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  •         Estórias Singulares
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                                de
     
     

    Daniel Cristal

     
     
     
     

     
    Desenho de António Alves
     
     
     
     
     
     
     
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     Índice de 13 narrativas curtas:
     

     1º Caderno

    1- Contos de Natal
        1.1 - O Reizinho Mago (a editar no dia de Natal)
        1.2 - Uma estória de Natal    (NOVA!)
    2- A Aranha        (NOVA!)
    3- As encruzilhadas do ludíbrio

    2º Caderno(link):
     
    4- Confidências duma puta de luxo
    5- Meu grande amor
    6- O Ronca
    7- A Bilha de Barro Fresco
    8- A Escola da Igreja
    9- O pretérito tabu

    3º Caderno (link):

    10- O Divórcio
    11- Parábula fabulosa
    12- A Caça aos Pardais
    13- Gostava de ser Mosca
    14- Peripécias de Combate no Planalto dos Macondes
     

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       1. Contos de Natal
     

                    1.1

            O Reizinho Mago
    Um microconto a editar no dia de Natal
     

                    1.2
     
     

    Uma Estória de Natal
     
     
     

        Levantar cedo que é dia de Natal! É dia de beijar o pé do Deus menino na Igreja, beijá-lo ao lado do enorme presépio, cuidadosamente feito pelos meninos da minha idade. Era assim em S. Vicente, minha terra natal. Eram os tempos saudosos em que frequentava a Escola Primária, a qual da Igreja só distava uma estrada empedrada. Cedinho me erguia da cama para me deslocar célere a pé, empolgado e com o coração cheio de alegria e pureza, beijar o rosado pé divino feito em barro que os meus conterrâneos disputavam, esticando o pescoço franzino até aos limites do suportável, para serem os primeiros.
        A perfumar a memória da nossa existência, ficam estas recordações de pureza e candura, amaciadoras das agruras da vida e das suas peripécias atribuladas, algumas das quais riscam e amolgam o coração. A vida está cheia de ciladas insidiosas, onde menos se espera, e a falta de prudência ou o desconhecimento da sabedoria mais profunda à mistura com alguma tontaria propositada, quantas vezes nos prejudicam e devastam.
        O Natal é, além de um dia de festa, de confraternização quase universal, o dia da Criança bafejada pelo espírito divino. Porque é ela, a Criança, o centro de atenção e afeição dos adultos. A pretexto do nascimento de Jesus menino, em Belém, ou como sua consequência e sequência ininterrupta, revemos uma inspiração a nível planetário: são todos os meninos unificados neste menino, e as prendas que lhes oferecemos são também um tributo colectivo a este nascido na manjedoura, e nós somos os Reis magos, todos ligados por um cordão umbilical acrónico e utópico.
        É este o dia em que meditamos sobre a nossa própria meninice, memória sempre renascida... é ocasião de revermos o projecto que, mal temperado no início, condimentado o bastante com as vivências dos nossos erros e dos nossos sucessos, traçámos para o nosso percurso terreno, a nossa efémera e incerta viagem neste planeta, que nos acolhe transitoriamente numa prova de humanidade, bem ou mal sucedida.
    Jesus Cristo veio à terra numa missão necessária e urgente: indicar o caminho da redenção. Sem meditarmos de vez em quando na sua mensagem, corremos o risco de nos afastarmos da harmonia universal, esta que nos auxilia no convívio e na parceria com e entre os nossos semelhantes.
        Este halo mágico de espiritualidade, a percutir emocionalmente as comunidades das Nações cristãs, vivi-o junto de outros povos, especialmente em Paris e Londres, numa idade ainda jovem. Lá, como cá, as ruas e avenidas fervilhavam de vida, resplandeciam de luz, brilhavam de deslumbre, a comemorar o dia mais feliz do ano; este que celebriza o espírito da incarnação.
    Já nessa altura os brinquedos e os bolos eram expostos ao consumidor da forma mais fantástica e radiosa, apelativos aos transeuntes, a solicitar a tentação da compra irresistível.
        Trocávamos nos dias antecedentes postais  ilustrados, alusivos à quadra festiva, autênticas obras de Arte com mensagens poéticas, algumas originais, pessoais.
        Natal é, repito-o, o dia da Criança simbolizado no menino Deus. O dia em que todas as crianças são uma só Criança, unificadas num menino Jesus colectivo.
        Por isso, em homenagem a este dia, vos estorio o que se segue:
        Adoro as ruas, as avenidas, os quelhos, as praças da nossa cidade. Em dias de festa por elas deambulo para observar o ambiente artesanal, arquitectónico, escultórico e humano, ou seja, reparar bem nas pessoas de todos os tamanhos, distinguir os ornamentos de todas as épocas, valorizar a azáfama de todas as dinâmicas, diferenciar os matizes de todas as cores, odores e auscultações, fixar as montras de todos os tamanhos e recheios. Vai fazer um ano, percorria uma rua e deparei, de repente, com uma pobre criança, rota e suja, a observar uma vitrina de bolos de chocolate, resplandecentes pela luz incidente. Eram bolos castanhos, brilhantes, frescos, apetecíveis que faziam crescer água na boca. E a criança ali estava pespegada, imóbil, como uma estaca, não arredava pé de tanto desejo, certamente salivava de apetência descontrolada.
        Olhei-a  e abeirei-me dela. Perguntei-lhe se queria escolher algum.
        Que sim, e escolheu. Levei-o ao interior da confeitaria, pedi-lhe para escolher mais alguns e comprei-os. Dei-lhos com a embalagem. Ele sorriu, um sorriso enorme, franco, fascinante, do tamanho do Universo
    - não me agradeças, porque sou eu quem te vai pedir um favor! No dia de Natal, vais beijar o pé do menino Jesus à primeira missa do dia, na Igreja mais próxima
    - está bem, não me vou esquecer
    e continuei a minha deambulação. Era uma rua comercial, engalanada por todos os ornamentos e enfeites adequados à quadra festiva. Uma rua com arcos e ogivas e muitas lâmpadas coloridas incandescentes.  Da rua saía uma auréola de energia luminosa que impedia de se verem as estrelas; não era preciso esticar o olhar para o céu, elas estavam ali na rua. As montras exibiam artigos variados de consumo, lindos, apelativos, acantonando a cada passo um presépio feito com esmero e beleza. Resplandecente, sobre as palhas da manjedoura o menino era aquecido pelo jumento e a pela vaca. Maria e José olhavam-no embevecidos.
        No dia de Natal  de há um ano, lembrei-me daquele menino vadio, que, como eu quando era criança, beijou o pé de alguém que morreu na cruz para nos dar um exemplo da purificação da alma.
        E este ano, antes do dia mais caloroso e espiritual do ano, continuarei, à semelhança de todos os anos anteriores, a observar as ruas com a esperança de que aconteça algo tão emocionante como o que vos contei neste episódio que não difere muito do nosso dia-a-dia... Apesar de tudo o que possa surgir, ficarei mais empolgado se outro cenário e cena mais belos acontecerem, como, por exemplo, deixar de ver crianças esfomeadas a olhar vitrinas opulentas, pela simples razão de que deixou de haver fome neste mundo, neste que todos compartilhamos sem até agora termos dele uma consciência global!
     

     
     
     
     

    2.
     

      A Aranha
     
     
     
     
    A Lua é, está redonda, primitiva, na forma de um ovo, branca, resplandecente, sorridente num espaço límpido, com o firmamento cheio de estrelas reluzentes. Está extremamente bela e plena de felicidade, ou é a nossa felicidade que a torna feliz, não sei bem qual das perspectivas é a mais verdadeira, e a sua luz clareia a praia, as areias que pisamos, tal e qual como uma superfície lisa e virgem: estamos descalços e os nossos pés imaculados pisam-nas, deixando um rasto, anunciando e denunciando o caminho do nosso percurso,  molhamos os pés nas águas esponjosas de espuma.
    No ar, imaginamos as melodias de violinos e bandolins, a soar, como uma orquestra, ali posta à nossa disposição para nos extasiar com os acordes harmoniosos,
    despimo-nos, como quem deseja despojar-se de tudo o que nos tolhe o desembaraço, e quer ser livre para amar, para virginalmente entregar-se ao amor ilimitado, desinibido, todo feito entrega e dádiva, sem espera de qualquer recompensa, que não seja a felicidade ressuscitada,
    e, nessa circunstância, junta-se um violoncelo, que dá mais volume a toda a melodia, ouvimo-lo claramente, os violinos revigoram, obedecendo à maior rapidez, imprimida às varinhas do arco
    os nossos corpos nus, silenciosos, dançam ao som da orquestra, na plenitude da meia-noite, a aguardar a madrugada que propositadamente tarda a chegar para não perturbar a nossa alegria de estarmos juntos e únicos, fugidos do mundo da confusão e  das pressões sociais... são corpos perfeitos, clareados pela face da Lua branca, fulgente e rutilante, e estendemo-nos sobre as areias mortas, mas respirando a maresia que nos inebria de iodo. Os corpos resplandecem toda a beleza da criação, como vivendo uma estória, ainda por escrever, ou seja, a ser escrita por si-própria, ou pelos nossos corpos descomandados, porque todo o Universo neles se anula, diante da  aventura que poderá deflagrar a qualquer momento, sem nunca haver intervenção da nossa própria vontade, ou quaisquer intenção ou finalidade previamente concebidas.

    Uma aranha, vinda da Lua, tece  o seu próprio fio de seda pelo qual desce, enquanto o vai gerando, e, chegada à areia enrosca-se nela própria, como que descansando do seu esforço, e do esgotamento a que é submetida. Ela é o artista que, no fim da obra, se esgota e se aquieta de anulação
     toda esta aventura ocasional, que vivemos, com música imaginada à mistura, mas, na realidade, é uma aventura musical, é a própria feitura do estória, desta estória que se escreve a si-própria, sem interferência directa, seja de quem for, e se vai desenhando no écran, como de uma partitura se tratasse, invadida pelo imaginário e pela imaginação do próprio Universo que nos surpreende a cada instante. Se lhe sobrepusesse a autoria de um anónimo, esse seria o autor, melhor : o narrador
    entretanto, a aranha descansa para recompor as forças e revitalizar-se, e os nossos corpos refulgem a sua patética majestade
    a aranha parece morta de tanta quietude. Também ela gerara : não há parto que não se faça com essa dor que responde a qualquer acto de amor. Mas a seguir à violência vem a imobilidade e a felicidade, ressurgida do abandono

    grave e magnífico, o Céu. A magnitude e beleza da Morte nunca se  poderão igualar a esse Céu. A Lua olha-nos mais uma vez, e perfuma-nos com os odores próprios do mar, carregados de maresia e iodo. Há um vento suave,  morno, carícia dedilhada pela ternura de cinza, que é o seu sangue
    a minha amada tem a cabeça sobre o meu ombro. Estende os braços, como quem se desprende da vida. Não há dor, todavia, neste momento, há sim o sentimento profundo, íntimo, intenso, imanente do encontro revelado com a razão do ser, ainda mal percebido em toda a sua total amplitude e dimensão absolutas

    a aranha recobrou as forças, deixou a meio do caminho mais uns pontos, onde se obriga a fixar a sua teia... fá-lo instintivamente, com recurso ao instinto mais primitivo que se pode imaginar, e sobe a teia que gerou, ficando inerte, lá em cima, a meio do trajecto, esgotada novamente, em descanso absoluto, revigorando as forças por ter ocupado tanto espaço, sem tempo, estende uma perna, duas, deixa-se bambolear à procura de algo firme, mas cega como está por tanta luz, por tanta lucidez, o seu esforço é infrutífero...
    porquê esta aranha? talvez tenha surgido como alegoria da vida? como efabulação? porque aparece assim repentinamente ? não se sabe porquê, nem para quê ? mas vem no momento exacto em que algo de insólito tem de aparecer, está designado por artes mágicas, como acontece em todas as coisas que vivemos e fazemos... vão-se elas urdindo nelas próprias com a nossa vontade, interpenetrada por vontades alheias? !
     
    os violinos redobram de intensidade, o violoncelo apenas harmoniza o seu vigor, aproximando-o da areia, ou da terra,  e quebra-lhes a exclusividade e a sua vontade de se volatilizarem.

    Há, na atmosfera, uma ânsia de arrebatamento, de ascensão, que nos faz atrair a Lua, ou será a Lua a atrair-nos?, querendo absorver-nos, aspirar-nos, arrancar-nos da praia e atrair-nos até ela, aproveitando o fio da aranha...
    devagar, muito devagar, a aranha sobe novamente pela sua própria teia tecida, e é uma aparição tão repentina, que julgamos ser um golpe de magia, feito por qualquer ser invisível, mas presente, tão só: bem sensível !... porque o impacto faz-nos tremer as entranhas genéticas!

    na praia virgem, inexplorada, sentamo-nos, totais, unificados, presos intimamente à Beleza. À música imaginada junta-se, agora, outra, bem mais real: o murmúrio, sem tempo demarcado, das ondas a enrolarem-se na areia, com um ritmo lento, o ritmo da languidez, da indolência de quem não tem pressa em chegar, seja onde for

    o Céu está impaciente e perdido na sua solidão impessoal, sombreado pela sua cor magnética do bronze
    repentinamente, a música pára, a aranha, lá, quase perto da Lua, pára também... levantamos as nossas cabeças. No firmamento, tudo parece igual, vivo, grandioso, imponente, soberbo, venerável. Os horizontes, de todos os azimutes, unem-se
    a estaca apropriada, medindo as águas oceânicas na maré-alta e na maré-baixa, lá está adormecida, absolutamente erecta, deificada, como um mausoléu de significância sobrevivente
    a sombra das dunas altera-se um pouco, mudando ligeiramente de lugar na sua extensão e expansão

    a sombra do corpo dela é incomum, uma auréola nunca antes observada. Os seus olhos são lindos, raras preciosidades, parecem duas esferas dum colar de madrepérolas
    não como aquele, que vimos em locais do passado, porém um colar, já não de xistos, negros, mortiços, só valiosos pela antiguidade; estas duas pérolas, todavia, distinguem-se agora pela substância outra, e pela actualidade
    o seu cabelo era a conjunção de todas as sedas, que a aranha até hoje teceu, ele está estático e mudo, como pertencendo à estátua mais perfeita, solta, mais viva do que a compacidade do mármore, esculpido por um deus incarnado no artista de eleição. As   formas do corpo dela são lustrosas, salientes, seráficas, a expressão da Arte mais sublime
    vamos, agora, banhar-nos nas águas do Oceano. Sorrimo-nos com o corpo pleno de felicidade; são sorrisos cheios de sonhos e de magia... estreitamos as nossas mãos mais fortemente ; nadando até longe, e, voltando, por fim, às areias mornas e infecundas da praia prateada
    subitamente, pelo impulso da criação, abraço aquele ser deslumbrante que me ladeia. A aranha já subiu até à Lua e deixou-se cair, num ápice, deixando no seu trajecto espacial mais uma linha de seda, visível aos nossos olhos deslumbrados, quase verosímil, e a música renasce na substância de jazz, acordes de piano rápido, subindo e descendo de tons, acompanhado do bandolim, que suspendeu subitamente todos os outros instrumentos e então surgem os clarinetes, as trombetas, os címbalos e os bombos. Um frémito de arrebatamento percorre-nos violentamente
    disparo assim, repentinamente, no desejo de amá-la e ela olha-me fixamente, sob o revigorado clarão da Lua... e é certo, que nos amamos, estamos  a amar-nos, colados um ao outro pelas gotas de sal aplanadas, depois da convulsão pela sobreposição cheia de ternura dos nossos corpos, teimando em permanecer fora da duração do tempo, na pele plúmbea ! seguidamente... saciados, mais pacíficos do que tudo o que nos envolve, mais marmorizados do que nunca, esquecemo-nos de que existimos.
     
    A aranha desapareceu, a música parou, e escutámos um poema de amor, que se conservava na memória, sobrepondo todos os outros, que já esquecêramos. Nunca houve maior Beleza do que aquela, que a natureza nos ofertava, "nesta noite": a da nossa espontânea criação.

    A sua cabeça voltou a ficar inerte sobre o meu ombro, o clarão da Lua continuou redondo, nesse espanto de brancura. No ar havia palavras jovens de alguém que estava dentro de nós e nos dizia: "Bendito o milagre da revelação desta imanência... ser alguém, que pode amar e ser amado e  pode esquecer que cada vida é um perdido grão errante de areia neste majestático e imensurável Universo, um grão que é tudo, e, paradoxalmente, não é nada, e há-de ser consumido pelo tempo, ou renascerá na forma de um deus, que está sempre em núpcias com a natureza, dando-lhe o ser, ou a sua memória escondida e imperceptível... dentro de nós, há marcas da genialidade, puramente originais, que nunca investigámos, nem explorámos, nem expandimos. Vivemos quase sempre na obscuridade da contiguidade, e não sabemos o que perdemos em cada minuto que passa por não expandirmos o nosso ego pelo Universo".
    Esta oração foi ouvida pela minha amada, que me disse ser a dela. A oração dela era afinal igual à minha, nunca soube  porquê... como pode ter tudo isto acontecido a traço negro configurando uma sombra vibrante prateada abarcando o infinito e centrando dois corpos ínfimos levemente rosados?
     
     
     
     

     
    3.
     
    As encruzilhadas do ludíbrio
     
    1
    .
    Depois da revelação de que a minha amante sabia que eu estava sendo traído pela minha esposa, mas estando sempre durante todo esse tempo,  muito interessada em ocultar-me a verdade, revelação para a qual não estava minimamente preparado, esta que se encontra dita na continuação da meada neste espaço estruturada e tecida com as linhas com que se foi urdindo, fiquei transado de espanto, de estupefacção, confundido numa espiral de receios com as cartas que baralhei de mais, até ao momento em que elas finalmente me saíram dos dedos, desordenadas no encaixe pelo lado oposto e impossibilitadas de jogar mais pela falta de validade fixa e a ausência de regras adequadas à parceria com quatro figurantes à roda duma mesa de pano verde. Não era possível passar vinte anos a ser martirizado e  ludibriado, um contra-senso danado que só um poeta genial poderia contar em verso epopeico! Um encruzilhada com três caminhos à frente  para optar, ou seguir em frente em direcção ao objectivo mais cómodo, o da aceitação dos hábitos adquiridos e respectiva conformação, o da esquerda que seria romper com tudo o que foi sendo sedimentado lentamente e escolher a solidão, o da direita que era o do rompimento e construir uma nova parceria baseada numa relação de amor ardente. Vinte anos dum homem gastos num infindável esticar duma corda angustiante a aturar discussões inúteis, esquadrinhado em consequentes arrelias, recorrendo por compulsão às ternura e luxúria, estas oferecidas generosamente pelo sexo oposto... sejamos claros: a esses sentimentos fui compelido por uma necessidade de sobrevivência ao enfado e à rotura, reagindo muito naturalmente de acordo com uma existência formada por folhas dúplices, o anverso estiolado pela aridez duma relação provocadora, trapaceira, azeda e agressiva, doentia mesmo, às vezes um deserto de indiferença que me ia enlouquecendo, e o reverso compensado pela exuberância de evasões empolgantes que equilibraram toda a minha estruturação do ser pensante que sou, do estar presente e salvo da demência, mantendo-me assim firme e inviolado, e do agir em conformidade com o meu destino de sobrevivente num mar encapelado de naufrágios maritais sem hipótese possíveis de salvação. Acontecer-me tudo isto (e não percam pela demora, que tudo neste mundo se paga), achei-o, na juventude, impossível de ser verdadeiro... e logo a mim, senhores, que me julgava um cavalheiro inteligente, correcto, discernido, capaz de escolher em todas as encruzilhadas o melhor caminho.
    Ouvir simplesmente a dada altura da vida
    - não te confidenciei nada, porque quero que sejas meu amante até morrer
     foi de estarrecer (volto a frisar), de ficar sem um único pingo de sangue nas artérias e nas veias, condutas corporais  onde ele circula normal e calmamente quando não entra em ebulição por  causa das paixões avassaladoras de concupiscência ou paixão, ou em  arritmias temíveis por causa das emoções mal assalopadas de ódio ou desespero.

        O meu nome é César da Gama e Albuquerque. Apresento-me, antes de mais; aliás o que dá mais prazer é dizer o meu nome completo na dicção mais eloquente e enfática. Tenho como podem constatar um nome pomposo, que me fica a matar. Serve-me como uma luva. Tive uma meninice citadina, a melhor que alguém poderia ansiar ou imaginar. Os meus vizinhos gostavam de todos nós, mãe, pai, irmãos e irmãs. Com a sorte com que Deus me bafejou, o meu pai era médico e consequentemente mais prestígio tínhamos na zona. E eu sentia-me um autêntico príncipe das Astúrias, quando na Escola Primária me começaram a ensinar a História e a Geografia dos reinos de Leão e Navarra, do Condado Portucalense, da Galiza e da hegemonia de Castela.
        A minha adolescência foi igual àquela que tiveram os meus antecessores e os meus amigos urbanos. Uma adolescência frequentando os melhores Colégios, não abdicando de privilégios com que os directores me favoreciam, excepcionando-nos às muitas regras, que só eu e os meus amigos de igual berço desrespeitavam, porque eles veneravam-nos muito, dando assim provas da sua inteligência superior, motivada pelos nossos estatuto, estirpe e desafogo.
        A minha juventude foi a mais bela de todos as gerações. Estudando em Coimbra, conheci os maiores farristas deste mundo, as mais belas garotas deste planeta, os melhores professores da nossa intelectualidade. Foram tempos memoráveis. Aos quais me inclino, hoje, com cinquenta anos bem cumpridos, conforme manda a puta da sapatilha ou para não ser tão malcriado (embora este signo seja o que mais se ouve por todo o lado), ou seja, para ser mais cândido, conforme manda a milagrosa chinela da Cinderela. Tirei o meu curso de Letras (a mais não chegava a minha inabilidade para a Matemática); de resto, esta disciplina foi nos Colégios a minha maldição (indiscutível e irreverentemente, os professores da matéria eram pedagogos incompetentes, até parece que lhes dava um sadogozo ter alunos desistentes para que a aprendizagem se tornasse inacessível a, e repudiada pela maior parte dos alunos, mas diziam com uma desfacetez medonha e uma dicção mórbida: nem todos podem ser doutores!), porém o meu Curso predilecto era o de Economia. Esbarrei-me no entanto na 6º Ano com os algoritmos, logaritmos, senos e co-senos, e desisti então do meu projecto pessoal. Foi a minha primeira decepção comigo próprio. Acabei por conseguinte o Liceu na área de Letras, antes de ir para a tropa, o que me deu direito e o dever de defender a Nação nas terras de poentes de sangue como Oficial Miliciano no Ultramar.
        Fazendo jus à esteira do meu genearca, acreditei que era também um sedutor donjuanino e me estava destinada uma carreira de sucesso. Sobretudo, graças ao bafo benfazejo de Deus, aconteceu que me tornei alto e esguio, com um metro e oitenta, todas as mulheres me olhavam com natural atracção cobiçosa, o que me dá uma superioridade insuspeita, e por isso tive de recusar muita provocação de mulheres candidatas ao piso, mas pelas quais, na maior parte, eu não me sentia atraído, nem me despertavam o mínimo de interesse. Lá fui dando uns beijos furtivos às marafonas mais atraentes, e algum aquecimento fogoso a outras mais libertinas, as que queriam mesmo sentir-me por inteiro dentro das entranhas genéticas, mas tudo não passava de uns provisórios tempos mais ou menos cronometrados numa gozação momentânea, com fim à vista, nem nenhuma obtinha acolhimento para muitos favores ou promessas.
        A arrogância, a vaidade e o orgulho ganhei-os na minha condição do estatuto social adquirido em família. A superioridade e a obediência foram exercitadas e afinadas na apreensão e compreensão da disciplina e hierarquia militares. Desta arte, dentro de todo este caldeamento psíquico-cultural e com toda esta formação varonil, considerava-me um homem perfeito, consciente dos meus direitos e dos meus deveres em sociedade.
        O meu passatempo ou hobby predilecto era o envolvimento promíscuo com prostitutas aferroadas e de fogo no rabo, à noitinha nas casas de passe, as mais ingénuas e frescas profissionais com jeito inato e propensão para posições funcionais aeródatas de tal modo intensas e violentas que as deixavam saciadas e prostradas, assim como me punham fora deste mundo, aquietando-me por uma semana os sonos e as depressões, que o tédio, a indolência e o aborrecimento da rotina bafienta de dias intermináveis, me causavam em períodos de férias ou em dias de relaxe profundo e de noites seguidas de insónia. Lá fazia de vez em quando um joguito de futebol com os amigos para espairecer e desgastar energias acumuladas, praticava musculação culturista quando me dava na gana, frequentava o Cine-Clube para estar sempre actualizado quanto às últimas novidades de Ingmar Begman, de Orson Welles, e do Roger Vadim, aquele francês que descobriu a Brigitte Bardot e a desflorou  pondo-a nua na película, tal qual a Eva no Paraíso, lia livros que estavam mais ou menos na berra. Adorava o Goldfinger, o 007, o James Bond. Não perdia o Peter Sellers, os clássicos westerns de pistoleiros e cow-boys.
        A minha vida não era desequilibrada quanto  isso, também gostava de ler as páginas em livro do filósofo-político Bertrand Russel, as obras literárias de Albert Camus, Céline, Sommerset Morgan, William Faulkner, Henry Miller, Miguel Torga, José Régio, Luís de Camões, Virgílio Ferreira, Eça de Queirós, Fernando Pessoa e Tagore. De quando em vez também mergulhava na filosofia dos tempos, li textos de Platão, Sócrates, Aristóteles, Sigmund Freud,  Nitzche, Shopenhauer e outros mas tenho dificuldade em reter nomes dos quais não faço uso, gostava ainda da música, de Dvorjac, de Beethoven, Bach, dos Blues, de Jazz, de Elvis Presley e de Jonny Halliday, Sylvie Vartan, George Moustaki, Joe Dassin e são estes os nomes de quem me lembro ainda. Claro, adorava a Amália Rodrigues e os fados de Coimbra.
        Vim da guerra colonial em 1973 com uma blenorragia à prova de bala de quase me fazer esticar o pernil, decepcionado não comigo mas com o tempo perdido numa guerra inglória e infrutífera, desiludido com a humanidade que faz guerra por plutoconveniência e por um idealismo estúpido e primário. Algumas pretas por lá andavam pelos acampamentos a fornicar, que nem as gatas com cio, com quem lhes aparecia à mão e lhes dava uns cobres, de modo que com tanta promiscuidade vénera, não admira que muitos de nós andassem com o títere a escorrer ranhos venéreos por cima de cavalos calosos e mulas gelatinosas. Aliás, antes da minha mobilização militar para a África nossa, já eu era conhecido em todos os bordéis da cidade, constantemente à espera da última novidade, a mais tenra, feita pela angariação militante das proxenetas, que me estimavam e avisavam da chegada da noviça. De modo que não era para admirar... de vez em quando andava com o órgão genético embrulhado em trapinhos, porque de tudo fui alvo, esquentamentos, gonorreias, mulas, cavalos, chatos, sarnas apanhadas por contágio nos bares dos cais citadinos em mulheres, que transavam que nem umas doidas com marinheiros e embarcadiços.
    Mas aquela doença venérea trazida da Guiné ia liquidando por completo a minha esperança de viver mais uns anos para contar como foi aos meus futuros filhos e netos, não fosse os cuidados médicos a que o meu pai se predispôs com um zelo ternurento e um profissionalismo fora de série, repreendendo-me semanas seguidas à frente da minha mãe para aparentar ser um bom educador, mas no fundo gozando que nem um nababo e glorificando-se entre os amigos de ter um filho, que em matéria de mulheres, não ficava atrás dele, porque, para ele, eu era merecedor dos genes herdados com muito esmero de geração em geração num venerável tronco genealógico, jamais rejeitado por fidelidade aos antepassados históricos, que Deus tenha em boa guarda!
        Só depois acabei o curso de Filologia Germânica, e por intermédio dessa autêntica arte que era fazer uso de cunhas influentes, habilidades e astúcias que simplificavam todos trâmites de concursos a que fingida e supostamente me teria de sujeitar para ser merecedor dos melhores empregos, passei logo a gerente de Hotéis, com uma vida muito facilitada, atribuindo-se-me a tarefa de cumprir as ordens e as directrizes de que ficaria incumbido, não facilitando um pinchavelho quanto à organização e eficiência destes serviços, não descurando o bom gosto, nem a gestão de boas maneiras e simpatias proporcionadas aos clientes, especialmente aos turistas e homens de negócio provindos de Inglaterra, que eram o grosso da coluna da nossa clientela de elite na Capital.
        Decepções tive-as sucessiva e consecutivamente depois de casado.  Antes disso, decepcionado, comigo, só duas vezes como vos contei: a do meu curso predilecto e a da quase fatal doença venérea trazida da Guiné. Depois de casado, efectivamente, decepções foram o que mais que houve. Caber-me-ia o azar (neste campo, de facto, Deus não ajudou muito à minha salvação, antes pelo contrário), de ser exactamente na altura em que as mulheres começaram a reivindicar a igualdade. Se aos homens coube a tarefa ingente de iniciaram a reivindicação da sua individualidade na época de sessenta, o seu direito à diferença, e a necessidade da libertação do sexo, elas reivindicariam a sua liberdade vinte anos depois, mas já na década de sessenta, muito mais na de setenta, elas travariam a luta pela igualdade e pela libertação de tabus, preconceitos e concepções de amor opressores. E isto tinha uma lógica divinamente natural, é que se os homens queriam ter direito à libertinagem, só poderiam a ela ter direito, se elas se tornassem mulheres libertinas. Olha que dedução inteligente, valha-me Deus, que parece que até andávamos todos cegos e sem medir as consequências dos nosso actos! Elas vinham educadas então noutras bases de relações, e, neste caso, numa sonhada relação de diferença em relação à mãe, pois que esta queixava-se na maior parte das vezes por silêncios insuspeitados de ter saído duma clausura, a ditadura dos pais, para outra prisão, a ditadura do marido. Umas vezes exprimiam só um queixume, outras uns suspiros de tédio e de amargura. Mas as mães, esposas e profissionais da geração seguinte, olhavam mais por e para si. Miravam-se mais ao espelho. Escolhiam os maridos entre os jovens que lhes pareciam candidatos a homens de sucesso social ou empresarial, os que lhes proporcionariam o desafogo económico que as guindariam ao jet-set sonhado, status ansiado especialmente pelas que eram mais belas e perfeitas, e uma ou outra menos esbelta com aspirações a tal, impondo-se outrossim (que não enganavam ninguém, embora o julgassem) pela riqueza angariada pelos seus pais ou pela situação de sólidas herdeiras. Queriam no fundo sair da cepa torta em que as suas progenitoras estavam mergulhadas por causa duma cultura oficializada em termos unicamente machistas, afirmavam elas. Elas estudavam nesses tempos de ambígua memória, para serem independentes e úteis à sociedade, e para além de não saberem cozinhar nem lidar com os afazeres da casa, reivindicavam o seu canto próprio. O casamento era para elas um lugar idealizado por elas para si, exigindo do marido a fartura de bens, os cuidados e desvelos do servilismo masculino num altar de rainhas com poltrona, e exigiam o sucesso conjugal alicerçado na competitividade, na ternura humana dos apaixonados enlouquecidos e perenes... impunham em suma a fidelidade supracanina, mesmo a contragosto.
        Ou... será que na encruzilhada escolhi o pior caminho, o melhor era não casar, que as condições não interessavam para selar uniões. E porque não?... podia muito bem tê-lo feito. Teria sido o melhor, até para ela. Porém, como não estava dentro dos usos e costumes da nossa terra, fui levado pela tradição obsoleta na interpretação dos jovens dos bons novos tempos, os de então.
     

    2

    - mas como foi possível ocultares-me a verdade que conhecias melhor do que toda a gente?
    perguntei indignado, a voz irada, pois não acreditava que pudesse haver entre nós congeminações ocultas, baseadas no ludíbrio. No fundo, estava perante uma constatação, tão evidente como o Sol nascer todos os dias a Oriente e morrer no Ocidente, julgando nós... imaginando-o a amar a terra quando pela  força generatriz da sua fecunda energia, explosiva e generosa, as sementes germinam, os botões abrem-se em flor, as flores resplandecem, são polinizadas e frutificam, e os grãos dos frutos apodrecidos caem gerando novas plantas e árvores, duas mulheres ocultavam-me a verdade, uma dizendo que nunca me traiu, e outra, que se dizia verdadeiramente apaixonada, era capaz, por razões narcísicas, de me ocultar a verdade.
    - toda a gente sabia, foste o último a saber, comentava-se nas tuas costas... o corno, lá diz a sabedora boca popular, é sempre o último a saber
    e sorriu... e então eu concluí
    - não posso acreditar no que estou a ouvir

        Aquela mulher que conheci e que foi a minha adoração durante meses, um ano depois do matrimónio, passou de apaixonada para a mãe da fonte das minhas preocupações obsessivas, até então inimagináveis e imprevistas. Para seu regalo e para minha desgraça, ela era parecida no corpo com a Rita Hayworth, a minha paixão dos sonhos de adolescente, e na cabeça e postura com a Faye Dunway. Nunca gostei da rechonchudinha Marilyn  Monroe, era toda melada e fingida, até na voz arrastada de cana rachada. Mas a falta devia ser minha porque os soldados na guerra onde me desgastei ingloriamente, adoravam-na e punham-na quase nua colada nos cacifes do guarda-roupa ou no topo dos beliches colada à parede, para onde olhavam antes de adormecer com olhos concupiscentes e as mãos bombeantes sob o lençol, esquecendo-se do sacrificado crucifixo preso por fios ou arames à cabeceira.
        Na exemplar imitação da sua mãe, julgou que o casamento era a instituição social que a libertaria para a concretização de todos os seus desejos e ambições, frustrados até então, e que iria ser uma autêntica cortesã,  admirada pela elite social da ribalta.
        A grande preocupação destas novas esposas era viver felizes para sempre, naquele enlevo de alma puro e cego, idealizado e sonhado da Cinderela de sapatinho, sapatilha e chinela, e de todas as estórias dos romances cor-de-rosa, os que se vendem aos milhares de milhões num só dia, com final impecável e invariavelmente feliz, onde não faltava o muito e apaixonado amor durante o percurso da vida matrimonial, embora com todas aquelas trapaças odiosas e transitórias de mulheres traiçoeiras que a certa altura pretendem, sem resultado vitorioso, roubar o marido à melhor amiga, e a juntar a tudo isto era fundamentalmente suposto, gerar dois ou três filhos... dois de preferência, o terceiro, se o havia, na maior parte das vezes era para aglotinar e cimentar os laços de amor doce e tranquilo com alguns momentos de paixão, na eventualidade de esta surgir esporadicamente num surto irreprimível desse sentimento imperecível... um final feliz com apaziguadoras emoções, reciclado tempos depois, não muito longos, a seguir a outra arremetida amorosa  preocupante por parte da sua melhor confidente, e que punha na berlinda o marido cobiçado e o amor conjugal, esse comum sentimento intrínseco que Platão teorizou tão candidamente, corrigido por Sócrates como a procura da pureza na Beleza, um pouco antes de aquele ser ferrado por uma pérfida abelha deste século e de este ser mordido por um escorpião, ou...
        Uma descoberta salvou as mulheres da humilhação continuada e aos homens deu-lhes a possibilidade de provar com variedade os prazeres da carne fêmea: a pílula contraceptiva viria a resolver o último anseio e endrominava a sua consciência feminina de virgindade, porque mesmo já grávidas enquanto solteiras, na esperança de casarem com peixe graúdo que lhes teria mordido o anzol, consideravam-se totalmente ingénuas e inocentes, até no caso de abortarem por imposição do fecundador refractário (também os havia quiçá menos do que hoje!)... ou logo que outro pretendente se abeirasse e se embeiçasse, mas nunca perdiam o selo de garantia, estas virgens pretendidas e jovens imaculadas, ainda que com ímans genéticos demasiado elásticos, úteros raspados por parteiras carniceiras, sólidas películas genéticas só esgaçadas na sua dureza e elasticidade escandalosa na ocasião da menstruação, para que o sangue manchasse os lençóis no acto da evidente demonstração da inconfortável virgindade. Uma boa parte dos nossos contemporâneos deixou-se ludibriar com estas estórias simplesmente mitológicas, só justificáveis através daquele anexim que garante que o amor é cego e perdoa todos os enganos. Por isso, e sabedoras destes bons velhos costumes e hábitos seculares, as futuras noivas sabiam que estariam perdoadas à partida e não admitiam que se falasse mais nisso durante toda a vida vindoura. Era ponto assente.
        Conheci-a na Faculdade de Letras, onde fomos colegas estudantes, tendo eu cinco anos a mais do que ela, e esta diferença justificava-se por duas reprovações no Ensino Secundário (aquela maldita Matemática decepcionante, ensinada por professores incompetentes), e dois anos e tal de tropa, arrastada por questões plutocráticas de monopólica soberania como vos disse nas campanhas bélicas da África negra. Com um namoro curto de dois meses, uma gravidez indesejada ao quarto mês, redundado em casamento fulminante ao sexto na parte terminal do curso, os nossos primeiros meses de casados, foram iguais a todos os dos nossos contemporâneos, geraram um filho varão (só um que a situação conjugal era periclitante e não admitia facilidades extras), um matulão espadaúdo, um desportista de surf da melhor qualidade, estudante igual aos seus amigos e colegas... revê-se no pai, é o galifão das moças que por aqui circulam com uma curiosidade assolapada de lhe deitar o olho concupiscente em cima e por baixo do canastro, trazem-no e levam-no de carro, e ele lá anda de caravana em caravana a lavar os cestos da vindima ocasional, debicando aqui, chafurdando acolá, pululando nas camas e esteiras que encontra pelo caminho mais à mão de semear. É assim, o meu filho, o Bruno, o Bruno Silva da Gama e Albuquerque, um potencial touro generativo, disposto a não deixar os trofeus por mãos alheias. Mas não engana ninguém, que ele tem o sorriso mais matreiro que se enxerga à face da terra, como o desse depredador de fêmeas chamado Warren Baties, o engatatão mais bonitão que apareceu na sétima arte, deixando todas as fãs a coçar a dura virgindade elástica na refrega contra os fins da vigília.                 Colecciona calcinhas de renda que acaba por surripiar às garinas desprotegidas e confusas depois das sessões polvorosas; já encheu uma gaveta delas; são centenas de todos as cores, formas e feitios, só visto!; e quando visto, dá um tesão de esfregar os tomates em qualquer esquina, à falta de melhor! E vejam bem a ironia do destino - é ele que segue com total rectidão o meu sonho frustrado, o de Economista! Quanto a namoros, eu disse-lhe: ó rapaz o melhor que há no mundo são as uniões de facto, com muito jeitinho (pílula obrigatória à mão, a do dia seguinte), que é para não criares prole e cadilhos, a não ser quando tiveres a certeza, mas uma certeza inconfundível, vinda do mais profundo do teu ser e pensar com a cabeça de cima, porque a genética nunca merece confiança, uma certeza insuspeita nos mais imperceptíveis indícios e ínfimos pormenores, de que acertaste mesmo na muche ao escolheres a tua parceira e futura companhia (aquela certeza dentro duma lógica de dedução, que, com alguma margem de erro, não engana ninguém), porém quando qualquer dúvida te ocorra, salta da carroça, uma vida são tantos anos, todavia tão poucos se os avaliarmos numa visão retrospectiva, no género duma regressão vídeo a alta velocidade, que é o que acontece na minha idade!... e não se pode desperdiçar um só que seja! mas não te distraias em demasia nem relaxes depois dos trinta, ó Bruno, porque continuar o nome é vital no seu tempo próprio, e não há nenhuma mulher que o não deseje, faz parte da natureza... contudo, nunca te esqueças, esta é uma máxima fundamental, vital mesmo, esta que te digo: as pessoas nunca mudam, aquilo que são, são... são permanentemente iguais até ao fim! A regeneração é uma treta, a mudança de carácter é a maior trapaça, a mais ilusória de todas, um ludíbrio aliciador no qual caem ridiculamente os ingénuos, os simples, os inocentes, os parvos, em suma!
        A minha mulher não diferia, nem difere muito da generalidade das minhas contemporâneas. Usava a máscara que todas usam enquanto solteiras, a máscara da bondade e da mansidão, da tolerância e da dependência, da timidez e da virgindade.
    De amável e atenciosa, começou a remoer os meus defeitos, que também ela, assim como eu, desconhecíamos com certeza, passou a ríspida e brusca e distante e indiferente. Tornou-se arredia e repulsiva. Notei-lhe mudanças nas tácticas comportamentais de aproximação e envolvimento, uma predisposição para aceitar desafios que mexessem com e pusessem à prova o nosso relacionamento conjugal, medindo forças para verificar até onde podia ir no distanciamento. Sumariamente, ficava sempre na expectativa das reacções mais íntimas e das exteriores mais facilmente visíveis e ponderáveis. A máscara dela ia caindo aos bocados, dava ensejo a que eu lhe notasse os defeitos do seu rosto e do seu carácter, ambições e azedumes, propensões e desejos. Era um flor a desabrochar que em certos dias, cada vez mais espaçados, cheirava a rosas, noutros a odores nauseabundos.
        De facto, começou a abrir-se, parecia inicialmente que andava a tactear às escuras, a gatinhar como um bébé ao dar os primeiros passos, a saber como e onde pôr o pé para não se desequilibrar e cair... e continuou a desprender-se, a perder a timidez e a deixar-se envolver pelo mundo das atracções emotivas e das tentações desenfreadas até então reprimidas por motivo de uma religiosa educação opressora e de um namoro anterior mal compensado. O seu primeiro namorado não se sentia impelido ao nó matrimonial. Que sorte se me escapou, que boa ventura se perdera! Mas com outra teria sido a mesma coisa provavelmente, que elas andavam todas ao mesmo, de cada vez mais me convenço disso quanto mais avanço na idade.
    Um dia fomos ao Teatro e apareceu por lá um colega de trabalho que a saudou efusivamente, e quando lhe olhei o rosto, ela tinha-o todo corado que nem um tomate, perguntei-lhe quem era, e disse-me apenas: é o Luís, foi meu colega. Mas a razão de tal rubor nunca mo explicou por embaraço evidente. Foi a terceira decepção comigo próprio, ou melhor ela me decepcionava, e eu, por tabela, fiquei decepcionado por tê-la escolhido para minha companheira. As decepções seguintes sucederam-se num ritmo regular sempre que aparecia no horizonte um novo amigo ou conhecido.
        Principiou a aceitar como amigas, as colegas com quem ia travando relações, especialmente as que tinham maridos jeitosos e interessantes, como elas costumam dizer, mas, a meu ver, os apetecíveis. Os meus amigos também eram aceites, e os meus colegas de trabalho, idem aspas. Alguns meses depois, vi a minha casa ser invadida e devassada por um ou outro piçudo, que às vezes me aguardava no seu interior, num sofá, desconhecendo eu o que se passara dentro das quatro paredes até ao meu regresso, sabendo todos eles que eu estava fora ou em trabalho ou satisfazendo compromissos de agenda. Às vezes encontrava-a de robe de seda, um robe cor-de-rosa, que nunca usava na minha presença. Não quis dar muita importância aos factos, mas às tantas quando toda aquela marmanjada me começou a cheirar mal, comecei a enxotá-los, sem saber bem porquê, a recusar convites para convívio, almoços e jantares, de casais que mal sabiam por que é que estavam casados. Comecei a chegar a conclusões mirabolantes: a maior parte desta juventude casa como quem vai a uma Discoteca ou ao Cinema. É um modo de estar mais tempo com a namorada, é uma praxe, eles não estão talhados uns para os outros, não têm projectos comuns, e agarram-se depois a outros casais, ou porque ela gosta do marido da outra, ou ele gosta da esposa do outro. E o esquema é assim: um ver se te avias o mais depressa possível, mesmo que se notem as intenções à vista desarmada, porque a vida é curta, urge usufruí-la, e as fantasias rapidamente obcecam os mais ansiosos. Observei coisas do arco da velha: até um explicando batendo à porta a todo o instante, oferecendo brinquedos ao meu filho, e como era bexigoso que se fartava, um dia apareceu sem borbulhas, cara lisa como seda esticada, a perguntar pela Alicinha, espumando sucos nos cantos da sua boca imberbe, e então pensei, há mouro na costa, esta bodegada tem que acabar. Este puto imaturo se calhar quer é fazer-se pai do meu filho. Deixa que eu tas digo: as explicações acabaram, não chateies mais ó fedelho, vai rondar as entradas de outra freguesia,
    e ele lá foi de rabo entre as pernas, espinhas outra vez a nascer-lhe da barba, que andava a arreliar os pais, com uma burrice de bradar aos céus no referente a estudos,  e a perder tempo e vontade para estudar e fazer-se um homem a sério.
        Só então percebi aquela tirada do Drummond sentimentalão versejando

    João amava Teresa que amava Raimundo
    o que obviamente não era bem o caso nesta ocorrência, mas não é totalmente despropositado.

        A Alicinha não dizia nada, olhava todo aquele País das Maravilhas, querendo descobrir qual era o espaço que lhe estava reservado, e foi então que eu acordei, ai se é isto que se gera depois dum casamento, então também vou pôr a minha habilidade a funcionar, a minha natural propensão para o engate sedutor, uma sedução imanente à prova do que aparecesse na rede, e lá comecei a rondar as mulheres vagas, experimentando os trilhos dos espaços sexuais em aberto com que era surpreendido, e me apareciam depois do convite nas alcovas emprestadas do rapace em que me tornei.
        A Alicinha andava assim entretida num mundo de maravilhas (cada nova experiência devia trazer-lhe uma iluminação extrasensorial fantástica arrebatando para os espaços celestes aquela frágil cabeça oca), exercendo funções docentes, comprando o que de melhor aparecia nas montras, cuidando das unhas e da pele, nunca esquecendo o batom mesmo quando ia para o areal tórrido duma praia escaldante, apanhando o máximo de sol, besuntando-se e besuntando-se para não estragar as células menos pilosas, apresentando-se nas festas de amigos com roupas da mais alta qualidade, corte francês ou italiano a preceito, bem penteada, impecavelmente calçada pelos ricos ditadores da moda, malada com igual estilo, boa parte destas coisas a minhas expensas, cuidando da casa, sendo nela coadjuvada por mulheres-a-dias, pagas por mim, acompanhando a educação do Bruno, estudos que eu pagava, pespegando-se nos cafés todas as tardes com as amigas que nem sei bem que tipo de amizade era aquela, porque quase nada tinham em comum, a não ser conversas de banalidades extremas, de vez em quando eu era surpreendido por  conhecidos em casa à minha espera, sabendo eles que eu não estava, numa continuação de hábitos adquiridos mas não consentidos e acima de tudo censurados, e assim se passaram vinte anos, que nem vos digo nada, uma vida completamente estragada, uma merda de vida, igual a tantas outras, acho eu... eu correndo para o emprego, procurando ganhar o sustento para uma existência cheia de douradas frivolidades, zelando pelos serviços hoteleiros à minha guarda, com o máximo e sempre impecável profissionalismo, tendo que aturar uma ou outra garota atrevida que não me saía, durante algum tempo, do encalço por mais voltas que eu desse, pespegando-lhe normalmente uma faena desse género artístico com que os toureiros fazem para ludibriar os touros, neste caso, salvo seja (que estou a ser um bocado reles, porque estou ferido de corno e demasiado linguareiro, mas isto assim dito não é com intenções malévolas),  neste caso, salvo seja, uma finta para driblar as vitelinhas despertas para os desejos e as fantasias que lhes carcomiam as entranhas véneras, e as punham loucas e insaciáveis, e o pior de tudo é que não despegavam nem por nada deste mundo, umas autênticas carraças fornicadoras, brindando-me com requebros e regalos tão fantásticos durante tanto tempo que cheguei a pensar que elas tinham sempre medo de morrer no dia seguinte. De facto, esta actividade, ainda não vos disse, proporciona o conhecimento de muitas marmanjas, aparecidas nos Hotéis e Restaurantes para pôr à prova os seus apetites sexuais e gastrointestinais, noutras palavras: a gula sexual ou o amor pantagruélico, mostrando e exibindo aos gulosos, aos gourmands, as suas potencialidades obscuras, as suas capacidades de surpreender os tansos e os mais avisados, e não era difícil deitar a mão a estas aves de arribação! Assim, depois de as deixar poisar no galinheiro e de lhes saltar para a espinha, tinha mesmo que me perder na reinação lasciva e luxuriosa durante algum tempo, senão nem era de homem nem era nada.

        Um dia fomos à praia com um casal amigo, e eu estirava-me ao sol, sem nada para dizer a todos eles, farto de tagarelices, quando reparei que a conversa fiada os absorvia de tal modo que os filhos (o outro também tinha um filho, mais marado do que o nosso) andavam a bracejar no mar quase afogados, pois que já se debatiam contra as ondas não conseguindo respirar, e lá fui eu a correr salvá-los... Nenhum dos três se levantou, tal era a intensidade e o enlevo em que a tagarelice tinha caído. Mas, como é possível vocês perderem a noção da responsabilidade do que vos envolve, especialmente dos filhos, disse eu... respondeu a minha querida mulher: ah, é assim... nem demos conta. E continuaram sentados na areia embevecidos em coisas de lana caprina que me enfastiavam e carregavam de nojo. Quando chegou a ocasião de alugarmos quartos, ficou-se num impasse tremendo, havia um quarto bom e um quarto mais pequeno. Ninguém resolvia nada, pois então dormimos todos numa cama, disse eu para os experimentar aos três, está bem, disse o outro marido, a Alicinha manteve-se calada que nem um rato, vão-se todos lixar, emendei, eu quero um quarto só para mim. Deitámos sortes à escolha e coube-nos um deles, já nem me lembro se foi o melhor se o pior. Quando nos deitámos a minha adorada esposa pôs de permeio o filho a dormir,  exactamente entre mim e ela,  para que não houvesse tentações liberais ou ataque sexual de surpresa; havia sido um dia fantástico para ela, impedido para mim de ser coroado de amor no fim de todo aquele sacrifício esforçado: aturar o banal trilogia ou esta santíssima trindade não me agradara nada, dado que o amor conjugal e a sua prática estariam por parte dela fora do contexto circunstancial e do encantamento psíquico, criados pelo dia fora em convívio, que ela gozou bestialmente e para mim foi um frete de todo o tamanho, e eu merecia (estava e estou convicto), uma recompensa generosa... nem é bom continuar a contar! Seria mais um sacrifício pungente!
        Nos dias seguintes, o marido da amiga fartava-se de nos convidar para novas saídas em conjunto, mas esbarrava com a minha recusa: vai tu, ó Alicinha, vai tu, acompanha-os se tens prazer nisso, eu não quero nada com eles, mas ela não foi, ela queria conservar-me apesar de tudo... mas eu sentia uma enorme vontade de que ela fosse, precisava mesmo desse pretexto vital para optar em conformidade, mas infelizmente, não foi, recusou, ponderou segundo as suas conveniências, pois era mais certo do que dois mais dois serem quatro, que quando voltasse ficaria para sempre sem a companhia do César, seu marido ao dependuro, seria definitivamente a última vez que voltava... porém ela decerto também tinha essa certeza, pois não era uma tola varrida e era, sempre a julguei, sobretudo perspicaz;  em qualquer encruzilhada optaria pelo caminho mais certo e mais cómodo.
        Pus-me de atalaia, ele rondava a minha casa, ele notou que eu o observava e redobrou de cuidados. Pouco tempo depois, a Alicinha foi ao cabeleireiro, e perdeu-se nas horas, eu saí, reagindo à desfeita, e fui almoçar com um colega e só a voltei horas tardias da noite. Se voltares a fazer isto, separo-me, disse a Alicinha, eu é que me divorcio se voltares a perder uma manhã e uma ou duas horas da tarde, nem nunca cheguei a saber quantas (para não dar muita confiança), no cabeleireiro, pois não acredito que tenhas estado lá todo esse tempo. Foi no cabeleireiro, sim senhor, telefona se quiseres. Não, não telefono, não quero chegar a tamanha humilhação, ficas a saber que é a última vez. E ficou por aqui a discussão. Azedume e amargura, mais outra decepção aviltante me trespassou a garganta, o coração. Nessa altura eu tive a sensação que definitivamente tinha errado no casamento, não era necessário mais explicações, a continuar deste modo toda a relação teria de meter mais pessoas que preenchessem um vazio dentro do peito, e fosse o que Deus quisesse... até quando quisesse.
    Lembrei-me então do verso seguinte do sentimentalão Drummond

    Que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
    amores sempre à procura de outro amor... amores, que não encontravam encruzilhadas, mas eram resolvidos pelo poeta em zig-zag.

        Os nossos fins-de-semana eram monótonos de estarrecer! À Sexta-feira havia divergência e crítica azeda, ao Sábado havia discussão e faltas verbais de respeito, ao Domingo havia impropérios e imprecações violentas de toda a ordem... era de enlouquecer!
        As férias eram gozadas pelas areias quentes do Algarve, pelas praias apinhadas de veraneantes do Sul de Espanha e pela águas tépidas de França. Se íamos, ao começá-las, com vontade de fazer as pazes, aproveitando assim o ambiente de súbita acalmia, à espera de um acerto de contas, de uma paz acordada na prossecução de tantas guerras caseiras, desiludam-se os cépticos e sobretudo os mais categóricos em naturais reconciliações conjugais... vínhamos pior que estragados, trombudos, chateados que nem perus, ansiosos por voltar à doce rotina da vida familiar, atreita a azedumes amaldiçoados e imprecações de toda a espécie, reconhecidos a toda a hora, e de atirar pela borda fora, mas felizes também, eu por voltar aos hábitos honrosos de cumprir as minhas obrigações profissionais com zelo e competência extremamente responsáveis, e, nos intervalos, praticar os actos mais ordinários, os empolgantes, que eram os de trucidar mais uma lambisgóia apetitosa e ardente, e, quanto a ela, certamente alegre e feliz, por trazer mais um conhecido para casa, onde o recebia de robe cor-de-rosa, esperando por mim, mesmo sabendo que eu estava ausente na ocasião da ocorrência. Abençoada a condição, esta de cônjuges destinados ao casamento feliz, com amor de permeio sempre que a ele houvesse lugar! Houve um período de tempo, que chegada a Sexta-feira eu fazia a trouxa e metia-me a caminho com as amantes maneirinhas da ocasião, e só vinha no Domingo à noite, de barriga cheia e as partes genitais serenadas, todo refastelado, e nem sequer dizia para onde fora, dado que não teria valido a pena dizer fosse o que fosse, pois estávamos bem sintonizados em relação à estupidez a que a nossa relação tinha chegado. Sem ponta por onde se lhe pegasse. Ela não valia, isso é mesmo verdade, a ponta de um corno.
    Ano após ano, invariavelmente, chutando uma bola que se consumia em polvorosa mediocridade, arrastámos a carga de um casamento moribundo, encorajando (talvez fosse isto a única coisa que nos unia) um filho a ser o mais educado entre os conhecidos, frequentador do Colégio da Opus-Dei mais reputado da Região, o mais desportista entre os desportistas, o mais aplicado entre os colegas, o mais insubmisso às regras estabelecidas e destinadas ao secular matrimónio feliz.
    E foi assim, pois então, que num dia conclusivo em que fazia sol, o sol mais esplendoroso que já me foi dado admirar nestes cinquenta e um anos de idade, numa tarde amena e doce, que faziam vibrar todos os sentidos e humedecer e coçar as partes mais pilosas, foi assim que a meio da tarde me desloquei, imprevistamente, a minha casa e sem fazer qualquer alarido, desloquei-me ao salão, e quem encontrei eu em cima da trouxa da Alicinha? O Luís, o colega de trabalho, lembram-se do Luís?, aquele que a fez corar quando por ela passou e efusivamente a cumprimentou no Teatro. O Luís, de calças descidas até ao joelho, e ela desnudada por cima do enigmático robe de seda cor-de-rosa, nunca usado na minha presença. Entraram em pânico e eu apenas disse: ora, cá temos a confirmação de toda a trapaça, da mentira em que andei mergulhado todos estes anos... até que enfim, vi-me livre de um fardo que me ia pondo maluco, cada vez mais, ano após ano... ponham-se na rua, seus adúlteros, desavergonhados, nunca mais vos quero ver à minha frente!
    E saí de casa, vociferando: quando eu chegar quero a casa sem esta puta farsante e este porco imundo.
    Demorei, dei tempo a que ela retirasse o máximo dos seus haveres. Ela assim fez, acarretou as suas jóias e roupas, sapatos e malas, objectos de estimação,  ocupantes da maior parte da casa. Os melhores objectos, comprados por mim, tinham sido levados. E deixou um bilhete: « César, quando estiveres calmo quero falar contigo, há contas a fazer, há que falar sobre a separação ao nosso filho para que ele dê a sua opinião sobre o seu futuro. Vou para o meu apartamento. Não me leves a mal o sucedido, aconteceu o que é natural que tivesse acontecido. »
    Mas que apartamento? Ela não tinha nenhum apartamento. Só mais tarde, algumas semanas depois, percebi, comprara-o há um mês atrás.
        O nosso filho continuou comigo. Vê a mãe aos fins-de-semana de fugida, que ele é um desportista dos melhores, até se levanta antes da aurora para surfar!, e tem pouco tempo obviamente, assim como é, para a família.
    No momento em que vos narro a minha estória exemplar, meses depois do sucedido, a Alicinha ainda anda a dá-lo em práticas vergonhosas e goza as doçuras do amor clandestino com o Luís, às escondidas da mulher deste. Nem ele, nem ela deverão querer outra coisa, que é para todos andarem numa estabilidade emocional digna do século e à prova de qualquer mal-entendido, que aqui não tem cabimento, este século, que agora principia, e que é também para não haver imprevistos incómodos sentimentais daninhos ao amor construído na proibida clandestinidade. E a mulher do Luís andará certamente, na lógica dos tempos que correm, também a dar as suas ardentes facadinhas pipilantes com algum conhecido ou amigo seu, dentro de algum esquema quase perfeito, e dentro do modo que lhes seja mais favorável e secreto. Habituar-se-ão todos à situação da alegre e trivial farsa bem urdida, e contentar-se-ão com as delícias do secretismo e com os gozos do ludíbrio, além obviamente dos momentos de luxúria e êxtase que os une e unirá até morrer.
        Mas não vos disse ainda o pior! Uma semana depois de ter saído de casa, recebi um extracto da conta bancária da Alicinha e ela tinha um saldo muito baixo, mas quando reparei bem nas linhas descobri que tinha levantado uma soma avantajada com um cheque, capaz  de comprar um pequeno andar de luxo na melhor zona. Por isso, me dizia no bilhete deixado, aquando da expulsão, que ia para o seu apartamento. E eu, o trouxa que fui, acreditando no que me garantia a pés juntos, que andava sempre tesa, que gastava todo o dinheiro em comida (mas que comida!), lá fui pagando todas as contas, as prestações da vivenda que comprámos, os carros, pneus, revisões, consertos frequentes do motor e da carroçaria depois dos acidentais mais ou menos trimestrais, almoços e jantares fora, festas principescas a homenagear acontecimentos frívolos e partilhadas com os amigos, telefones, gás que alimentava o aquecimento central da vivenda, sempre bem climatizada, reparações periódicas em todo o imóvel, jardim e logradouros, electrodomésticos, férias gozadas em paraísos e bons hotéis, roupas da mais fina qualidade, casacos de pele e jóias, estudos caríssimos do Bruno, carros e motas, mesadas substanciais.
    De facto, eu andei sempre desconfiado, até julguei a certa altura que ela deveria andar a ser chulada por alguém ou pagando algum resgate desses que os vigaristas engendram para não revelarem os segredos comprometedores escandalosos de mulheres adúlteras, mas, queridos receptores desta estória exemplar, era uma conta bancária em nome pessoal individual em nome da Alicinha, engordada, como agora se conclui, todos os anos!... fiquei abismado, vejam bem, queria ficar calçada quando terminasse o casamento, e poder refugiar-se em algum lugar dignamente! Já que o não conseguira durante os anos em que viveu refastelada! Afinal o chulado, fui eu, César da Gama e Albuquerque, o seu marido cornudo!
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    - mas, então, se estás apaixonada porque não denunciaste a situação conhecida por todos menos por mim, da minha mulher ter um amante? Pressupunha-se que fosses a primeira a revelar-me esta humilhação
    - mas revelar o facto era o que eu não queria, e fico apreensiva agora que descobriste tudo... o que eu queria era que fosses meu amante até à morte. Casada estou eu, e a situação tal como a que temos mantido agrada-me plenamente, não quero trocá-la pela incerteza duma relação a dois que pode não agradar a nenhum de nós
    e dito isto, ali fiquei vazio, absorto, a olhar para nenhum lugar...  exclamei às tantas
    - mas eu vou divorciar-me e a nossa relação é capaz de sofrer consequências desestabilizadoras e sequelas imprevistas criadas pela nova situação
    - talvez não... vamos ver, deixa-me pensar

        Encontrei pela primeira vez a mulher que seria, semanas depois, a minha amante, num baile de máscaras, em casa de amigos comuns cinco anos antes do meu divórcio. Não há lugar melhor do que um baile de máscaras para as descobertas mais sensacionais, porque estas mostram o verdadeiro rosto que esconde o menos real e o mais aparente. A Jaqueline, de origem francesa, era esposa de um arquitecto, o José Maria Menezes, que exercia a profissão numa empresa de construção, na qualidade de sócio com quota, e ora ganhava muito dinheiro, ora andava a braços com as finanças caseiras. Ela casara muito cedo, vinte e poucos anos, pois não havia nenhum homem que não a desejasse levar ao altar, e, ele era um bom partido, segundo os conceitos e juízos burgueses da época. Por isso foi tudo muito natural. Ele era um homem comedido, trabalhador, sofredor, educado na tradição católica que ensina aos seus a encontrarem o céu pelo sofrimento e pela resignação. Só que tinha um defeito, não ligava grande coisa ao ambiente familiar, de acordo com a tradição vigente, antes achava que depois do trabalho lhe estava destinado um sofá, um jornal, uma televisão e algum trabalho extra que trazia na pasta para executar durante as horas em que o amor se pratica e o sono extingue a fadiga. É certo que às vezes chegava a cheirar a álcool e a suores de fêmea, mas isso até era tolerável, não era caso para divórcio, fazia parte dos costumes... tomei conhecimento de todo este quadro mais tarde quando a Jaqueline era a minha parceira de tardes fervilhando ambos num colchão de suma-à-uma.
        A Jaqueline era linda de fartar o olho, ao qual esta se apegava dia e noite para nunca mais se esquecer, tinha o rosto da Brigitte Bardot, o corpo da Elisabeth Taylor , a cintura da Rita Hayword, as mãos da Branca de Neve e os pés duma gueixa chinesa. No meio da confusão carnavalesca, nessa noite venturosa, mais que todas, de festejo carnavalesco em casa de amigos de fachada, tropecei nela, e ela dirigiu-me uma largo e atraente sorriso que me encantou. Depois da muitas desculpas, atrevi-me a perguntar se era possível falar com ela no dia seguinte para lhe pedir algumas informações sobre o casal anfitrião; um pretexto mal amanhado, surgido à última hora, que não enganaria ninguém quanto ao seu propósito, mas, enfim, foi o que se pôde arranjar naquele momento para não perder a ocasião de reatar o contacto, que não se podia perder de modo nenhum e especialmente aquele que foi considerado como um primeiro grande amor à primeira vista desarmada, igual a esses que só se vêem com muita evidência e uma fulguração comovida no Cinema ou nas Telenovelas. Deu-me no fim do baile num local meio escondido da saída para ninguém topar, um papel com seu número de telefone e o nome, com uma anotação: 14h30. Mal a conhecia, porém fiquei preso para sempre àquele sorriso todo aberto e solícito, ao seu pestanejar sedutor carente de afecto, e ao gozo da companhia traduzido por um insondável e muito pessoal trejeito dos seus lábios carnudos bem desenhados.
        No dia seguinte telefonei e marquei um encontro num Café da Baixa, e foi então que a conheci verdadeiramente, pois que se me apresentou  com uma blusa justa e generosamente decotada, uma mini-saia que mal cobria as suas roliças ancas bem acima do joelho, corpo onde não passava despercebida uma ansiedade nervosa de responder ao que lhe viesse a ser perguntado, um embevecimento no olhar, uma mão carinhosa que se colava no meu pulso.
        Conversa puxa conversa, passou-se em revista o casal dos anfitriões, um desses que gosta de agradar aos amigos proporcionando no seu salão de festas as mais variadas brincadeiras inofensivas de adultos (potenciais ou experimentados adúlteros), passagens de ano, carnavais, festas da terra em homenagem aos santos padroeiros, aniversários. Não se notava nela nenhuma queixa, nenhuma crítica negativa a respeito do casal.
        Marcámos novo encontro para a semana seguinte. Falámos de coisas triviais, ou acerca do tempo, ou dos gostos pessoais, das notícias do dia, dos prazeres da mesa, dos locais paradisíacos, dos livros preferidos e fomos na semana seguinte ao Cinema. Aí sentados lado a lado, a mão que encontra a outra mão, um aperto mais forte, uma carícia, um  beijo como selo de irreprimível ansiedade trémula, numa missiva que nos remetia para um quarto alugado à última hora para nunca mais perdermos o vício de futuros encontros.
        Jaqueline tinha uma filha, a Inocência, rapariga bela que saía à mãe, sua parecida em tudo até na ternura. Era linda esta jovem de faces ligeiramente coradas. Por ser tão protegida pela mãe, não se dava muito bem com ela, porque queria a sua independência e o seu direito à diferença. Além de tudo, já não era uma criança, e não perdoava a constante intromissão da mãe nos estudos e na sua vida privada; porque já a tinha e restava-lhe  actuar às escondidas para não ser repreendida com aquelas palavras amargas de serem ouvidas e que enxotam toda a gente, até os filhos.
        A idade da Jaqueline distava da minha dez anos a menos, mas notavam-se, por indícios, os imensos cuidados com sua aparência, parecendo até mais nova uns cinco anos do que aqueles que realmente carregava. Era estilista de profissão, empregada numa das melhores agências do género na Capital. Era simpática, acolhia bem uma nova parceria, falava como um papagaio, tinha um humor fora do comum que me fazia rir e rir até me convulsionar as entranhas genéticas, era doce e suave como as papoilas do meu jardim, liquefazia-se em requebros quando a beijava. Algumas semanas após tê-la conhecido, eu já não queria outra coisa senão estar com ela, tê-la sempre ao meu lado, tocar-lhe, apalpá-la, massajá-la em qualquer sítio, no carro, no escritório, num quarto alugado ou emprestado, no convívio episódico de um fim-de-semana por terras de Espanha, ou por aldeias isoladas deste Portugal ameno e aprazível.
        A sua presença enchia-me duma alma nova, queria tê-la até ao limite do impossível dentro e fora de mim, amá-la até à morte, e as despedidas soavam a tristeza e ansiedade; a cada adeus, ficava desejoso de a encontrar o mais rapidamente possível. Até que o inevitável, aconteceu.... Começámos a ser observados, e a pensar que todos os que nos olhavam estavam a saber mais do que nós, acerca de nós; embora fosse pura ilusão psicológica, reverter-se-ia este novo estado num verdadeiro tormento para nós, então tornados cúmplices duma relação duplamente adúltera, e por essa ocasião refreámos os nossos desejos de nos encontrarmos em público, e reservámos o nosso convívio para o local onde conseguíamos ter mais prazer. Era esse, a alcova de todos os êxtases terrenos e divinos.
        A minha mulher em casa afadigava-se nas canseiras da preparação de aulas, na gestão de roupas e comidas, na gestão dos conhecidos e amigos, que queriam falar comigo, quando na realidade sabiam que eu não estaria presente senão algumas horas depois. Ela lá os receberia de robe cor-de-rosa e esperaria até que eu chegasse. Alegre e normalmente, ora perdia tardes inteiras no cabeleireiro, ora em compras, ora na modista. E eu curtia o melhor e maior amor deste mundo, combinando mais umas saídas com a mulher da minha vida, a mais amorosa que conhecera até então, tão terna, tão ansiosa até ao momento da posse, tão vibrante em cima dos lençóis que por vezes ficavam rasgados pela impetuosidade e violência dos orgasmos que deflagravam com a potência dos terramotos mais loucos, numa explosão de alegria gritante que nos ensurdecia e deixava nulos e exaustos, como lagartos dormindo uma sesta estrelada que acabava antes do tempo idealizado. Quando acordávamos no interior da mãe de todas as pazes, brincávamos a contar anedotas ridículas, dizíamos os maiores disparates, ríamos como loucos, éramos sem exagero duas crianças renascidas chupando os resquícios de uma sombra no interior duma tenda sobre o deserto, rodeada de intensa escuridão ponteada de estrelas, noite mal dormida, prenhe de plenitude.
    - tenho medo de te perder, tenho medo que um dia encontres outra e me troques
    - eu é que tenho medo que um dia sejas atraída por alguém por quem te apaixones e me deixes
    - não de deixarei... quero que sejas meu amante até morrer
    - isso, também eu
    isso era o estado de enlevo, de empolgamento, de arrebatamento, de glorificação do amor, que experimentávamos sempre que nos encontrávamos em algum quarto mais sigiloso, mais propício ao disfarce e ocultação da nossa situação de amantes fugidios.
    - se um dia me deixares, ficarei paranóica,  já andei assim há uns tempos quando o meu marido se desinteressou por mim, eu morro, não sei como me aguentarei muito tempo sem ti
    - não te deixarei, espero bem é que não seja eu o rejeitado
    quando uma amiga da Jaqueline lhe emprestou uma casa de praia, que tinha herdado por morte do marido, então é que foi garimpar em cima de todos aqueles móveis, de toda aquela louça do quarto de banho, grandes tardinhas de Jakouzi com todos aqueles esguichos massajadores que causavam os maiores arrepios de estremecer a espinhal-medula. Foram belos esses momentos, excitantes, calorosos, tempos de perdição!
    - era nesta casa que a minha amiga dava as suas facadinhas no matrimónio quando o marido andava pelas arábias e américas. ela falava muito duma modalidade que o marido não gostava, o fellatio e o cunnillingus
    - como tu gostas e ao teu marido lhe repugna essa prática sexual, comecemos por aí que no amor tudo é permitido a quem a ele se rende sem complexos, preconceitos ou tabus
    - não, assim não, comecemos por onde nos der mais prazer sem planearmos nada
    - é isso mesmo... sabes mais do que eu nas artes do amor!
    - enganas-me, sabes mais
    elogio para aqui, lisonja para acolá, técnicas adquiridas, postas em evidência, para cima, fantasias novas invertidas para baixo, posições criativas do lado esquerdo, repetidos e longos êxtases posicionados à direita, convulsivos mergulhos sado-masoquitas por todo o lado, conversas de ocasião só para entreter e divertir e revitalizar as partes murchas para o centro de todas as nervuras genéticas explosivas, afrodisíacos para manter a chama nas forjas dos múltiplos orgasmos, música romântica para predispor o ambiente aos actos de puro amor avassalador, diríamos mesmo, porque verídico, arrasador, assim se passaram alguns meses, até que aconteceu, o que vos narrei sobre a descoberta do caso flagrante de ter visto a Alicinha com aquele farsante em cima dela de calças baixadas até ao joelho, na posição da fornicadela mais badalhoca e repugnante que até hoje foi vista por estes olhos que a terra há-de comer.

    Agora, perdi-me porque andei à procura da versatilidade do seguinte pormenor do Drummond sentimentalão, esse que diz

    Que não amava ninguém
    a Lili, ou a Alicinha, ou eu, ou a Jaqueline, ou o Luís?
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    Sou hoje um homem feliz, completo, cheio de mim. Vivo com a Jaqueline numa união de facto. Sentimo-nos o casal mais feliz deste planeta. Jurámos viver juntos enquanto nos apetecer, fazer o que quisermos sempre que o desejarmos, e contarmos sempre um ao outro, ou preferencialmente ela a mim, a verdade mesmo que doa. Só assim se pode encontrar a felicidade. Mas para chegar a este estado supra, tive de experimentar tudo, o namoro há vinte e tal anos atrás, o casamento que se seguiu, os adultérios pouco depois, e o divórcio ao fim de vinte anos de encruzilhadas de ludíbrio. Foi efectivamente preciso passar por tudo isto para me sentir pleno... e fiz o que podia e devia fazer. Embora tenha pena e desgosto de ter sido compelido a passar por tudo isto que me foi dado experimentar, por todas as experiências decepcionantes e frustrantes, por todas as depressões suadas, arritmias dolorosas de entrar em pânico, contrariedades de enlouquecer, iras, prazeres, misérias verbais, esplendores e luxúria. A vida foi uma Escola para a qual não estava preparado, mas ensinou-me tudo o que para mim se encaixava como uma luva. Os dez anos que me faltam para ser sexagenário, vão ser com certeza os dez que valerão cem, se tudo correr conforme está idealizado. Mas se assim não for, logo se há-de ver, alguma coisa se conseguirá arranjar para dar a volta por cima a este cativeiro delicioso, revertido num jogo emocionante que infelizmente, como disse um amigo desconhecido (o Manuel Jorge Marmelo), não está acompanhado por um manual de instruções ou regras de utilização e senventia, infelizmente, porque faria muito jeito e resolveria a maior parte dos problemas... é uma pena! homem sofre! e a mulher também! Ou...
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        Desfeito o casamento, divorciados como mandam todos os cânones dos casamentos gerados e desenvolvidos no ludíbrio, pedi de joelhos à Jaqueline para vir viver comigo. Ela pensou, pensou de caraças, andou a imaginar coisas que decerto nunca terá a coragem de me dizer, mas ao fim de três meses, disse
    - está bem, temos de ser apanhados em flagrante na minha casa numa situação comprometedora, e que evidencie a nossa ligação... podes, por exemplo, ser apanhado em trajes menores, comigo nua, na posição do fellatio... ele vai então compreender a sua falta do que me fazia falta, e não ficará tão rancoroso como sermos apanhados um sobre o outro ou na modalidade canzana...
    - bela ideia, um pouco maluca não há dúvida, mas imaginativa e capaz de ser a ideal... tenho de ir armado, todavia, não vá o diabo tecê-las
    - não, não vás, ele não é violento, o mais que pode é dar murros e atirar objectos ao ar ou contra nós, mas só isso... ele é dos que mete o rabo entre as pernas... é manso, muito manso, acredita
    e tudo aconteceu conforme a Jaqueline estudara, planeara e previra... hora tardia dentro das previsões, filha a participar e a partilhar na maior o gozo do aniversário de uma amiga, nós numa posição invertida em cima dum enorme sofá de pele de chibo encarnada, ela nua e eu de calças baixadas até o joelho, o meu tronco nu cheio de pêlo
    e o José Maria a entrar no salão, estarrecido
    olhos esbugalhados, boca aberta que nem uma cloaca dum dragão
    - mas que merda é esta?... ó seus desavergonhados pirem-se desta casa para fora... não vos quero nunca mais ver à minha frente... grandes filhos da puta, cabrões de merda, quando eu voltar, se cá estiverem dou-vos um tiro nos cornos
    e lá foi a Jaqueline directa para minha casa que a aguardava com ansiedade, carregando ambos com as suas roupas, sapatos, jóias e peles, perfumes variados e caríssimos, bibelôs de estimação, objectos valiosíssimos, o filho avisado com antecedência da minha decisão, a filha por avisar, e, a quem o pai se encarregaria decerto, na lógica integral das ocorrências em iguais situações, de contar com alguma omissão dos factos mais humilhantes, dos pormenores mais intrigantes, para, como é perfeitamente natural e evidente, não se mostrar também culpado aos olhos da descendência.
        O José Maria não se incomodou muito com a sua nova situação, poucos meses depois já tinha nova companhia em casa para tratar da filha, que quis ficar a viver com ele, assim era tamanha a aversão que tinha pela mãe repressora, e adoração pelo pai tolerante, duma tolerância como não há nestes dias. Ou serão todos iguais? Parece que sim, desculpem lá o panegeríco da fraqueza! Só vê a mãe de longe a longe e de fugida quando há aniversários e precisa muito de dinheiro para as férias ou para comprar as melhores roupas e sapatos, à imagem de todas as amigas e conhecidas dela que se prezam de o ser.
    Custou bastante esta separação, à Jaqueline, mas lá se convenceu, depois de lhe ter enchido a cabeça de teorias sobre a autonomia responsável das jovens mulheres, pormenorizando que está-lhes reservado o direito de dar tantas cabeçadas dolorosas pelas tentações, pelo orgulho desmedido e pela vaidade fatal, que um dia vão aprender a ser exemplares. Falta, de facto, a todos o manual de utilização das almas e dos corpos no jogo erótico actual sem regras e sem verdades!
    É isso que falta e vai fartando.
        O sentimentalão do Drummond é que devia ter razão nos versos:

    O João amava Teresa que amava Raimundo
    Que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
    Que não amava ninguém
     
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    A minha vida, como estão a entender, teve um final feliz, nem era de esperar outra coisa, por que sou um militante optimista da Avé Maria de Bach ou da Sinfonia do Mundo Novo de Dvorjak, muito embora tivesse de travar uma longa luta contra as decepções e as trapaças, algumas tão ingénuas e cândidas como as que vos contei, dignas do teatro molièriano. Vivemos tempos novos capazes de inverter o mau caminho que as coisas muitas vezes arrepiam por causa das práticas ocultas.
        No entanto, como é próprio da sabedoria popular, não há bela sem senão, nem há bonança sem borrasca... é que, meus queridos leitores, há dias, vi um chato de um divorciado, divertido como nunca encontrei outro igual, colega da minha Jaqueline a rondar-me a casa, a querer sair connosco, a convidar-nos para jantar com a obrigação de ida ao cinema, e ela, coitada (vê-se que está cada vez mais generosa e altruísta), tem muita pena dele, porque ele  é uma desajeitado, um desvalido de alma (as mulheres são tão cruéis que não há nenhuma que quisesse viver ao seu lado, disse-me outro dia), mas é um tipo porreiro, tem um coração de pomba, está sempre pronto a ajudar os mais necessitados, e francamente quando o vejo em casa nas horas em que toda a gente sabe que eu não estou, começo a ficar, como nos velhos e nauseabundos tempos, um tanto ou quanto preocupado! E, se não havia de ficar! Pois que não vá o diabo tecê-las!... Só que, neste momento, estou em desvantagem, sou eu quem não conhece nenhuma divorciada desajeitada e repudiada ou viúva inconsolada, porque se assim não fosse, tudo se comporia; no caso do azar dos azares, como por exemplo vê-lo na situação em que eu estive com as calças baixadas até ao joelho, mas nestes tempos de felicidade única e suprasumo tinha que ser numa posição inusitada, a de sodomia por exemplo (e só me falta este exemplo para completar o quadro da desgraça burlesca), ficaria tudo mais ou menos empatado e sem mossas de maior ou menor significado.
         Se calhar, o melhor é meter ombros à obra, antes que seja tarde...

        Azar ou... sorte, encontrei ao arrumar os livros, ainda ando à procura deles, pois estavam quase todos escondidos pela Alicinha em espaços recônditos (o espaço ocupado anteriormente pelas brochuras tinha dado lugar à sapataria), e encontrei hoje a Antologia Poética de Carlos Drummond de Andrade, e ao abri-la dei de chofre com a poesia espantosa que garante que o primeiro ama a segunda que ama o terceiro, ou ele ama a que ama outro. Fiquei fulminado com o clarão ardente de luz que incidiu sobre as minhas virilhas genéticas dum calor equatorial que só as pretas conseguiriam dissipar, porque habituadas aos tórridos calores em que os coitos fervem a 60º, tal e qual a temperatura da fervura do leite bovino. Todavia, hoje vou dormir na santa paz do senhor... lembrando ao sentimentalão que  a parte final já não se usa, já ninguém vai para os Estados Unidos, nem para o convento, é preciso mesmo muito azar para se morrer de desastre, nem nenhuma mulher fica para tia, nem há homem que se suicide se amar e for amado. Agora elas casam-se todas com quem não entra numa estória. Isto, assim dito, que o Drummond não sabia, nem tão pouco era do seu ou do nosso conhecimento o que fazia a sua respeitável mulher quando ele se encontrava com a jovem amante, não invalida os amores em zig-zag.
        Vendo bem, pensando com a garra dos tempos actuais, o malandro do poeta deve estar ultrapassado ou esquivou-se,  na realidade, quando chegou à encruzilhada
    é que, a certa altura, o João amava a Teresa e a Maria, e a Lili amava o Joaquim e o Raimundo
    e o genial poeta talvez não tivesse descoberto o engano ou o ludíbrio em que o mundo anda ensarilhado,
    ou...
        Isto já é de mais, já vos revelei como a paixão pode ser desviada numa encruzilhada repentina, associando-a aos outros amores em zig-zag. Noutra ocasião, vou-vos contar os momentos e as ocorrências passadas, não há muito tempo, em que amei do coração duas mulheres, e cada uma delas amava apaixonadamente dois homens, amores bifurcados e ramificados em VVV sucessivos até ao infinito, os quais, embora já não sejam muito originais, são outrossim o que mais se vê nestes bons e dulcíssimos tempos que usufruímos ebriamente e temos a sacra-felicidade de saborear!
     
     
     

    Gaia e Mação, Agosto de 01
     

     
     
     

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