelarem os segredos comprometedores escandalosos de mulheres
adúlteras, mas, queridos receptores desta estória exemplar,
era uma conta bancária em nome pessoal individual em nome da Alicinha,
engordada, como agora se conclui, todos os anos!... fiquei abismado, vejam
bem, queria ficar calçada quando terminasse o casamento, e poder
refugiar-se em algum lugar dignamente! Já que o não conseguira
durante os anos em que viveu refastelada! Afinal o chulado, fui eu, César
da Gama e Albuquerque, o seu marido cornudo!
.
- mas, então, se estás
apaixonada porque não denunciaste a situação conhecida
por todos menos por mim, da minha mulher ter um amante? Pressupunha-se
que fosses a primeira a revelar-me esta humilhação
- mas revelar o facto era
o que eu não queria, e fico apreensiva agora que descobriste tudo...
o que eu queria era que fosses meu amante até à morte. Casada
estou eu, e a situação tal como a que temos mantido agrada-me
plenamente, não quero trocá-la pela incerteza duma relação
a dois que pode não agradar a nenhum de nós
e dito isto, ali fiquei vazio,
absorto, a olhar para nenhum lugar... exclamei às tantas
- mas eu vou divorciar-me
e a nossa relação é capaz de sofrer consequências
desestabilizadoras e sequelas imprevistas criadas pela nova situação
- talvez não... vamos
ver, deixa-me pensar
Encontrei pela
primeira vez a mulher que seria, semanas depois, a minha amante, num baile
de máscaras, em casa de amigos comuns cinco anos antes do meu divórcio.
Não há lugar melhor do que um baile de máscaras para
as descobertas mais sensacionais, porque estas mostram o verdadeiro rosto
que esconde o menos real e o mais aparente. A Jaqueline, de origem francesa,
era esposa de um arquitecto, o José Maria Menezes, que exercia a
profissão numa empresa de construção, na qualidade
de sócio com quota, e ora ganhava muito dinheiro, ora andava a braços
com as finanças caseiras. Ela casara muito cedo, vinte e poucos
anos, pois não havia nenhum homem que não a desejasse levar
ao altar, e, ele era um bom partido, segundo os conceitos e juízos
burgueses da época. Por isso foi tudo muito natural. Ele era um
homem comedido, trabalhador, sofredor, educado na tradição
católica que ensina aos seus a encontrarem o céu pelo sofrimento
e pela resignação. Só que tinha um defeito, não
ligava grande coisa ao ambiente familiar, de acordo com a tradição
vigente, antes achava que depois do trabalho lhe estava destinado um sofá,
um jornal, uma televisão e algum trabalho extra que trazia na pasta
para executar durante as horas em que o amor se pratica e o sono extingue
a fadiga. É certo que às vezes chegava a cheirar a álcool
e a suores de fêmea, mas isso até era tolerável, não
era caso para divórcio, fazia parte dos costumes... tomei conhecimento
de todo este quadro mais tarde quando a Jaqueline era a minha parceira
de tardes fervilhando ambos num colchão de suma-à-uma.
A Jaqueline
era linda de fartar o olho, ao qual esta se apegava dia e noite para nunca
mais se esquecer, tinha o rosto da Brigitte Bardot, o corpo da Elisabeth
Taylor , a cintura da Rita Hayword, as mãos da Branca de Neve e
os pés duma gueixa chinesa. No meio da confusão carnavalesca,
nessa noite venturosa, mais que todas, de festejo carnavalesco em casa
de amigos de fachada, tropecei nela, e ela dirigiu-me uma largo e atraente
sorriso que me encantou. Depois da muitas desculpas, atrevi-me a perguntar
se era possível falar com ela no dia seguinte para lhe pedir algumas
informações sobre o casal anfitrião; um pretexto mal
amanhado, surgido à última hora, que não enganaria
ninguém quanto ao seu propósito, mas, enfim, foi o que se
pôde arranjar naquele momento para não perder a ocasião
de reatar o contacto, que não se podia perder de modo nenhum e especialmente
aquele que foi considerado como um primeiro grande amor à primeira
vista desarmada, igual a esses que só se vêem com muita evidência
e uma fulguração comovida no Cinema ou nas Telenovelas. Deu-me
no fim do baile num local meio escondido da saída para ninguém
topar, um papel com seu número de telefone e o nome, com uma anotação:
14h30. Mal a conhecia, porém fiquei preso para sempre àquele
sorriso todo aberto e solícito, ao seu pestanejar sedutor carente
de afecto, e ao gozo da companhia traduzido por um insondável e
muito pessoal trejeito dos seus lábios carnudos bem desenhados.
No dia seguinte
telefonei e marquei um encontro num Café da Baixa, e foi então
que a conheci verdadeiramente, pois que se me apresentou com uma
blusa justa e generosamente decotada, uma mini-saia que mal cobria as suas
roliças ancas bem acima do joelho, corpo onde não passava
despercebida uma ansiedade nervosa de responder ao que lhe viesse a ser
perguntado, um embevecimento no olhar, uma mão carinhosa que se
colava no meu pulso.
Conversa puxa
conversa, passou-se em revista o casal dos anfitriões, um desses
que gosta de agradar aos amigos proporcionando no seu salão de festas
as mais variadas brincadeiras inofensivas de adultos (potenciais ou experimentados
adúlteros), passagens de ano, carnavais, festas da terra em homenagem
aos santos padroeiros, aniversários. Não se notava nela nenhuma
queixa, nenhuma crítica negativa a respeito do casal.
Marcámos
novo encontro para a semana seguinte. Falámos de coisas triviais,
ou acerca do tempo, ou dos gostos pessoais, das notícias do dia,
dos prazeres da mesa, dos locais paradisíacos, dos livros preferidos
e fomos na semana seguinte ao Cinema. Aí sentados lado a lado, a
mão que encontra a outra mão, um aperto mais forte, uma carícia,
um beijo como selo de irreprimível ansiedade trémula,
numa missiva que nos remetia para um quarto alugado à última
hora para nunca mais perdermos o vício de futuros encontros.
Jaqueline tinha
uma filha, a Inocência, rapariga bela que saía à mãe,
sua parecida em tudo até na ternura. Era linda esta jovem de faces
ligeiramente coradas. Por ser tão protegida pela mãe, não
se dava muito bem com ela, porque queria a sua independência e o
seu direito à diferença. Além de tudo, já não
era uma criança, e não perdoava a constante intromissão
da mãe nos estudos e na sua vida privada; porque já a tinha
e restava-lhe actuar às escondidas para não ser repreendida
com aquelas palavras amargas de serem ouvidas e que enxotam toda a gente,
até os filhos.
A idade da Jaqueline
distava da minha dez anos a menos, mas notavam-se, por indícios,
os imensos cuidados com sua aparência, parecendo até mais
nova uns cinco anos do que aqueles que realmente carregava. Era estilista
de profissão, empregada numa das melhores agências do género
na Capital. Era simpática, acolhia bem uma nova parceria, falava
como um papagaio, tinha um humor fora do comum que me fazia rir e rir até
me convulsionar as entranhas genéticas, era doce e suave como as
papoilas do meu jardim, liquefazia-se em requebros quando a beijava. Algumas
semanas após tê-la conhecido, eu já não queria
outra coisa senão estar com ela, tê-la sempre ao meu lado,
tocar-lhe, apalpá-la, massajá-la em qualquer sítio,
no carro, no escritório, num quarto alugado ou emprestado, no convívio
episódico de um fim-de-semana por terras de Espanha, ou por aldeias
isoladas deste Portugal ameno e aprazível.
A sua presença
enchia-me duma alma nova, queria tê-la até ao limite do impossível
dentro e fora de mim, amá-la até à morte, e as despedidas
soavam a tristeza e ansiedade; a cada adeus, ficava desejoso de a encontrar
o mais rapidamente possível. Até que o inevitável,
aconteceu.... Começámos a ser observados, e a pensar que
todos os que nos olhavam estavam a saber mais do que nós, acerca
de nós; embora fosse pura ilusão psicológica, reverter-se-ia
este novo estado num verdadeiro tormento para nós, então
tornados cúmplices duma relação duplamente adúltera,
e por essa ocasião refreámos os nossos desejos de nos encontrarmos
em público, e reservámos o nosso convívio para o local
onde conseguíamos ter mais prazer. Era esse, a alcova de todos os
êxtases terrenos e divinos.
A minha mulher
em casa afadigava-se nas canseiras da preparação de aulas,
na gestão de roupas e comidas, na gestão dos conhecidos e
amigos, que queriam falar comigo, quando na realidade sabiam que eu não
estaria presente senão algumas horas depois. Ela lá os receberia
de robe cor-de-rosa e esperaria até que eu chegasse. Alegre e normalmente,
ora perdia tardes inteiras no cabeleireiro, ora em compras, ora na modista.
E eu curtia o melhor e maior amor deste mundo, combinando mais umas saídas
com a mulher da minha vida, a mais amorosa que conhecera até então,
tão terna, tão ansiosa até ao momento da posse, tão
vibrante em cima dos lençóis que por vezes ficavam rasgados
pela impetuosidade e violência dos orgasmos que deflagravam com a
potência dos terramotos mais loucos, numa explosão de alegria
gritante que nos ensurdecia e deixava nulos e exaustos, como lagartos dormindo
uma sesta estrelada que acabava antes do tempo idealizado. Quando acordávamos
no interior da mãe de todas as pazes, brincávamos a contar
anedotas ridículas, dizíamos os maiores disparates, ríamos
como loucos, éramos sem exagero duas crianças renascidas
chupando os resquícios de uma sombra no interior duma tenda sobre
o deserto, rodeada de intensa escuridão ponteada de estrelas, noite
mal dormida, prenhe de plenitude.
- tenho medo de te perder, tenho
medo que um dia encontres outra e me troques
- eu é que tenho medo que
um dia sejas atraída por alguém por quem te apaixones e me
deixes
- não de deixarei... quero
que sejas meu amante até morrer
- isso, também eu
isso era o estado de enlevo,
de empolgamento, de arrebatamento, de glorificação do amor,
que experimentávamos sempre que nos encontrávamos em algum
quarto mais sigiloso, mais propício ao disfarce e ocultação
da nossa situação de amantes fugidios.
- se um dia me deixares, ficarei
paranóica, já andei assim há uns tempos quando
o meu marido se desinteressou por mim, eu morro, não sei como me
aguentarei muito tempo sem ti
- não te deixarei, espero
bem é que não seja eu o rejeitado
quando uma amiga da Jaqueline lhe
emprestou uma casa de praia, que tinha herdado por morte do marido, então
é que foi garimpar em cima de todos aqueles móveis, de toda
aquela louça do quarto de banho, grandes tardinhas de Jakouzi com
todos aqueles esguichos massajadores que causavam os maiores arrepios de
estremecer a espinhal-medula. Foram belos esses momentos, excitantes, calorosos,
tempos de perdição!
- era nesta casa que a minha amiga
dava as suas facadinhas no matrimónio quando o marido andava pelas
arábias e américas. ela falava muito duma modalidade que
o marido não gostava, o fellatio e o cunnillingus
- como tu gostas e ao teu marido
lhe repugna essa prática sexual, comecemos por aí que no
amor tudo é permitido a quem a ele se rende sem complexos, preconceitos
ou tabus
- não, assim não,
comecemos por onde nos der mais prazer sem planearmos nada
- é isso mesmo... sabes
mais do que eu nas artes do amor!
- enganas-me, sabes mais
elogio para aqui, lisonja para
acolá, técnicas adquiridas, postas em evidência, para
cima, fantasias novas invertidas para baixo, posições criativas
do lado esquerdo, repetidos e longos êxtases posicionados à
direita, convulsivos mergulhos sado-masoquitas por todo o lado, conversas
de ocasião só para entreter e divertir e revitalizar as partes
murchas para o centro de todas as nervuras genéticas explosivas,
afrodisíacos para manter a chama nas forjas dos múltiplos
orgasmos, música romântica para predispor o ambiente aos actos
de puro amor avassalador, diríamos mesmo, porque verídico,
arrasador, assim se passaram alguns meses, até que aconteceu, o
que vos narrei sobre a descoberta do caso flagrante de ter visto a Alicinha
com aquele farsante em cima dela de calças baixadas até ao
joelho, na posição da fornicadela mais badalhoca e repugnante
que até hoje foi vista por estes olhos que a terra há-de
comer.
Agora, perdi-me porque andei à procura da versatilidade do seguinte pormenor do Drummond sentimentalão, esse que diz
Desfeito o casamento,
divorciados como mandam todos os cânones dos casamentos gerados e
desenvolvidos no ludíbrio, pedi de joelhos à Jaqueline para
vir viver comigo. Ela pensou, pensou de caraças, andou a imaginar
coisas que decerto nunca terá a coragem de me dizer, mas ao fim
de três meses, disse
- está bem, temos de ser
apanhados em flagrante na minha casa numa situação comprometedora,
e que evidencie a nossa ligação... podes, por exemplo, ser
apanhado em trajes menores, comigo nua, na posição do fellatio...
ele vai então compreender a sua falta do que me fazia falta, e não
ficará tão rancoroso como sermos apanhados um sobre o outro
ou na modalidade canzana...
- bela ideia, um pouco maluca não
há dúvida, mas imaginativa e capaz de ser a ideal... tenho
de ir armado, todavia, não vá o diabo tecê-las
- não, não vás,
ele não é violento, o mais que pode é dar murros e
atirar objectos ao ar ou contra nós, mas só isso... ele é
dos que mete o rabo entre as pernas... é manso, muito manso, acredita
e tudo aconteceu conforme a Jaqueline
estudara, planeara e previra... hora tardia dentro das previsões,
filha a participar e a partilhar na maior o gozo do aniversário
de uma amiga, nós numa posição invertida em cima dum
enorme sofá de pele de chibo encarnada, ela nua e eu de calças
baixadas até o joelho, o meu tronco nu cheio de pêlo
e o José Maria a entrar
no salão, estarrecido
olhos esbugalhados, boca aberta
que nem uma cloaca dum dragão
- mas que merda é esta?...
ó seus desavergonhados pirem-se desta casa para fora... não
vos quero nunca mais ver à minha frente... grandes filhos da puta,
cabrões de merda, quando eu voltar, se cá estiverem dou-vos
um tiro nos cornos
e lá foi a Jaqueline directa
para minha casa que a aguardava com ansiedade, carregando ambos com as
suas roupas, sapatos, jóias e peles, perfumes variados e caríssimos,
bibelôs de estimação, objectos valiosíssimos,
o filho avisado com antecedência da minha decisão, a filha
por avisar, e, a quem o pai se encarregaria decerto, na lógica integral
das ocorrências em iguais situações, de contar com
alguma omissão dos factos mais humilhantes, dos pormenores mais
intrigantes, para, como é perfeitamente natural e evidente, não
se mostrar também culpado aos olhos da descendência.
O José
Maria não se incomodou muito com a sua nova situação,
poucos meses depois já tinha nova companhia em casa para tratar
da filha, que quis ficar a viver com ele, assim era tamanha a aversão
que tinha pela mãe repressora, e adoração pelo pai
tolerante, duma tolerância como não há nestes dias.
Ou serão todos iguais? Parece que sim, desculpem lá o panegeríco
da fraqueza! Só vê a mãe de longe a longe e de fugida
quando há aniversários e precisa muito de dinheiro para as
férias ou para comprar as melhores roupas e sapatos, à imagem
de todas as amigas e conhecidas dela que se prezam de o ser.
Custou bastante esta separação,
à Jaqueline, mas lá se convenceu, depois de lhe ter enchido
a cabeça de teorias sobre a autonomia responsável das jovens
mulheres, pormenorizando que está-lhes reservado o direito de dar
tantas cabeçadas dolorosas pelas tentações, pelo orgulho
desmedido e pela vaidade fatal, que um dia vão aprender a ser exemplares.
Falta, de facto, a todos o manual de utilização das almas
e dos corpos no jogo erótico actual sem regras e sem verdades!
É isso que falta e vai fartando.
O sentimentalão
do Drummond é que devia ter razão nos versos:
A minha vida, como estão
a entender, teve um final feliz, nem era de esperar outra coisa, por que
sou um militante optimista da Avé Maria de Bach ou da Sinfonia do
Mundo Novo de Dvorjak, muito embora tivesse de travar uma longa luta contra
as decepções e as trapaças, algumas tão ingénuas
e cândidas como as que vos contei, dignas do teatro molièriano.
Vivemos tempos novos capazes de inverter o mau caminho que as coisas muitas
vezes arrepiam por causa das práticas ocultas.
No entanto,
como é próprio da sabedoria popular, não há
bela sem senão, nem há bonança sem borrasca... é
que, meus queridos leitores, há dias, vi um chato de um divorciado,
divertido como nunca encontrei outro igual, colega da minha Jaqueline a
rondar-me a casa, a querer sair connosco, a convidar-nos para jantar com
a obrigação de ida ao cinema, e ela, coitada (vê-se
que está cada vez mais generosa e altruísta), tem muita pena
dele, porque ele é uma desajeitado, um desvalido de alma (as
mulheres são tão cruéis que não há nenhuma
que quisesse viver ao seu lado, disse-me outro dia), mas é um tipo
porreiro, tem um coração de pomba, está sempre pronto
a ajudar os mais necessitados, e francamente quando o vejo em casa nas
horas em que toda a gente sabe que eu não estou, começo a
ficar, como nos velhos e nauseabundos tempos, um tanto ou quanto preocupado!
E, se não havia de ficar! Pois que não vá o diabo
tecê-las!... Só que, neste momento, estou em desvantagem,
sou eu quem não conhece nenhuma divorciada desajeitada e repudiada
ou viúva inconsolada, porque se assim não fosse, tudo se
comporia; no caso do azar dos azares, como por exemplo vê-lo na situação
em que eu estive com as calças baixadas até ao joelho, mas
nestes tempos de felicidade única e suprasumo tinha que ser numa
posição inusitada, a de sodomia por exemplo (e só
me falta este exemplo para completar o quadro da desgraça burlesca),
ficaria tudo mais ou menos empatado e sem mossas de maior ou menor significado.
Se calhar, o melhor é meter ombros à obra, antes que seja
tarde...
Azar ou... sorte,
encontrei ao arrumar os livros, ainda ando à procura deles, pois
estavam quase todos escondidos pela Alicinha em espaços recônditos
(o espaço ocupado anteriormente pelas brochuras tinha dado lugar
à sapataria), e encontrei hoje a Antologia Poética de Carlos
Drummond de Andrade, e ao abri-la dei de chofre com a poesia espantosa
que garante que o primeiro ama a segunda que ama o terceiro, ou ele ama
a que ama outro. Fiquei fulminado com o clarão ardente de luz que
incidiu sobre as minhas virilhas genéticas dum calor equatorial
que só as pretas conseguiriam dissipar, porque habituadas aos tórridos
calores em que os coitos fervem a 60º, tal e qual a temperatura da
fervura do leite bovino. Todavia, hoje vou dormir na santa paz do senhor...
lembrando ao sentimentalão que a parte final já não
se usa, já ninguém vai para os Estados Unidos, nem para o
convento, é preciso mesmo muito azar para se morrer de desastre,
nem nenhuma mulher fica para tia, nem há homem que se suicide se
amar e for amado. Agora elas casam-se todas com quem não entra numa
estória. Isto, assim dito, que o Drummond não sabia, nem
tão pouco era do seu ou do nosso conhecimento o que fazia a sua
respeitável mulher quando ele se encontrava com a jovem amante,
não invalida os amores em zig-zag.
Vendo bem, pensando
com a garra dos tempos actuais, o malandro do poeta deve estar ultrapassado
ou esquivou-se, na realidade, quando chegou à encruzilhada
é que, a certa altura, o
João amava a Teresa e a Maria, e a Lili amava o Joaquim e o Raimundo
e o genial poeta talvez não
tivesse descoberto o engano ou o ludíbrio em que o mundo anda ensarilhado,
ou...
Isto já
é de mais, já vos revelei como a paixão pode ser desviada
numa encruzilhada repentina, associando-a aos outros amores em zig-zag.
Noutra ocasião, vou-vos contar os momentos e as ocorrências
passadas, não há muito tempo, em que amei do coração
duas mulheres, e cada uma delas amava apaixonadamente dois homens, amores
bifurcados e ramificados em VVV sucessivos até ao infinito, os quais,
embora já não sejam muito originais, são outrossim
o que mais se vê nestes bons e dulcíssimos tempos que usufruímos
ebriamente e temos a sacra-felicidade de saborear!
Gaia e Mação, Agosto
de 01