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             Confidências duma puta de luxo
 

 
    Vou revelar-vos como se estivesse no confessionário do padre que é muito meu amigo (e vós ides perceber porquê) as peripécias mais interessantes da minha vida deliciosa e proveitosa, nesta escrita a vermelho acastanhado que é para os púdicos mais hipócritas a rejeitarem de imediato, porque pensam que o vermelho é usado para mandar o leitor à merda, mas, como a acastanhei, ela agarrará certamente aqueles que apesar de púdicos acham que andam a ser enganados pelos preconceitos tradicionais e querem evoluir um pouco mais. Não é que pense que eles se vão converter à sabedoria dos que têm uma visão muito ampla do Mundo que nos envolve, mas mesmo assim vão ficar a pensar, e pode ser que este estágio ilustrado (contado com a linguagem que se me calejou na minha esponjosa boca, sempre perfumada por essências balsâmicas de leite anísico e eucalipto beirão) lhes ilumine gradualmente a sua mentalidade própria, igual à dos chamados botas de elástico, ou meias brancas, ou dos famosos mangas de alpaca, os square (men)  como dizem os britânicos... que são muitos, coitados !, esses que têm de viver na servidão das galés, que ainda existem, como seja esta dependência moral a que estão submetidos por causa da sua sobrevivência e dos seus, cheia de reverências, salamaleques e outras escravidões, mesmo que considereis estas hipérboles demasiado ofensivas para a dignidade, os vossos modo e estilo comuns e vulgares de existência na sociedade, de acordo com o entendimento que dela se faz no presente. Dito isto, para pôr os pontos nos iis, ou para precaver os menos avisados, ou para fazer a selecção que se impõe logo à partida, porque isto de ler e escrever também tem o seu quê que se lhe diga, tem de ser e estar bem delimitado, não é à balda tal qual a educação que se dá hoje às criancinhas neste confuso mundo, não é um pronto a vestir que agrada a toda a gente, e ainda bem que é assim senão seríamos todos uns Zés-ninguém, uns camaleões ou uns bananas sem personalidade... dito isto, dizia, passemos aos factos reais que enformam estas fustigantes revelações para maiores de trinta e um anos e uma cultura acima da média, nunca abaixo.
    Eu me apresento aos meus excelentíssimos leitores  ou ouvintes: sou Patrícia de Prazeres e Boavida, um nome que condiz com a pessoa, uma senhora limpíssima, rigorosamente lavada  pelos sabonetes Lux, sempre comprei dos mais caros e recomendados - faço questão em insistir e frisar para que não haja mal entendidos, branca como a neve sem mácula, e perfumada pela Chanel ou pelo Armani (este nome  Armani faz-me uns calafrios inquietantes pela espinal-medula acima), retocada pelos produtos da Lancôme (essa Lancôme impecável que anuncia sempre nas revistas cor-de-rosa, as que eu compro sofregamente), trintona, boazona, seios bem feitos e médios, atraente, mamas bem cheiinhas redondas e especadas, bem feitas na realidade, dois marmelos a apontar para o céu como dois cornos duma cabrita empertigada... sou, está bem de ver como vos digo, um pito atraente, pelas formas e pelo sorriso, um metro e sessenta e sete de altura, olhos grandes e castanhos, apaixonados e misteriosos, dentes duma frescura e brilho de pérola da melhor qualidade, lábios bem salientes, bem desenhados e rasgados e sensuais, cabelo liso castanho, uma cintura muito estreita e ancas largas, iguais às que são apelidadas com muita propriedade de parideiras. Medidas de candidata a Miss universo: 85-59-88, ou quase. Mãos e pés pequenos, sessenta e cinco quilos de peso. Os membros inferiores um pouco arqueados como os parêntesis na sua posição habitual de prender a frase intercalar, se calhar uma deformação derivada das muitas horas em que tive de espremer homens corpulentos e de coice violento no momento do estertor explosivo, só comparável a uma chicolateira de leite a ferver, socorrida prontamente por uma toalha de feltro entre umas mãos ansiosas e solícitas; isso, isso, sim senhor, e por falar em toalha, uma do mesmo género daquelas enroladas que as noviças e internas metem entre as pernas nas camaratas dos colégios quando querem orgasmar-se ao sonhar acordadas com os seus heróis das películas cinematográficas, ou artistas da canção, ou irmãos e pais das amigas, ou dos ricaços da sua terra.  Em suma, e fazendo minhas as palavras dum poeta amigo, sou uma obra prima da natureza, uma elegância ambulante e generosa, um espectáculo deslumbrante nos passeios da rua e uma miríade de bouquets de fragrantes flores quando conduzo com os cabelos louros ao vento (há épocas em que me pinto de louraça, pois claro, está bem de ver: é para impressionar esses machos que ficam gulosos e a salivar pelos dentes esfomeados perseguindo como loucos endiabrados os cabelos louros das nórdicas irresistíveis como primeiro sinal de atracção). E acrescento sem falsa modéstia: sou uma mulher linda, por aquilo que ouço os homens dizer com a boca no coração depois de saciados, e  saborosa, a acreditar no modo como me apreciam depois do banquete nupcial, e será recomendável ajuntar como referência indiscutível de mérito do qual me envaideço: estudos quase universitários, solícita e prendada no engate sedutor e rainha numa cama submetida aos sismos da mais alta intensidade.
    Para os meus espectadores me conhecerem melhor, revelo uma das fontes da minha figura vistosa : centra-se na alimentação, ela é vegetariana, à base de leite de soja, vegetais e leguminosas, uma ou outra vez, uma posta de peixe ; daí a minha aparência fascinante. Quando vou à modista, ela gaba-me que sei lá! Apalpa-me toda, confessa que ainda estou rija para a idade, e já sabe à partida o que fazer para mim, tendo em consideração que sou uma mulher de primoroso engate infalível : mini-saias com a cor e padrão da moda e casacos copiados das revistas que apresentam as colecções da moda mais chique da estação. Nas boutiques compro as blusas generosamente decotadas de seda. Os sapatos que uso são sempre altos e pontiagudos. E finalmente as jóias são-me oferecidas pelos meus clientes podres de ricos.
    Ao expor-me como me vou expor neste momento e neste dia, e faço-o com uma razão muito especial, não por ser dia do meu aniversário neste novo milénio, mas esse enigma não vou desvendar, nem que me peçais de joelhos (mesmo que esta seja a pose de um súbdito a implorar vassalagem, ou uma posição de rendição ou humilhação), vós é que ides descobrir ; mas faço-o com uma dúvida e uma interrogação que são estas: em todas as coisas que fazem parte da nossa constituição físiológica, temos de pôr uma questão - este pormenor físico, anatómico, é médio? acima ou abaixo? Não sei bem o que isto quer dizer, mas certamente quer dizer muita coisa... Tanta, que só depois duma humilhação, espicaçadas ou chicoteadas, quantas vezes sem razão plausível para o caso em apreço, pensamos nisso ! Assim, ler uma frase ou ouvi-la e ficarmos especadas a olhar com ares deslumbrados, com uma intensidade acima ou abaixo da média ! As palavras são às vezes como os cataclismos, os desastres, os ciclones. Destroem qualquer construção mesmo que esta seja mental. Esbarram na nossa face e ficamos inertes, absortas, chocadas, desalentadas. Depois pomo-nos a pensar na absurdidade da vida. É como se fosse a revelação energética da nossa fragilidade, da nossa mediania, da nossa fugacidade, da nossa mediocridade. Aliás o título para a minha biografia devia ser esse mesmo: É médio? Acima ou abaixo? É isto que ensombra a autoconfiança de muita gente, o seu amor-próprio, se assim me for permitido falar...
    Eu sou uma puta, uma puta fina... de luxo. Não gosto muito desta palavra puta mas realmente é o que sou, vendo bem... todavia gosto mais da palavra amante, ardente, impetuosa, sexy, quente, mulher de sangue na guelra, adoradora de sexo, gueixa... gueixa sim, essa é a palavra que se me adapta, porque sei conversar, sei insinuar-me, sei sorrir - aprendi a sorrir com a Marilyn Monroe, a Bette Davis e a Grace Kelly, putas finas, de luxo, como eu, elas mais da alta roda, pois só se atiravam a gajos de muita influência ou de muita massa, mas a Bette Davis essa sim era a mestre das tubaronas em virtude de querer ter sempre uma bomba dentro da sua melrinha.. pois é, tantas imitações fiz à frente do espelho que fiquei a mestrizar o ofício. Com a Marilyn tudo devia ser mais superficial, sem grande empenho próprio, mas a Grace também devia ser cá uma grande gulosa, devia gostar de umas boas bombadas arrebatadas para lhe coçar aquilo que pede para ser fervido com calores de fundir tudo o que precisa de ser amassado por membros ávidos e sôfregos, e só depois de bem esfrangalhado fica quedo como se adormecesse numa longa noite de delícias empolgantes... ressonâncias, visões obcecantes, sensações tão gostosas, que, só de pensar nelas, nos põem hirtos a protuberância da vulva e os picos mamários !
    Há todavia tantas tantas estórias maravilhosas de mulheres que sacralizaram o espectáculo e o gozo sexuais em relevo nos anais da História: olha, aquela da Marquesa de Pompadour, a concubina favorita de Luís XIV, pródiga na alcova rendada, era duma finesse a toda a prova, tinha uma angelical e invejável garganta funda, como poucas no Mundo, a protectora de amantes, uma autêntica e genuína catedrática na Arte da paixão fodilhona, ficando célebres os seus banhos matinais de leites espumantes e sais aromáticos, antes do tratamento à espanhola com que presenteava, ao despertar do sono, o seu Rei e Senhor ; em virtude desta prodigalidade em relação a ele, na França do ano de 1740, o estragado de mimo Luís sentia-se o Homem mais feliz deste Universo. Mas, já antes, nesse admirável antigamente, nos tempos do pujante Império Romano, Cleópatra, nascida em 69, 12 anos Rainha do Egipto, era possuidora de umas  delicadeza e mestria nas lambidelas  e sucções bocais (na linguagem vulgar apelidada: artista no broche), que eram de arrasar toda a humanidade! Foram estas artes divinas que enlouqueceram Júlio César e Marco António, subjugando-os sentimental e emocionalmente, fazendo consequentemente tudo o que queria como única e majestática Rainha do Egipto e dona do Oriente, e ainda lhe sobrava tempo para o resto. Esse resto que as mulheres da nossa sociedade hipocritamente puritanistas não fazem nem sabem fazer, mas adorariam mais fazer por jeito inacto do que saber teoricamente, e só por isso é que andam sempre com enxaquecas do arco da velha, e, se se desprecatarem é de as levar de caixão à cova, nervosas e histéricas, afugentando os maridos com a sua insistente rabugice enfastiante... decerto, desconhecem, pela mais estúpida ignorância, que ficam parecidas com as cadelas ou as porcas com rabugem ; comportamento este  insuportável para maridos viris, o  qual os obriga a pirarem-se para os braços ardentes e relaxantes de mulheres como eu. Só os tolos entram nesse jogo de discussões infindáveis doentias e fatais que os levam a esticar o pernil antes do tempo, e antes delas, que é o que elas querem... ficar viúvas à espera de encontar a felicidade no calor romântico de  outros sonhados varões, experimentando, experimentando aquilo que as obceca: arranjar um príncipe, seu súbdito, que faça tudo o que elas desejam, lhes dê uma vida cor-de-rosa, um herói que seja uma espécie de cão fiel durante o dia com características de gato lascivo à noite e de madrugada. Voltando agora à Supermulher Cleópatra: os seus broches compensaram em muito o seu defeito de apresentar desde a nascença um nariz aquilino, meio judeu. Na realidade,  no dizer de pensador francês Pascal: a não existir esta curva pronunciada que lhe desfeava relativamente o bonito palmo de cara de que era possuidora, ela (a Cleóprata) teria mudado a face do Mundo. Mas, como é sabido: não há bela sem senão... é assim, uma mulher perfeita e artista do sexo pode mudar o rosto do Mundo; só que penso que este é um pensamento tão pascácio, jacobino, pessoalíssimo, muito perigoso, enigmático em demasia, que até hoje nunca vi nenhuma mulher mudar coisa alguma, a não ser as posições de um pénis gulosamente apetecido de murcho para teso... e multipliquemos esta faceta como mais valia: a de acrescentar à conta bancária mais uns bons milhares, que somados dão milhões, assim como ajuntar bens a mais bens; tudo isso, mais mudar a vida própria de remediada para uma outra de Rainha, capaz de imitar os Homens multimilionários, os tais que compram meio Mundo, mas não alteram nada ao mesmo, antes pelo contrário, querem sempre toda a engrenagem a funcionar bem oleada na estrutura anquilosada. Pudera! Logo se vê porquê!... É que não são tolos: mudar seria perder privilégios, mordomias, poder e sedução. Haverá alguém que ainda não tenha percebido isto, ó gente medíocre, igual a mim e diferente de mim,  que povoa distraidamente este obscuro planeta cheio de enigmas e de mistérios, ciosamente guardados?
    Contudo, não sei tocar nenhum instrumento, só (por um jeito labial inato que vós já percebestes qual é) na flauta, se estiver para aí virada, por isso é que estou a um nível inferior à puta chinesa. É certo que já tenho alguns sulcos na face que não escondem a minha condição de trintona, diria sem exagero bem conservada, porque consigo atrair teenagers que me perguntam, logo que lhes dou mais um bocado de confiança... perguntam-me logo a minha idade, mas não tenho a certeza se é só porque querem que eu lhes demonstre as minhas habilidades, dado que eles não aprendem nada com as imaturas catraias, antes, pelo contrário, elas enfadam-nos. Bem conservada, sim, porque disfarço bem as rugas com todos estes cremes lácteos que cobrem regos, sulcos e ranhuras, as empapam, mas depois de secos, estou mesmo recauchutada... Pronta para o engate, seja ele qual e onde for, novos, maduros ou velhos ainda tesos, que se os novos são demasiado sôfregos, inconscientes e inconsistentes, ejaculam sem sequer me aquecer (parecem uns coelhos de foda rapidinha, embora repetida mas sem sabor), há por aí uns quarentões, cinquentões e sexagenários que me fazem gozar como uma gata ou uma cadela ou uma pantera.
    Fui sempre uma puta, uma putinha quando principiei a viver a minha adolescência, como diziam os meus vizinhos, diziam-me: tu és a minha querida putinha.  Mas eles eram uns putos também, eu invectiva-os: vem cá ó meu putinho, vem, vem cá à tua putinha, e eles gostavam, pois não - se não haviam de gostar !, e até adoravam que eu lhes chamasse putinhos, porque realmente eram putos imberbes, e por este facto eu não me importava de ser a putinha de toda a vizinhança, até gostava, em alguma coisa eu teria de ser a melhor da minha rua. Foi assim como vos digo, a putinha mais feliz de todas as redondezas que até as jovens mais velhas e mulheres casadas tinham inveja de mim por eu ser a preferida da ganapada e dessa malta estudante dos arredores, alguns de muito nível, outros uns tesos que não tinham vintém para mandar cantar um cego, não faltando ainda os matulões até  casados que se metiam onde lhes cheirava a coninha fresca e ardente. E os putos traziam amigos, alguns até senhores dos seus trinta anos, e com esses é que eu gozava como uma louca. Punham-me desvairada esses trintões, que me queriam escavar toda até caírem de exaustão. Alguma vingança queriam eles perpetuar, porque me fornicavam como quem estava à espera de encontrar um tesouro no fim e no fundo, e, que lhes trouxesse a felicidade dos marajás, dos xeiques ou dos sultões. Alguns eram casados e esses eram mais ternos, mais amorosos, mais generosos, davam-me mais dinheiro do que eu queria e precisava, para poderem repetir o acto mais vezes, mas só quando lhes apetecia, que é para a vida deles decorrer sem incidentes com as esposas. Os homens são assim uns safados, uns hipócritas, uns traidores. Querem estar sempre de bem com deus e o diabo. Por isso é que gosto deles, porque já os conheço de ginjeira, e às vezes armo-lhes umas ratoeiras que me divertem à brava, como esta de procurar embaraçá-los quando estão com a legítima. Exponho-me, meto conversa com eles, sorrio-me para eles com despudor, e as mulheres ficam fulas como o caraças! Desforram-se a discutir com eles, a lançar as vistas sobre os outros homens para lhes fazerem ciúmes, e a prometerem vingança. Algumas vingam-se mesmo, vão dá-lo a outros para se sentirem emocionalmente realizadas; isso é como elas se desculpam da inveja que o marido lhes faz... depois, preocupam-se tanto com os seus casos extraconjugais que ficam desnorteadas, desordenadas, desconjuntadas ; ficam finalmente um tanto ou quanto malucas pela preocupação diabólica que é gerir as deliciosas facadinhas no matrimónio, e, porque têm medo que o marido venha a saber sem ser pela sua boca, então já farta de fazer o que nunca fez ao legítimo, uma vez que a isso é obrigada no início mas depressa se habitua e passa a adorar e não querer outra coisa como preliminar, de acordo com as artes de bem prender um amante... São umas tolas, porque não se entregam aos legítimos como deve ser. Lá nisso eu sou uma perita, pena é eu ter feito uma caminhada de donzela solitária, pois se tivesse arranjado um único homem, eu dava-lhe era mesmo um tratamento diário à espanhola, que ele nem tinha vontade nenhuma de olhar mais para as outras durante o dia. Mas isso, no fundo, e no fim de contas, é lá com elas e com eles que depois duma discussão ficam mais meigos que nunca, parecem uns cordeiros lambisgóias capazes de chafurdar no mais repugnante lamaçal. É preciso dizer-lhes que se tiverem um pequeno deslize caem na merda. Como aquele que era tão ganancioso por um minete que duma vez deslizou mesmo a língua pelo buraco do cu onde a meteu, causando-me um calafrio frenético pela espinal-medula acima como não há memória, só comparável a uma ida gloriosa aos céus e uma descida adrenalínica aos infernos de toda a exuberância ; embora sugira que outros me repitam o acto, nem todos estão para aí virados... adoro não há dúvida quando me deito com um tanso desses ; aquele, o primeiro, soube-me às mil maravilhas, e deve haver uma razão para tanto gozo: talvez, não tenho a certeza... presumo, será quase pela certa porque se estes dois buracos genitais (não sei se me enganei na qualificação) estão tão próximos um do outro, os dois gozam tanto, tanto um como o outro! Mas isto é revelar-vos coisas a mais, um bocado obscenas, mas que não tem nada de obscenidade, nem são pornográficas, dado que vós já sabeis tudo, não quereis é render-vos à evidência, pois que esta é demasiado incómoda e subversiva, e vós tendes medo de ser mal interpretadas e consideradas debochadas e promíscuas por esta sociedade que só é puritanista na fala para fora, mas pensa, e faz tudo, e só,  o que lhe dá na gana, e para vós, tal como para mim, não há limites quando somos arrebatadas pela chama da paixão sexual, que é tão ceguinha que não vê a porcaria que faz no fim duma noite de sexo intenso e guloso. São restos de comida, nódoas de champanhe ou vinho tinto, licores ou uísques, cinza e beatas de cigarro por todo o lado, manchas de esperma, de vaselina ou de manteiga, e outros fluídos nos lençóis, no colchão, nas almofadas, nos sofás, nas toalhas, nos lenços,  na sanita e no bidé,  em todo o corpo, até no cabelo, pastas húmidas em todos os pêlos, à mistura com saliva e sangue. Até a boca ficar com a cor e o cheiro dum dragão chinês a expelir fogo. Assim é que é ser uma mulher sexy, não é como aquelas que só fazem pose, que põem olhos doces, tímidos, como quem chama por alguma alma caridosa para preencher a lacuna de ternura que vai dentro delas, e depois quando estão na cama parecem um tronco de pinheiro, uma carroça que se tem dificuldade em arrastar, incapazes de serem manejadas e arrebatadas. Ficam depois estas belezas da criação espantadas por não terem orgasmos, uma vez que não fazem nada por isso. Mais valia arranjarem um vibrador, daqueles que parecem uma escova de dentes e usam a mesma técnica. Aí sim, dão a medida, porque quem trabalha é o aparelho tremelicoso e não elas. O que elas querem é fazer dos homens uma escova de dentes, ou melhor uma escova de pitos e não estão interessadas em entregarem-se e envolverem-se emocionalmente até à sujeição. Não percebem que só há amor numa sujeição mútua... a dois. Porque entregarem-se seria ficarem vencidas, e elas querem estar sempre na posição de vencedoras, aquelas a quem os homens têm de prestar vassalagem e admirar sem reservas os seus dotes físicos - os emocionais são secundários para estas estátuas a imitar a Vénus esculpida, que é assim como ela é mostrada à humanidade. São é umas bonecas de borracha como essas que se vendem nas Sex-shops. São é umas grandes preguiçosas e convencidas... umas autoconvencidas - de que são irresistíveis, mas assim nenhum homem as quer, e ainda bem para mim, que assim apanho uns gatões, madurões, uns duros de roer, os desconsolados, que me mantêm em forma, e não me falta por causa disso clientela e da melhor!
    É claro que lá no fundo, bem no fundo, essas esposas abonecadas, mimadas, actuando como senhoras da mais fina flor, da cultura superior, da mansão de cima, da grandeza tradicional, da classe tipo grã fina carioca, o que gostavam de ser, isso ninguém me tira da ideia, que também as tenho, sou mulher de ideias fortes e convictas, como as da melhor estirpe, ideias sim e das mais refinadas, é que o que essas snobes, top show ladies gostavam de ser e experimentar diariamente eram os prazeres das mulheres como eu, que dou o cu e três vinténs para gozar uma boa foda liberta de todos os preconceitos e tabus. Mas o status em que vivem não lhes permite isso, ninguém lhes tira isso da cabeça. É evidente que algumas descarrilam... fazem-no também às escondidas! Lembremo-nos, por exemplo das popularmente célebres rainhas como a Catarina da Rússia e a Leonor de Teles e tantas outras, mestras na Arte de criar bordéis, onde se divertiam tanto ou mais do que as súbditas, e dessas senhoras aristocráticas que fodiam com o cocheiro, do Ambrósio que dava de comer à senhora vamp o seu chocolate com uma noz lá dentro, e ela lhe agradecia, depois de o comer todo e lamber até ao fim, caroço e tudo, manifestando-se radiante e reconhecida com um sorriso e uma voz sensualmente liquefeita de completa satisfação: Obrigada, Ambrósio!
    Ainda hoje se mente e esconde o prazer clandestino das senhoras marquesas, ricaças, remediadas e pobres, aparentemente respeitáveis, algumas são conhecidas, toda a gente lhes aponta o dedo acusador, só o marido traído, o cornudo, é que não sabe e não quer acreditar, mesmo que lho digam. Põe sempre as mãos no fogo pela mulher impecável que tem em casa, uma mulher de formação irrepreensível, e nunca se queima... só os outros de fora, é que vêem os seus dedos todos chamuscados. Mas na maior parte dos casos são burros como os que  os são, teimosos como os arraçados equídeos e os canídeos rafeiros e sem pedigree, e só por isso merecem o par de cornos ramificado na cabeça, parecidos com os dos veados mais selvagens e vagabundos.
    Gostei sempre de foder, desde que comecei a brincar às casinhas nas medas, ao jogo dos médicos e das enfermeiras, às injecções no meio dos milheirais  e dos matos com os meus primos, depois com os vizinhos, e seguidamente com os atrevidos que iam às festas e romarias para engatar uma gaja jeitosa com quem pudessem transar. Nem todas o faziam, mas a maior parte sabia tanto como eu.
A cena era esta: deixava a minha mãe avançar nos caminhos e nos carreiros, perdia-me sem querer... sem querer? Não; era por querer para ser franca, que isto de desabafar custa p'ra caramba, a nossa inclinação é mentir, foi assim que nos ensinaram e aprendemos com o conhecimento de que os outros gostam de mentir e de fingir... isso é apreciado na comunidade em que vivemos. Se não mentirmos e não fingirmos, somos umas palermas que não somos espertas, nem andamos a fazer nada neste mundo! Em suma, não somos boas nem para nós próprias... as nossas mães até ficam com pena e revoltadas contra nós, em vez de se orgulharem  até nos repudiam e envergonham-se de terem uma filha assim. Mas para ser franca, vá lá hoje, hoje vou ser sincera pela primeira e última vez, porque estou para aqui virada, e também pelo respeito que o leitor ou ouvinte desta me merece, e ainda porque é um dia especial tendo em conta que faço anos... trinta e nove, sim senhor, trinta e nove, bem vividos, bem gozados, graças ao gozo que os homens me proporcionam nesta vida de gueixa portuguesa (não posso dizer chinesa está bem de ver, conquanto já vos expliquei como estas coisas se passam, e repetir seria pôr-me no lugar das cinquentonas que já repetem coisas que as colocam no rol da velharia) - pois é, tenho que ter cuidado com as repetições, não vá o diabo tecê-las... repetir só é dado ao acto sexual, à cópula, que quanto mais se repete mais nos deixa exaustas, mais nos amaciam, mais nos derretem, até ficarmos como se fôssemos divinas, a pairar no ar, extasiadas e lânguidas como os budas, sem raiva a ninguém, sem invejas, sem preocupações, sem amargura ou desconsolo. Pois é, vínhamos da festa com o gajo a quem púnhamos o olho de lado, aquele olho convidativo à aproximação que só nós sabemos fazer, e que é irresistível, e depois lá vinha o cachorrinho ao nosso lado a falar, a falar, como quem gane por uma comidinha acabada de fazer ao lume, e lá nos punha a maozinha por cima do ombro, contando estórias aldrabadas... depois, paravam de vez em quando para pararmos também, ajeitavam-se para nos beijar, agarravam-nos e apertavam-nos... e era então que eu punha a minha habilidade à prova, punha-lhes logo a mão na braguilha, apalpava o mastro a ver se era convidativo ou não, se era grande ou pequeno, se era rijo ou flácido! E só então me decidia pelo avanço ou recuo! Também era aí que os via a ficarem loucos, quase a espumar como os boxers, por causa do tesão que lhes ocorria imparavelmente e os cegava. O que se seguia, está bem de ver: se o aparelho genital era respeitável, abria-lhes então a cancela, e era então que tudo acontecia, enraivecidamente, ele a puxar-me para os fetos e as urzes, à procura duma covada acolchoada de caruma, e em aí chegando a levantar-me a saia e a tirar-me as calcinhas. No fim babavam-se e beijavam-me... diziam que me adoravam e afastavam-se pouco depois para mijar. Eu nem por isso os adorava, mas tê-los deleitado, também me dava um gozo muito especial. Era sinal que toda eu, era um docinho gostoso. Que loucuras de Verão! Seguidamente e nos próximos e futuros tempos o pinga-amor convidava-me para os palheiros, estrebarias, pocilgas, sótãos, uma ou outra vez para sua casa quando os pais saíam com destino conhecido e avisado. Durante o Inverno, ficava-me aquele cheiro no nariz a ervas pisadas, a odores de campos a amadurecer espigas, pêssegos e ameixas, ficava-me no ouvido aquela música estridente, cheia de ritmos, acordes e vozes tão lindas e familiares, abastando todo o espaço das freguesias circundantes, retinha e lembrava-me dos rostos daqueles moços jovens, ansiosos por me deliciarem, vinha-me à lembrança os membros genéticos que introduzia na minha vagina, a enchiam, a descompassavam, a punham a saltitar, a espremer, a largar sucos e fluídos, a estreitar como querendo retê-los para sempre, tão queridos eles eram, e tanto gozo me davam, que a minha vontade era ficar amarrada para sempre a eles, tal como os canídeos. Estes fiéis animais é que devem gozar bem o prazer da carne, que só muito tempo a seguir se largam... só se separam depois da cadela sorver todas as claras em castelo, batidas pela vara pontiaguda contra a odorífica caverna estreita (mal cheirosa, diga-se de passagem!). Os homens são mais preocupados e desprendidos do acto convulsivo, que nem sabem quão bom é o que se segue ao orgasmo e o sedimenta. Mas isso, são quase todos assim porque inexplicavel e infelizmente lêem todos pela mesma cartilha. Querem despejar o leite sumarento que lhes atormenta os testículos cheios de aflição, e logo a seguir depois de saciados, relaxados como lagartos ao sol, querem é despegar. Mas acontece isto com todos, quase todos... estou mesmo em crer que aqueles que se aguentam mais, é por consideração e pelo sentimento afectuoso em relação à companheira sexual, e não por eles. Eles são feitos efectivamente, e não há volta a dar-lhes, da mesma matéria energética e acanalhada. Não há que enganar ou ter ilusões, juro, eu seja ceguinha se não é verdade...
    Desculpai mas tenho de  me enquadrar bem na narração e na descrição destas confidências na forma de estória, porque pouco falei da minha família.
    É claro que ao escrever seja o que for, é preciso enquadrar o essencial, com o mais possível de elementos relacionados, embora contidos e proporcionais ao género literário escolhido: a figura e tudo o que a compõe, fisica e psicologicamente, assim como o seu habitat natural e social para tudo ficar completamente em família na frente dos espectadores. Isto disse-me o Antonioni Mamamia, escritor italiano, e dos bons... quando estou com ele; vai-me dando umas lições de Literatura erótica comparada, uma especialidade em que ele está a doutorar-se, e anda à descoberta de ficções portuguesas que escasseiam no mercado luso sobre o tema ; conta-me também umas anedotas finas para fazer sala e criar ambiente nas longas noites de quarta-feira, dia de escassa e má freguesia (que começo a não tolerar) ; ele me instrui em sua casa perto da praia, à frente duma lareira enorme ; anedotas essas que me fazem mijar a rir. Eu estou sempre muito atenta ao Antonioni, se calhar porque estou inconscientemente a preparar-me para escrever umas biografias quando for mais ou menos velha, imitando aquelas artistas de cinema americanas, como a Joan Collins, que descobriram uma forma de ganhar dinheiro através dos best-sellers da fofoquice, que lá se vendem como milho, e descascam em todas as amigas e conhecidas, além de pôr a nu toda a vida de prazeres e êxtases, misturando-lhes a mixórdia dos fingidores narcísicos e tarados sexuais, bisexuais, transsexuais, pansexuais, homosexuais, travestis e lésbicas. Mais me tem dito este amante latino - que os portugueses são muito peneirentos, se estiverem ao lado duma figura de proa, já não conhecem ninguém e evitam olhar de frente para o lado nem rodam a cabeça aureolada ; e revelou-me além de tudo isso, as diferenças entre a história e uma estória. Por isso vos digo: isto é mesmo uma estória, e não uma história, que era mesmo o que faltava!, dar um nome pomposo e historiográfico a um relato quase real, embora meta um bocado de água aqui ou ali, isso faz parte da minha profissão e do que professo... se não mentirmos não somos mulheres a sério, sendo este um relato com associações reais, encaixes verosímeis e enfeites deslumbrantes que se inserem na tradição da narrativa anglo-saxónica, plena de inter e intratextualidade, a chamada short-story, essa sim colhedora de toda a simplicidade e distinção, porque,  nestas coisas do intelecto, temos que votar e instruir para bem da nossa humildade, sensatez e imparcialidade ; para a história ou histórias, deixai os historiadores escrever crónicas de interesse preciso com métodos e normas científicos, como fez esse grande historiador chamado Fernão Lopes, assim como mais artisticamente aconteceu na prosa inovadora de Eça, Fialho e Alexandre Herculano, que Deus os tenha em descanso, embora nenhum português os deixe descansar. Efectivamente, nos Liceus agora Escolas Secundárias como lhes chamam para as banalizarem, de acordo com os gostos democráticos populistas, eles - estes cronistas - são-nos martelados na cabeça dura... mas, atenção, não há dúvida que o português com algum destaque intelectual é um snobe ; mais snobe é, se for um burro letrado ; miraculosamente considerado inteligente por vezes, não se sabe porquê nem por quem, mas enfim, errare humanum est ! ...  é, se me permitirem este desabafo inócuo, um burro inteligente mais snobe do que o original britânico ; ele só copia o que é chibante (ganhou-lhe o hábito ao proteger e amparar toda e qualquer estória africana e brasileira) e de mau gosto (que até os africanos e brasileiros sabem distinguir), ele adora o espectacular imperial, quer fazer mais show-off do que aqueles que são oriundos da terra onde nasceram  estes palavrões, e, por consequência, vemos estes críticos catedráticos de nariz no ar, cheios de importância que a ela se dão, sem ninguém a reconhecer ; reconhece-se mais, isso sim, a sua diarreia mental, verbalizada, ridícula e ultrapassada. Se apanharem uma gralha ou duas ou três, uma troca de letras por disfunção momentânea aleatória, especialmente nos escritores com quem embirram, e muito especialmente naqueles que os criticam por se atrasarem na compreensão dos impulsionadores das esperas e dos tempos de ponta da humanidade, dizem logo que não sabem escrever e consequentemente devem ser rejeitados. São: a não ler. São dispensáveis.
É claro que nem todos os críticos de Arte são assim, mas com o andar dos tempos, parecem todos iguais, imitam-se na mediocridade, no psitacismo, ficam prematuramente ancilosados ; quando deveria ser o contrário ; deveriam outrossim evoluir e fazer evoluir com o avanço da Hora de ponta da Humanidade. Essa treta de dizerem que o clássico e o consagrado são eternos, é a maior mentira que os puristas inquisidores inventaram para limitarem e delimitarem o seu atraso na evolução. É uma limitação redutora a denunciar a sua própria limitação!
    Quando lhe falo nas excepções que há em todas as vulvas e clitóris e montes de vénus, depois de ter visto os vídeos pornográficos, como vos irei contar mais à frente, se não estiver enganada, ele diz que também nesta área, a da crítica literária, vamos precisar de excepções, para que se notem as variedades profundas e notórias entre emissores e destinatários de vários géneros literários, autênticas flores abertas com vários estigmas, pertencentes a um só ramo que é a Literatura, e a um só tronco que é a Arte, firmada nas raízes da Vida... precisamos de excepções, dizia, de modo a  todos sermos dignos uns dos outros.
    Mas eu ia começar a falar da minha família, antes desta intromissão intempestiva e associativa de ideias: é uma família normal, vulgar de lineu, pode dizer-se sem grande mentira. Sou na verdade oriunda dum vale entre a Serra da Freita e a Senhora da Mó, local onde a natureza fez concha protegida dos ventos, ali perto do Rio Paiva, num ponto equidistante das Serras de Montemuro  e de Arada, terra com algumas anormalidades ou aberrações conhecidas como sejam a existência de criaturas bissexuais e de pedras parideiras. Moramos mesmo perto da cidade mais próxima, conhecida pelo seu Convento impositivo. Filha de pais comuns, ele um  louquinho por molhar o prego em frutos proibidos, ou seja, meter a foice córnea em seara alheia, uma mãe enérgica e trabalhadora, uma irmã morta quase à nascença por razões misteriosas nunca apuradas, ainda era eu miúda quando ela se apagou, trivialmente dito: esticou o pernil, tenho como familiares ainda umas primas pindéricas algumas com cursos médios, outras universitárias (as quais me odeiam e hostilizam), uma ou outra amiga, poucas mas fortes, amigas do peito.
    Às vezes encontro a Susana, vamos ao cinema, vamos a casa de homens ricos para mais um bacanal bem pago à partida, tem de ser mesmo à partida senão ficamos a ver navios; malandrecos que possuem piscina e bar no rés do chão de mansões em sítios escondidos nas redondezas das cidades. De férias, vamos para Ibiza porque é o sítio da lascívia e da luxúria, com aqueles piçudos todos que gostam de se bronzear nus, aliás como toda a freguesia feminina, artistas, jogadores, cantores e cantoras, estrelas de cinema, atletas olímpicos, corredores de automóvel, habituados a porches e ferraris, mânfios que nos embebedam todas as noites, desgraçando-nos o frágil canastro durante, juntando, sem nos dizer nada, às bebidas, essências porosas de cocaína líquida para nos porem loucas de excitação e quase inconscientes. Só de manhã nos apercebemos da sacanagem que nos fizeram, no meio de gozos inauditos de chorar por mais! Até ficamos sarapantadas! Aquilo por lá, já sabeis, não sabeis?, estas coisas não são novidades para ninguém, é um forrobodó de tal maneira espectacular que quando regressamos temos de ir para as termas uns dias para remendar as peles esgaçadas, lubrificar as cartilagens dos braços e pernas submetidos a retesões piores e mais mirabolantes do que no Kamasutra, podrezinhos deles!, destes membros esculturais antes da chegada ao aeroporto cosmopolita da Ilha, e, logo após, estiolados pelo sol abrasivo e à noitinha pelos esticões frenéticos debaixo da lua, exercidos por esses taradinhos por sexo louco; vamos assim às termas apertar os eixos que se avariaram nas acrobacias sexuais, e sobretudo fazer uma revisão completa ao fofo traseiro violentado repetidas vezes durante a quinzena estival, de modo a  retocá-lo com pomadas untuosas, normalizá-lo, e pôr o sigmóide e o recto a funcionar com toda a originalidade e virgindade. A Susana, a Felícia e eu ajudamo-nos mutuamente nas massagens das partes mais lixadas e nos exercícios aeróbicos de restauração das partes lassas. Além de doutoradas pela prática de experiência feita nas artes sexuais, podemos considerar-nos hoje também peritas nas artes curandeiras de partes alquebradas e desgastadas pelo uso frequente das posições mais acrobatas e violentas, as quais somos obrigadas a exercer nesta boa vida de delícias e gordos proventos! Mas férias são férias! Repousar é nas Termas das Taipas, ali perto de Braga, sendo estas as mais completas para as gueixas made in Portugal. Ficai sabendo para todo o sempre que curam a pele, as fossas bocais e nasais (chamadas vias respiratórias pela Ciência Médica), os intestinos, os rins e o aparelho urinário!  Melhores não há em todo o Mundo! Este é o nosso segredo com o qual não nos temos dado nada mal...
Além da Susana, a amiga, que mais entra nos bacanais, é a Felícia, da qual já vos falei. É uma mulher também boazona, mais alta do que eu, mas bem feita, e essa distingue-se na fersura, isto é na excitação do clitóris das amigas, pois se os beijos dela são muito mais doces e ternos do que os dos homens, a língua de palmo que lhe sai da boca, é capaz de pôr aos saltos todos os grelos de um harém mal assistido.
    Contudo, só me interrogo porque não prendo um homem dentre aqueles com quem me envolvo sexualmente... uns dão-me umas notas que poderiam comprar frigoríficos, outros dão o suficiente para comprar vestuário de couro, a melhor lingerie,  os mais ricos oferecem o bastante para comprar carros desportivos, há tansos que já me ofereceram um apartamento, um barco, enfim, já fui mais mimada que 99% das mulheres deste mundo. Só tenho pena é de nunca ter conseguido conhecer um árabe, um xeique, um príncipe, senão até um palácio me teriam oferecido, dado que estou ciente que nenhuma mulher é capaz de fazer vibrar genitalmente um homem como eu. Com a mais valia psicológica que seria proporcionar-lhe o prazer de ter e possuir uma mulher que também goza como um bicho feroz. Agarro-me com paixão, beijo todas as partes sensíveis que eles desejam sentir beijadas, lambidas e sugadas, dou-me toda, abro-me até ficar toda desabrochada e vibrante, com um tesão de enlouquecer qualquer mancebo, bicho do mato ou Casanova lustroso e ilustrado, e rebolo-me, gemo, grito, profiro palavrões misturados com apreciações do imenso gozo que sinto verdadeira e efectivamente... arranho, prendo, mantenho o pénis muito tempo seguro e massajado por contracções violentas na minha vagina. E agradeço no final o prazer que me fazem sentir. Em sinal de retribuição, eles oferecem-me tudo o que têm disponível, até mesmo aquilo que nunca ofereceram às esposas. Só que não ando na mais alta roda, e disso tenho pena, até alguma amargura!... não consegui ainda misturar-me no meio desses multimilionários que compram tudo, mulheres, palácios, aviões, iates, ilhas desertas, e até a consciência das pessoas, as que deixam de ser personalizadas  temporariamente,  mas que reaparecem mais tarde como as mais Vip deste Universo.
    Só casei uma vez, vou-vos confessar, hoje pela primeira e última vez, repito, hoje e só hoje estou para aqui virada, e... esse acontecimento na minha existência vacinou-me contra o matrimónio. Podia ter casado algumas vezes com homens ricos para lhes sacar metade da massa de que são donos no decurso de cada divórcio, e hoje estaria também multimilionária. Só que passar um ano com um deles, seriam, já sei, cinco anos a menos no meu corpo e na minha alma!
 É curioso e foi sintomático, nesse casamento, que se realizou por amor (da minha parte pelo menos), ele quis fazer de mim uma mulher de trazer por casa, uma doméstica, domesticada em tudo, programada para cozinhar, limpar, lavar, arrumar, tendo apenas como auxiliar uma  mulher a dias para ficar mais baratinha a despesa mensal. Era ele, antes do matrimónio no registo civil, um fugaz amante, quando se começou a interessar por mim, sendo bancário de profissão, um curso médio de contabilidade nas suas mãos como credenciais insuspeitas, tendo herdado dos pais algumas casas que lhe davam mais algum rendimento para as fustrias. Um quarentão, simpático, alegre, de meia estatura, da minha altura, bem constituído, inteligente, um pouco superior à média, mas só um pouco em vários assuntos, como esses de resolver bem os relacionados com a gestão das suas economias, medíocre contudo, por teimosia e complexo, noutros de ordem psicológica que tinham a ver com a condição da mulher nos tempos modernos; além disso era carinhoso e bom na cama. Isto quando o conheci, porque depois do casamento metamorfoseou-se num marido à antiga portuguesa! Parecia o meu avô a tratar a minha avó... sempre com duas pedras na mão, se ela reclamasse, discordasse ou atacasse por qualquer razão mais evidente e insuportável.
Pois, a esposa dele (deste José de quem vos vou falar), quando teve a certeza dos nossos encontros, era eu uma vintona bem rodada, não lhe aceitou esta traição e pediu o divórcio. Ele aceitou-o com um alívio supranatural dado que ela era um cepo duro na cama, incapaz de um arrebate de amor mais caloroso (palavras do José). Nem era carinhosa, mas outrossim uma rabugenta, por tudo e por nada. Trabalhava também, numa Companhia de Seguros, e esta condição pô-la à vontade para arranjar um colega de trabalho que por ela se apaixonou sem grandes motivos para isso. Só que este era um solitário, um introvertido, bexigoso, misógeno, e não havia mulher que o quisesse. Cansado de ir às putas, às mais baratas, porque além dos defeitos apontados, era um agarrado de merda, um sovina, um unhas de fome, lá se apaixonou por um cepo que se calhar nem era tão duro como pintava o José, meu marido durante dois anos infernais, que me pôs fora de mim, e me prendou com uma filha bonita e irrequieta como eu, e agora na escola mete-se nas retretes com os catraios, e disputa os mais atrevidos e malucos. Como sai à mãe, não a repreendo, mas logo que esteja na idade da menstruação vou ter que lhe vigiar todos os dias a tomada da pílula contraceptiva, para não ter de andar pelas parteiras carniceiras que dão cabo dos úteros às tristes criancinhas e às doidas adolescentes que lhes caem nas mãos sanguinárias.
    O José Terra era um tirano, depois de casado, não me deixava ir ao café, ao cinema, controlava-me as horas da ida à cabeleireira e ao médico, às vezes aparecia de repente para me vigiar, zangava-se com facilidade, e, cúmulo dos cúmulos!, dizia-me que eu era uma conaça filha da puta, que tinha um pito largo, autêntico bacamarte, relaxado e desenxabido (pois não havia de ter, eu quando podia mandava uma facada daquelas apetecidas que me faziam entrar em parafuso arrumando-me para o lado e arruinando as relações emotivas com o meu legítimo!), e que por causa de estar a ficar um cepo, uma inerte, um saco na presença dele, cada vez tinha menos prazer comigo, e mais: que lhe sabia melhor uma punheta que uma foda comigo, assim disse o meu querido esposo! Olha o que foste dizer! essa foi forte !... foi a pior coisa que me pudesse ter dito, a mim que tenho uma passarinha dentro de média, mais para baixo do que para cima, pois que se para os homens é preciso ter uma grossura superior à média, o meu calibre ( deve ser de 6.35 mm, a avaliar pelo do revólver que herdei do meu pai ) é com certeza inferior... são os homens que mo dizem quando lhes comecei a perguntar isso mesmo, depois deste vil e desastrado incidente. A grossura do membro genital dele é que não é superior à média, com muito favor poderia dizer-se que está dentro da média, atendendo a que eu já experimentei todas as dimensões, desde aqueles que me sufocavam e faziam doer num tormento, até àqueles que eram como uma peninha de passagem, nem aqueciam nem arrefeciam, eram uma coisa insonsa, descuidada e imberbe, nada proporcional ao acto que exige toda a masculinidade, muita chicha, potência e solidez - capaz de roçar bem nos poros interinos e no grelo hirto, já transei os instrumentos que são capazes de nos pôr em brasa, fora da órbita,  e nos fazem contorcer e extasiar do gozo na plenitude da luxúria.
    Por falar em revólver herdado do meu pai que também já o havia herdado do meu avô (esse era o "Zé dos Bacamartes" como lhe chamavam por possuir uma colecção respeitável deles), há que referir a talhe de foice que o meu ascendente era um lavrador remediado; aos domingos fazia de sacristão na Igreja,e nas horas vagas de lusco-fusco disputava as mulheres do abade, aquelas que escorregavam na calçada, sendo também apreciado em surdina pela sua armação genital acima da média. Nunca foi efectivamente difamado por quem quer que fosse feminina, com o labéu de que estava abaixo. A minha mãe Glória era uma mulher incansável que ia e ainda vai à feira para vender hortaliça e fruta, é uma mulher de armas capaz de enriquecer não fosse a ocupação herdada da família para sua desgraça: a de lavradeira - muito trabalho, pouca recompensa. Embora conhecendo as leviandades do meu pai Manuel, um mulherengo, um doido por saias, nunca manisfestou o seu desgosto e lá ia aproveitando o que tinha em casa quando se proporcionava uma data comemorativa. Antes de morrer o pai Manuel, já com sessenta e nova anos, desgastado por doenças ruins, na década final, a fama tornou-se mais relevante do que o proveito, porque na prática, segundo soube  pela minha tia Matilde, o tesão subiu-lhe todo para a língua como azeite à flor da água. Falava em demasia, dizia aos poucos amigos, que tinha (ainda tinha alguns, sobretudo solteirões e viúvos, que os casados fugiam dele, estão mesmo a ver porquê ! )... dizia, volto a repetir (que isto de desenvolver ideias, é como comer cerejas, nunca acabam e são de comer seguidinhas que nunca fartam), dizia que comia tudo, mas na realidade não tinha dentes para as nozes frescas e rijinhas de que se gabava. Era cada fiasco na cobertura da fêmea, que não vos digo nada; caía de queixos, mal se desprecatava ! contudo, como algumas também gostavam de ser lambidas (até achavam fixe já naquela geração, como em todas se quisermos ser realistas), lá se deixavam escovar com o bigode farfalhudo e hirsuto, e permitiam ser lambidas com a cortiça da língua, e sorver com a carqueja dos beiços nos sítios próprios ao acto.
    A passagem do José Terra pela minha vida de puta fina, foi um momento infeliz para esquecer. Deu-me no entanto uma filha que adoro e tenho que a guiar da melhor maneira que souber, pois mais não pode ser exigido. Não se pode dar o que se não tem. Ele está já de lado, no rol dos esquecidos e repudiados, casado com uma ricaça, mais velha que ele, que lhe dá dinheiro para fazer uma vida de orgias, a que ela se associa, sem vergonha. Por isso, é que evito que ele veja e conviva com a Clarinha (arranjo todos os pretextos e mais um, todas as desculpas e aldrabices mirabolantes para pô-lo à distância), a minha Clarinha, assim se chama a minha mais que tudo, para ela não ter que ver a vida dissoluta que ele leva na sociedade. Seria um mau exemplo e eu não quero que influencie esta pobre e indefesa criatura de Deus. É certo que a minha vida não é melhor do que a dele, mas pelo menos sou a mãe.. e mãe é mãe, e não há ninguém melhor que a mãe para as filhas e filhos que caem em desgraça por os pais se divorciarem. Isto faz parte da sabedoria popular, todos o dizem, os juízes aceitam este facto como uma verdade insofismável, por isso estou dentro da razão; isto é o que se chama ter consciência...  a consciência universal que é uma coisa sagrada, ainda que eu às vezes, em momentos de maior lucidez e clareza de ideias, pense que tanto o pai como a mãe podem dar um futuro risonho aos filhos, aquele que eles merecem dentro dos circunstancionalismos, condicionalismos e contingências da condição ou posição social de cada um, face à comunidade e à família. Enfim, esta coisa da consciência tem o seu quê que se lhe diga, mas parece-me, Deus me perdoe!, que serve é para sedimentar o que a tradição quer que se eternize e a alguns interessa que assim seja, pois é subversivo estragar o bem de alguns, que são até muito poucos!... Mas são os que nos governam, e a quem nós atribuímos poder para nos submeter e para nos anular! São poucos sim, mas os suficientes para nos lixar quando é preciso! São só alguns eleitos! Todavia, a maioria dos cidadãos anda a penar, ceguinhos como as toupeiras! Ainda enxergo estas deduções, me perdoe a comunidade (eu sou muito bem educada, quando é preciso pedir perdão, sou a primeira a fazê-lo!), nesta sociedade em que vivo marginalizada!...
    Voltando, todavia, à vaca fria, nunca pensei ouvir uma coisa dessas: insultar a minha feminilidade de mulher destinada à luxúria, fazendo uso do mais nobre e sublime espaço que ela tem reservada dentro, como seja a vagina da divindade no centro do monte de vénus, a vulva de todos os excelsos prazeres, jamais criados por Deus a não ser a mulheres como eu que O adoro, O visito na Igreja, O comungo, rezo devotamente a ladainha do costume que me ensinaram na catequese, esse Deus que é o grande benemérito nestas coisas e o Ser que criou os órgãos sexuais  mais perfeitos e saborosos deste paraíso de delícias. Às vezes troco a Avé Maria pela Salvé Rainha, mas é só por distracção, que me alheio a pensar naquele Santo Onofre, que de mulher linda e meretriz, cobiçada por toda a virilidade de época, se fez  um garanhão marialva e depois se tornou um homem santo, venerado até nos confins da Turquia?! Cum carambra, vamos lá a saber como é possível esticar a natureza humana com todas estas metamorfoses?!
    Porém, e já que falamos no Génesis e na Natureza humana, vêm-me à mioleira assim umas ideias meias malucas, como esta de dar a maçã ao Adão, ao lado da árvore da vida, melhor, dum chaparro secular com uma cobra pontiaguda enrolada nela, parecida com um caralho dum preto, cheia de veneno. A Eva, que foi a primeira mulher extraída duma costela de Adão, filha por isso dele, mas que confusão aí vai, tanto incesto, pedofilia e complexos da trágica Electra!, a Eva, repito, só foi escorraçada do paraíso porque era uma badalhoca sem experiência, uma remelada mal cheirosa que não conhecia as propriedades e os odores das flores, nem mandou, ao seu Senhor, fazer um chuveiro para se lavar do sarro que acumulou durante anos e anos, nem conhecia os segredos dos frutos e insectos afrodisíacos que devia compartilhar com o Adão e não compartilhou, nem lhe dava o gozo a que ele tinha direito, porque da técnica sexual do Amor, a Eva era uma ignorante e nada fez por se instruir. Também, é certo que tem uma desculpa! Não havia o Kamasutra para ler nquele paraíso onde faltava o essencial... era um sornice dos diabos, um protelar infindável de tomadas de posição e decisão (como acontece em alguns governos da nossa civilização cristã), uma analfabetice que bradava aos céus, era a pasmaceira mais contundente e gritante que arrepiava qualquer imortal, quanto mais mortal!
    Pronto, por todos estes condicionalismos e factos, tem que se dar um bocado de desconto a esta Eva porca e badalhoca, apática, sonsa e analfabeta! Pois é, há coisas fundamentais, sem as quais todos somos uns seres vegatativos! E é essencial saber que o Amor é como uma droga, tem a força e o poder dos alucinogénios, é a única toxidependência saudável, existente à flôr da terra, a qual não só constrói como também arrasa Impérios! Isto já é conhecido desde os helénicos, e eu já li livros sobre os mitos e as figuras marcantes e debochadas da História Universal, além duma filosofias orientais que estão muito na berra!, como por exemplo, aquelas teorias das seitas búdicas da Índia, que, pela sua consciência sexual de satisfação e empenho no fornicanço, anulam à partida qualquer puta como eu, tendo em consideração que as mulheres lá eram e são todas sem excepção as melhores e mais treinadas amantes do Mundo para os homens que as fecundam, e transavam e transam como artistas doutoradas para atingirem no acto sexual a divindade na simultaneidade dos corpos extasiados e na unidade dos gozos genesíacos. Deus no fundo, ao castigar esse pedófilo e incestuoso Adão e essa atrasada mental que se dá pelo nome de Eva,  burra como a puta que a pariu, puniu justiceiramente a preguiça, a rotina, o modo displicente do tal estado de fazer que faz, mas não faz coisa nenhuma, nem nisso se aplica como quem se deve esforçar, para das diligências efectuadas extrair os necessários dividendos... tudo isto é um atentado perpetrado ao saber fazer, do fazer com o ardor das coisas que valem a pena ser feitas - para delas se tirar o melhor partido, neste caso o sentimento excelso daquelas que vão ao céu luxuriante num calidoscópio de prazeres sensuais, inteiramente divinos, e voltar de lá com desejo de lá regressar com muita pressa outra vez, e quanto mais cedo melhor! Este é que é o verdadeiro sentido da Natureza. Sem sabermos isto, não merecemos viver, quanto mais usufruir da vida num paraíso terreal !
    Estava, se é que estão atentos e a seguir esta catadupa de factos e ideias arrevesadas, a falar do meu estuporado marido, e é preciso neste momento dizer:  mandei o José Terra à fava quando ele me bateu por me ter visto  a sair duma Pensão manhosa, daquelas onde se apanha uma camada de chatos ou uma gonorreia, com toda a facilidade... Apanhou-me em flagrante, num estado esfuziante, com um matulão de orelha furada por um brinco grosso formatado num elo de ouro, cinto de cabedal com dez centímetros de diâmetro, pulseiras de couro incrustado de metal piramidal, como usam os buldogues à volta do pescoço volumoso, ornamentados assim pelas suas legítimas donas. Depois duma violenta discussão chamou-me aquilo que eu era e sou e serei,  mas não aceitava nem aceito nem aceitarei que mo digam de cara a cara, porque não sou puta dessas ordinárias, sou das finas, de luxo, uma gueixa portuguesa; sem esta distinção é pretender rebaixar-me o que é imperdoável e próprio do vilão. Não posso dizer que sou uma puta ibérica, porque a espanhola é mais refinada e se lhe dá para tocar as castanholas, até toca, e que bem que o faz! Quem toca assim castanholas, o que não fará com aqueles dedinhos delicados e habilidosos, ela é muito mais insinuante, é tremendamente arrebatadora, não há nenhuma mulher que a bata em sedução. Não falo mais da galega ou leonesa nem da basca, mas daquela das linhas geodésicas, ou melhor, da latitude e meridianos paralelos que estão abaixo dos de Lisboa e vão até ao trópico de Capricórneo. Estas vizinhas cá do Norte de Espanha são um pouco como estas tristes portuguesas que de tesão não percebem nada, e só ouvem à distância falar nele. Continuam a ser as nossas Evas expulsas do paraíso das delícias. Por falar em Paraíso das Delícias, já ouvi falar deste epíteto... ah, já me lembro, foi a propósito dum pintor célebre dos fins do século XV, chamava-se, ah, espera!... já me recordo: era Boch, ou Bosch, Jerónimo, se não estou em erro, belga ou holandês que para mim são a mesma coisa, até lhes chamam Países Baixos, e no fundo, verdade, verdadinha, tanto se me dá como se me deu, se é dum ou doutro, mas o artista é aquele que descreveu a Terra como um Paraíso de mulheres nuas cheias de gozo, e associou a esta orgia pantagruélica uns símbolos muito estranhos para quem percebe pouco ou nada de sexo! De Boch ou Bosh ou Bosch, o primeiro surrealista avant la lettre e no qual Salvador Dali, o maior de todos, se inspirou, veio se calhar a palavra broche, ou deboche, ou debochar, isto não sei a certeza, porque a Inquisição queimou certas palavras no fogo onde assou para gáudio da turba desvairada, milhares de criaturas a merecer a purificação santa. Aquele pormenor do mexilhão, é duma acuidade tão genial que demonstra que já naquela época os artistas eram uns mestres na percepção do que era gozo sensorial excelso, e demonstravam o conhecimento íntegro e total da natureza humana, melhor dito, da natureza genital feminina e masculina. Isto tudo a propósito do meu estuporado marido, vede bem as reminiscências são como os tremossos, nunca fartam nem nunca acabam e se uma pessoa não se contém aí vai até ao fim do mundo sem parar de recordar. Mandei o José Terra abaixo de Braga, como já vos adverti, disse-lhe: és uma merda como homem, um peido como amante, uma borrada como companheiro. Por isso, puto de rufia, vai-te foder que comigo não fodes mais...
    Bateu-me, sim, no calor da ira, esmurrou-me toda, de tal modo que me orgasmei, e quase estive para lhe rogar por piedade para recomeçar tudo de novo, mas finalmente e à última hora, bendita a hora!, calei-me, surripiei-me à sua presença maldita, curei as escoriações, luxações e equimoses, fiz uma viagem às termas (aquelas muito especiais de que vos falei atrás) para me recompor, e recomecei a minha vida de mulher destinada às mais ricas e finas alcovas, onde tudo se aprende e esquece depois do arrebatamento num fantástico paraíso genético com as virilhas em estado frenético de transe.
    Mas houve entretanto uma cena curiosa nesta narrativa que não posso esquecer por mais que queira, e ela foi quando fui à urgência do Hospital para ser vista no estado em que ficara, e para poder registar a queixa na Polícia, documentalmente comprovada pelo relatório médico, e cuja cópia serviu para apensar ao pedido de divórcio por maus tratos e violência doméstica, aí o médico olhou-me com uma curiosidade insuspeita e exclamou
- ó mulher, você está toda contusa!
eu não gostei da observação despropositada e sem contexto e retorqui-lhe esbaforida estou sim, mas guardado está o bocado para quem o há-de comer, bem pago!
- Olhe que eu não estou a fazer-lhe nenhuma proposta nem nenhum convite! nem pago por actos que os tenho à borla...
- Então você não é médico, é um puto de um gigolô !
- cale-se sua malcriada... (virando-se para os colegas) ora vejam bem como ela me trata, é um tratamento que me horripila
- qual pila, qual carapuça, veja bem é o que está alquebrado!
riu-se muito o doutor da minha má disposição, má criação e histerismo reactivo
- anda cá, como te chamas?... ah, Patrícia (leu ele na ficha), vamos lá a ver essas esquimoses, escoriações e feridas
e com ar de gozo indisfarçado, lá registou o incidente, e prescreveu uma receita abundante, que aviei no dia seguinte, seguindo logo para as termas, como já vos disse atrás...
    Antes deste episódio como vos contei, desta ofensa à minha ratinha mais que tudo na vida (bóia de salvação agarrada em qualquer naufrágio imprevisto com unhas e dentes), nunca tive necessidade psíquica de vídeos "pornográficos" (entre aspas), porque sei entesar, e com prazer o faço e digo, qualquer homem sem a eles (vídeos) recorrer, fazendo jus de toda a minha técnica e dinâmica. Sou como certamente já vos apercebestes, a artista mais completa e talentosa, jamais criada neste mundo-cão, capaz de ressuscitar um morto... mas agora quando estou com os meus cavalheiros da ocasião destinada aos exercícios da mais pura e viva fornicação, às vezes aproveito para ver acutiladamente durante os jogos preliminares as cenas de sexo explícito, onde são permitidas todas as brincadeiras de roço e gozação, e também como repouso da ofensa que me abalou, e também para consolo da consciência traída e do coração magoado. Então eu ponho a circular no vídeo filmes pornográficos, especialmente na presença dessas franjas etárias chamadas dos cinquentões e dos sexagenários (são os que mais deles precisam como motor de arranque quando não têm em casa uma mulher artista e fantástica como eu), e só agora o faço (como esses mirones que nas nossas praias, escondidos entre as dunas, espreitam as fodas ao ar livre, e à custa delas tocam punhetas), depois daquele desafio que o estupor do José Terra, meu marido cornudo (com prazer o digo) me fez de desacreditar na virilidade, estreiteza e aperto da minha vulva (que é a base de toda a minha autoconfiança e vaidade e até orgulho)... vejo agora sim com cuidado, com atenção, com uma acuidade fortíssima, a dimensão das conas dessas figurantes que fodem para os outros verem e se entesarem... são putas mercenárias, sem prazer pelo acto, que só fingem em tudo o que fazem e dizem, e gemem em play-back. São uma palhaças, umas aeróbias, mas de facto, vendo bem, aquelas ratas têm as mais variadas dimensões, as mais variadas formas (agora percebo quando os homens dizem que certas mulheres têm conaças relaxadas, em vez de pitos), têm as mais variadas posições no próprio corpo e no sítio onde parecia ser local universal geral destinado por Deus para todas as mulheres sem excepção... Agora sei porque vejo bem que as pachachas são como as impressões digitais: todas diferentes! todas iguais na aparência mas todas diferentes! São excepções sobre excepções; são todas excepcionais! Assim é que está bem, levando em linha de conta que uma excepção é uma grande injustiça... uma excepção leva os homens a correr para a excepção, eles querem todos experimentar uma excepção, como aquelas que têm um clitóris grande do tamanho de um lírio pequeno, um desses que roça no pénis e se põe a arfar como a concha de uma lapa ou de uma amêijoa, e deixa os audaciosos fodilhões atrevidos em transe sem saber se são deste ou do outro mundo, agarrados como a lapa ao rochedo. Não é justo, devíamos ser à face de Deus todas absolutamente iguais, mas há-as de todos os tamanhos, inferiores e superiores à média, vê-se bem quando elas emborcam aqueles nacos de carne grossos de encher de gozo uma boa boca gulosa, e logo que enfiados nas estreitezas das fendas, os pitos transbordam as suas nervuras de beiços inchados... E as piças até têm dificuldade em entrar, mas entram muito devagar no meio dos gemidos dessas mulheres torturadas pelo gozo... esses rolos de tentação concupiscente até se dobram... Porém, enquanto vão saindo, e vêm vermelhos com as veias negras chupadas, e com um tesão de enlouquecer mas mais firme, logo é convertido em mais uma entrada de rompante para fazer tremer todo o ventre da mulher amada, ficando esta tremelicando toda até à testa, e fá-la levantar as pernas na forma de uma tenaz até ao céu!!!
    Quando nesses vídeos chamados pornográficos (entre aspas), mas aos quais se deveriam chamar instrutivos,  e até terapêuticos, visto que fazem ressuscitar mortos sexuais, ou piças fanicadas, lá uma vez por outra aparece um pichote de lírio pequeno (é um desconsolo, perco logo o tesão); porque há homens que não são homens, não servem para foder, deviam era mudar de sexo, deveriam, está bem de ver, mandar fazer uma plástica, uma ranhura debaixo do pénis onde coubesse uma picha, pois que andam a enganar as mulheres que com eles se metem, a julgar que eles são alguma coisa de proveito e aspirantes a alguma fama. Deviam ter é fama de paneleiros!
    O meu primo João um destes dias perguntou-me também
- olha lá, ó meu docinho querido,  o meu instrumento genital é médio?
- eu disse-lhe, ó Joãozinho, o teu está dentro da média
- mas acima ou abaixo?, insistiu na precisão da definição
- abaixo
coitado! ficou todo petrificado, branco como a cal da parede num resto de comichão genital de aflição. Reparei que ele ficou desalentado, que não vos digo nada, levantou-se da cama sorumbático, e, depois de me ter deixado, a rabujar lá se enfiou para casa com o rabo entre as pernas, com umas trombas do caralho, parecidas com as do elefante em posição estatutária, sem vontade de me voltar a ver,  capaz de ir pedir contas ao nosso senhor, pela injustiça, pela má criação, pelos pecados e defeitos de fabrico ou de origem, o que, no caso dele, são tremendamente revoltantes contra o criador de todas as coisas, incrivelmente injustos, tendo em conta que é um homem de trabalho, de sacrifício, e está de bem com toda a comunidade católica, aliás como eu própria estou, uma vez que pratico, só que numa Igreja na qual ninguém me conhece, senão o padre expulsar-me-ia da congregação dos católicos local...
    A Igreja onde vou sorrateiramente, como um clandestino num País estranho, é um local fora da minha zona onde me penitencio aos domingos, e só o padre me conhece e esse é meu amigo, porque me confessa, me perdoa, me comunga, e me come quando lhe apetece, especialmente quando embirra com uma ou outra paroquiana beata, às vezes até uma ou outra casada mal fodida por um marido distraído, desses que não dão uma assistência sexual como elas merecem.
    O padre considera-se e propala-se o representante de Deus na Terra (ele já me disse, vede bem a sua infinita bondade e admirável diligência!, que eu quando morresse, salvo seja, abrenúncio!, me tinha reservado um lugar ao lado de Maria Madalena no céu), e ninguém tem o direito de o privar dos prazeres da carne, a não ser na quaresma que é o tempo do jejum e ele é um católico exemplar, nisso não falha, mas logo a seguir à quaresma lá me leva ao castigo, que para mim me dá um gozo do outro mundo, uma vez que fica ceguinho e babado, a espumar uma raiva de semanas sem a prática de um coito felino, com os dois testículos carregados de esperma, prontos a vomitar lavas de leite já amanteigado, um leite creme que às vezes engulo para não ser sempre da mesma maneira, e não o cansar das poses dinâmicas, um leite que quando ejaculado no local próprio me queima as entranhas e as põe num transe demoníaco, que é o mesmo que dizer, dum gozo louco e celestial, só comparável ao gozo dos católicos, que, por artes mágicas, conseguem manter-se na abstinência total sem custo durante a quaresma. Enternece-me, não há dúvida, muito a continência material dos padres que se sacrificam uma vida inteira pelos seus paroquianos... dos padres e dos fiscais e dos políticos, que me deixam viver neste mundo sem pagar qualquer tributo às finanças, que me deixam viver à grande e à francesa sem pagar impostos. Sou eu e os traficantes de droga e de armas os mais beneficiados neste paraíso fiscal, onde metade do valor das transacções mundiais, as nossas, fogem à vigilância do fisco, e só a outra metade, a dos tansos dos trabalhadores, é tributada com toda a legalidade para que eu e os traficantes possam usufruir das infra e das estrutruras essenciais, algumas até apalaçadas, inteiramente ostentosas, contruídas para nos facilitar a existência e fazer gozar neste País tão lindo e solheiro que não trocaria por nenhum outro.
    Eu disse-lhe, ao meu primo João, depois da pergunta: abaixo ou acima?, e da resposta: abaixo, unicamente para o apaziguar comigo e com o criador, progenitor de todas as enfermidades e deficiências, o seguinte
 - não fiques com essas trombas, porque o que conta é o empenhamento, a técnica, o bombear nervoso e arrebitado... quantos desejariam ter um caralho como tu o tens...
e ele retorquiu
- sua puta do caralho, vai enganar outro que a mim não enganas tu !
 mas pelos vistos, a compaixão que lhe exprimi como se fosse uma verdade, deu algum resultado, pois passadas umas semanas, ele lá se apresentou ao castigo dos escravos e dos covardes e lá se despachou como o pequeno merdas que era e é,  nem carne nem peixe, antes pelo contrário!... e eu fui beneficiada porque o dinheirito estava mesmo a fazer-me falta para trocar o meu carro velho, já com dois anos, por um novo prateado em folha, com capota de lona e capota rígida para dar nas vistas e atrair a freguesia mais endinheirada. Às vezes, não há dúvida que uma palavra de compaixão traz proveitos inconcebidos e abundantemente chorudos...
    Além do José Terra, o pai legítimo (será o legítimo?, nem eu sei!) da minha filha, só o Manuel da Figa é que me bateu um dia sem eu ter culpa nenhuma (não conto aqueles jogos sado-masoquistas em que participo e levo e dou porrada de criar bichos que é como quem diz), mas não me chateei com ele por causa dos tabefes porque esse tem uma piça de palmo e meio, grossa como um salpicão de Trás-os-Montes ou Montalegre, muito respeitável sem dúvida, às vezes desconfortante, especialmente na boca ou no ânus, na boca quase me engasga, e aliás no ânus só lho dei a provar uma vez, e foi meter e tirar logo, que me ia fendendo e esgaçando toda por dentro e nas bordas, tendo eu precisado de levar dessa vez umas coseduras no respectivo retrocitado, das quais ficaram umas marcas que até fazem desenhos eróticos nas abas do mesmo, e são um convite aos desejos dos malandros perversos que mo querem visitar e render homenagem, saindo da bombagem com um ar de vaidosos marialvas capazes de, por excepção, me lamberem toda e me retribuírem prazeres normalmente vedados às senhoras de nariz arrebitado pela esquisitice de serem muito puras, mas os prazeres também se pagam e estes têm-nos unicamente quem os merece. Mas, como ia dizendo, levei um bofetão, seguido de outros, do Manuel da Figa, num dia em que ele veio tirar satisfações comigo por coisas do azar ou do acaso, e nunca de propósito, pois acontecem até mesmo à mais pintada!...
    Tudo por causa de uma vez num dia aziago, cheio de ventos ciclónicos e chuvadas torrenciais e gritos de desespero, havia raios e coriscos no horizonte, trovões de fazer tremer a terra toda... vinha ele dessa vez com pouco dinheiro, e eu só me vendo por boas maquias, isto é uma questão de princípio, uma norma da qual não abdico nem jamais abdicarei, eu não lhe vendi a mercadoria que ele mais desejava, todavia pu-lo apenas por compaixão a fazer-me um minete dos mais rápidos (que ele também adora, e muito!, mamar no grelo... com deslizes até ao cu!) que ele também gosta,  pois que a mãe dele não o deixou mamar nos seios o tempo suficiente quando era criança, coitado! ele ficou sempre muito carente de chupar uma mama e daí divergiu por arrasto para o grelo (sabeis o que é o grelo?, não sabeis? É o clitóris, ora essa, não há nada que enganar!), às vezes descuidando-se vai-me enchendo o ânus com a sua língua maliciosa...
A mulher dele, coitado ainda!,  é daquelas puritanas que acham que o sexo é repugnante, vil e pecaminoso, e só serve para gerar filhos saudáveis, quando o são, que é preciso temer muito a Deus para que Ele não nos castigue (isto é uma espécie de superstição generalizada... e ainda dizem que os bárbaros africanos e índios é que são supersticiosos), mas isto é mesmo assim, não há nada que inventar, pois enquanto eu lhe fazia uma punheta rápida ao Manuel, ele não tinha direito a broche artístico com todos os consagrados floreados ou grande empenhamento ou aquela arte superior que é chupar um pénis de palmo e meio, como seja um gelado da Magnum, ou da Olá, mas daqueles grandes e infindáveis, parecidos com um corneto catedrático, que nos põem a boca toda colorida, os beiços manchados de leite e creme, até o nariz, os queixos e a testa, enquanto, dizia eu - ele me fazia um minete com tantos arrebiques que saiu do afocinhamento com o bigode todo alvoraçado e desgrenhado, incapaz de assentar direito, a não ser com uma escova de piaçá untada de gel, enquanto, repito, lhe fazia uma punheta para variar, aconteceu, após esta cena, um imprevisto incrível!
Incrível,  não vai daí que, três dias depois, ele me chegou com o bigode carregado de chatos, dizendo que eu lhos tinha pegado por causa da chafurda azorrada, cega e impetuosa nos pintelhos cheios de cheiros intensos a rosmaninho e a chatos fedorentos... catapultou-se berrando que sou uma puta badalhoca ordinária sem o mínimo de respeito pelas pessoas com quem transo!
    Vinha irritado como um diabrete, capaz de desfazer-me toda, e então eu disse-lhe
- olha lá, ó seu ingrato, por mil paus, querias que te nascessem gambas no bigode?!
já não lhe falei do camarão da costa que esse é caro como o diacho, e então ele enfurecia-se ainda mais... levei foi depois de alguns gritos de ameaça, que não o intimidaram, um estalão de cair por terra. Dei-lhe outro que lhe fez tremer o bigode, e deixar cair mais um ou outro chato que ainda resistisse à criolina venenosa mal cheirosa que lhe empapava e embranquecia os pêlos acima da boca.
    Mas ele continuou a voltar aos meus braços voluptuosos, esquecendo a mais baixa humilhação que um homem pode receber por contágio vindo da mulher dos seus sonhos paradisíacos, e que foi pregar-lhes uma camada de chatos nos másculos bigodes de arraçado macho latino, e isto só pôde acontecer certamente porque a mulher que tem em casa, igual a essas que me chamam desavergonhada, é um cepo duro de roer na cama e fora dela (só fora lhe era garantido ter sexo do melhor), só comigo é que ele se sente ser um D. Juan, é esta a minha grande vitória sobre este mundo-cão onde injusta e incompreensivelmente sou rejeitada e por isso marginalizada.
    Só que das vezes seguintes, ele efectivamente já vinha munido de boa quantidade de notas, que não sou uma puta dessas rascas e ordinárias que por aí se vendem a troco de qualquer uva mijona... sou das de luxo, daquelas que se pagam caro, frequento as melhores e mais caras boites, porque o que é bom nesta vida é dispendioso, e não é para os dentes nem as unhas desses sovinas que andam por aí a miserar, a petiscar porcarias nas tascas mais ordinárias, nas camas mais enchiqueiradas onde a limpeza nunca entrou. A única coisa que me falta, e é isso que vou fazer num destes próximos dias, é comprar um apartamento de luxo, ou uma mansão onde possa institucionalizar um bordel de putas finas, e  onde os homens meus queridos amantes se sintam melhor do que em casa deles, porque o quarto alugado onde vivo, embora requintado, está situado numa rua escura e peca por ser um bocado antigo, e a mulher de limpeza é aldrabona que se farta, não servindo já a minha categoria de puta de luxo destinada aos requintes do Amor absoluto. Um amor proporcionado e premiador do aguerrido macho latino... este que mantém os genes dos conquistadores de Jerusalém aos infiéis, descobridor dos outros mundos que fecundou quanto quis e pôde, dando amulatados mundos ao Novo Mundo, este que só não foi à Lua e a Marte porque lá não há negros, nem amarelos, nem vermelhos para lancetar, fecundar, e matá-los se não se deixassem submeter e subjugar, santificando-os logo de seguida com práticas missionárias miraculosas. Por ser tão valente e másculo, é que ele merece uma puta de luxo como eu, que me orgulho de o fazer feliz. As mulheres, como vos digo, ainda têm muito que aprender e quanto mais lutarem contra ele, na conquista das igualdades virtuais, mais se esfarrapam todas, e mais se distanciam do paraíso... que não há dois paraísos, só há um, o meu até ver !

Gaia, Abril a Junho de 2001
 
 
 
 

 
 

5.
 

                                                             meu grande amor
 
 
 
 
ela era franzina frágil dócil como planta água marfim com dois traços de batom rubro carmim deixava-se beijar e beijava deixou-se beijar primeiro depois ensinou-me a beijar como prova de fogo
era planta ebúrnea de face rosa clara cabelos cor de azeitona tão bem quanto os olhos líquidos caracóis de caules cinza olhos amêndoas grandes boca carnuda de leves traços de livres contornos sensual como água de fonte fresca corpo de mulher seios pequenos cintura estreita graciosa larga de ancas não muito só o necessário mãos e pés pequeninos a pequenez da avelã
ela morava perto de minha casa eram palmos de distância falava pouco só o necessário o longo enfastia e cansa ela falava só o necessário e cativava
e o ardor o seu aroma era o das flores e plantas silvestres e eu não resistia à sua fragrância e seguia-a inebriante
os seus lábios pintados eram um convite ao sorriso e ao beijo fazia-a sorrir depois beijava-a eram lábios transformados em flores de nácar abertos ao sol seguindo os meus beiços desenhados e os meus olhos fulgurantes como girassóis focos de luz a abrir-se para apanhar a lua cintilante e refulgente da meia-noite
não tinha horas para me encontrar quando lhe acenava ela vinha quando me acenava eu ia a qualquer hora da noite fria ou do dia arfante não havia convenção no nosso amor não havia conformismo nem inércia era o amor feito arte a retesar sempre e cada vez mais a corda contraída a surfar na crista da onda a transgredir todos os pactos passados era o meu grande amor
mas a vida não é feita só de amor pobres de nós! e porque é assim ébrio fiquei no sangue o mosto e o fermento a lágrima contida nos olhos mais valia tê-la derramado ou ser pinheiro a sangrar resina calei-a no coração num sufoco de ausência até nunca mais depois da partida que se alongou para lá até ao limite de todos os limites
e veio outra vez o meu grande amor era igual à primeira mais madura por mais sol e lua eu também veio em forma de mulher renovada reeditada revestida de adornos cor de rosas escarlates e de fogo olímpico o beijo era mais longo as carícias mais íntimas e fortes era tudo mais intenso os êxtases arrebatadores e extensos como o desabrochar violento dos botões de flores carnívoras
quando nos tocávamos o sol era quente luminoso sufocante de felicidade e a lua respondia com um rasgo prateado de esquecimento e plenitude numa bebedeira de espanto e alegria era o meu grande amor e continuei a amá-la com o fervor do extremoso cristão até ao dia em que
veio outra vez timidamente à luz o meu grande amor vinha vestida de pele de leopardo porém perdida nela sem agressividade frágil e sequiosa como caule tenro e húmido da colina com ar de arisca de acesso difícil impenetrável mais distante que a última galáxia e amei aquela distância de fascínio quem diria?! e trouxe a proximidade à distância e amei-a querendo fundir dois corpos que nunca se fundem por isso ela amou-me algumas vezes outras nem tanto assim foi todavia desta arte que a amei até que a distância deixou de ser também proximidade e retribuí amando do mesmo modo não permitindo que todo o sentimento e o meu calor se fundissem no corpo dela era no entanto o meu grande amor amor de pedra preciosa girassol perseguindo-me com a natureza de tigre
já o confundo contudo foi aquele violento amor fogoso incendiado que numa noite arrebatadora com todos os sinos da aldeia a dobrar disparou do quarto e quis matar o seu companheiro repudiado? e entrementes a perseguia como canino com lábios felinos no encalço da forma da sua dona e na verdade só a forma! porque a sua alma e o seu corpo escultural já não lhe pertencia
foi aquele amor que se entregou mas ficou sempre preso irresistivelmente preso pelo medo e pelo trauma de ser entregue à diva que não o merecia? foi aquele amor que beijou como ninguém nunca mais toda doçura morango de várzea à beira duma fonte e perdição incêndio no sangue à espera de consumir a sede de deserto de corpos ardentes de desejo de fusão e imputrefacção! não há amor eterno que não se eternize na pedra na pedra sólida fixação de mármore!
com quantas aconteceu o mesmo? com quantas? já não me lembro confundo-as todavia! eram isto é era o meu grande amor
depois da confusão com um tempo que já era sem tempo ela voltou suave timorata sorridente olhos resplandecendo e espelhando a alegria da dança a desenvoltura da cadência dos ritmos ancestrais! tal como os meus quando abria a porta do mundo mágico que aureolava a fonte famosa da minha aldeia verdejante a olhar extasiada as papoilas da encosta e o mar que sua face alcançava com deslumbramento onde a água reverberava o esplendor da luz cristalina oriunda das profundezas da terra fresca fendida na rocha musgosa em forma de V e não amei por empatia como amei todas as outras
amei-a ainda mais porque precipitei todas as outras que amei nesta mulher
mulher que as encarna a todas e sente na minha pele e na minha energia no fogo do meu sangue rubro a forma e o modo como deve amar e ser amada e a esta percepção emblemática se molda e amo-a tanto tanto tanto que me fundo e ela se em mim também num resultado de mármore para ficar e durar até à consumação pela purificação do mundo
é o meu amor ressarcido e solidifica-se este amor na confusão e na fusão porque o amor é desta forma deste tempo e deste modo porque o amor é isto mesmo desta arte o meu grande amor
 
 
 

 
 
 
 6.
 
 
 

                                                                                                                                                                                   O RONCA

 
 
 
 

 

Era uma criança feliz, numa casa simples com uma eira, uma horta, uma capoeira, uma pocilga e um pomar, mais uma nesga de terra para plantar batatas, milho e feijão no tempo próprio. Uma ramada à volta, para extrair, depois de pisadas as uvas num lagar de pedra, uma aguapé bebível e com o tempo saborosa e apetecível. Sobretudo fresca. Tudo aquilo que o comum cidadão português aspira como base para o seu sustento, a sua autonomia e a sua felicidade.

O aqui protagonista, como tudo leva a crer pelo habitat natural e humano, nasceu e cresceu feliz. Primeiro filho varão de uma família de lavradores, que se bastavam pelos produtos do campo, tornados burgueses (com costelas de ascendência fidalga, assim dizia o padre da Afurada), burgueses graças à indómita garra empreendedora do seu pai que constituiu uma indústria de curtumes no tempo em que Hitler decidiu, numa campanha rácica sem precedentes, anexar os invejados territórios fronteiriços. Nesse tempo de triste e horrenda memória, além do volfrâmio que enriqueceu doidamente gentes das serras, as que queimavam notas a acender charutos, imitando os requintes dos reis do mundo, permitiu que a indústria de calçado começasse a expandir-se e a prosperar no fabrico de botas para as tropas de combate especialmente manufacturadas de atanado. O curtume era feito de casca de carvalho, que não faltava neste País, e a sua extracção empregou muito pessoal, que trabalhava de sol a sol para ganhar magros soldos para o seu sustento sem qualquer protecção social, nem essa era possível questioná-la quanto mais reclamá-la.

Há bens que vêm por mal, e vice-versa! A sua indústria prosperou, vendia-se tudo o que era fabricado, não se cuidava da qualidade, mas nunca passou da mediania. Ele também nunca sonhou com altos voos. Dominava o a laboração e o negócio, desde a compra, à produção e à venda - assim é que se sentia bem e senhor poderoso, embora a actividade industrial fosse bem rentável e suficiente para amealhar uma pequena fortuna, que deixou todos os herdeiros melhor do que menos bem. Pelo menos, deixou dinheiro suficiente para que estes nunca mais tivessem problemas económicos por mais azares que a vida lhes engendrou na forma de vigaristas ávidos dos bens alheios. Segundo as más línguas o grosso do dinheiro da herança sumiu-se com a sua morte, sem deixar rasto. Enigmas mal decifrados que não lembram o diabo, mas o dinheiro perde as almas! O Ronca virá um dia para acertar contas com o  pirata ou a mocha suspeitos, se houver justiça neste mundo e for verdade o que dizem, que nos custa a acreditar... no entanto, duvida-se pela certeza e convicção com que nos falam do desvio de valores consideráveis por parte de pessoas que faziam a escrita das transacções comerciais e passavam-lhes pelas mãos os depósitos bancários !

Nesse tempo, já lá vai meio século, havia arraiais pelas aldeias, adornados por enfeites e bandeirinhas multicolores. Entre pequenas barracas, algumas tendas a cheirar a sardinha assada e frango no churrasco, viam-se ainda noutras boas exposições de fogaças, regueifas, e cavacas recobertas de açúcar para venda aos foliões e aos simples lavradores e lavradeiras, investiam uma ou outra mulher ou homem com uma bilha coberta por folhas de parra, ao ombro, com água limonada, fresca, um copo na mão meio-limpo-meio-sujo para ser vendido à dose única, e eram feitas  fogueiras por onde se entoavam marchas populares... havia no ar cheiros a rosmaninho, alecrim e limonete, eram organizadas quermesses e rusgas, ressoavam pelos altifalantes cantares populares de toada alegre e humorística, sendo as canções de brejeirice as que mais agradavam às moçoilas na idade das cócegas no ventre e dos ardíferos estranhos nos sítios onde o mexilhão se abre.

Ouviam-se ecoando por montes e vales as músicas sopradas por grandes altifalantes: E o mar enrola na areia/ ninguém sabe o qu’ele diz/ enrola na areia e desmaia/ porque se sente feliz ! ou Maridinho, não me compres essas socas/ que me faz as pernas tortas/ compra-me antes um litro de vinho/ água fria faz-me mal/ isso sim,  maridinho! Ou cantadas as velhas, sempre novas e frescas cantigas: Alecrim, alecrim aos molhos/ por causa de ti/ choram os meus olhos, ou Ora aperta, amor, aperta/ ora aperta, sim senhor/quem me vai levar à festa/ há-de ser o meu amor ou Oliveirinha da serra/ o vento leva a flor/ só a mim ninguém me leva/ quem me leva é o meu amor... ou ainda Ó Rosa arredonda a saia/ ó Rosa arredonda-a bem/ ó Rosa arredonda a saia/ ela assim fica-te bem... ou finalmente Eu vi Àmélia num arvoredo/ cheia de frio/ cheia de medo!/ Anda comigo, Amélia vem/ qu’eu sou sozinho/não tenho ninguém !... Lindas canções de poetas populares que ficam para sempre na memória deste povo e com quem certamente vão-de morrer se um dia isso acontecer.

Era assim há meio século já passado. Pelas romarias na aldeia, a comemorar o S. João, o S. Pedro e o Santo António. A festejar os santos populares padroeiros, motivos e pretextos para as cachopas encontraram namorados, irem sozinhas com as mamãs e regressarem acompanhadas a trocar o passo com elas, procurando ficar para trás, bem distanciadas para poderem deixar apertar o que a vergonha escondia, furtivamente trocarem beijos, ou deixarem-se apalpar, que também disso se usava para abrir apetites só muito mais tarde satisfeitos, no momento em que eles já estivessem presos pelo beicinho ou na altura própria em que já iam comer nas palmas das suas mãos.

Um tempo que fazia lembrar as peregrinações. As de Lurdes, de Santiago de Compostela, de Roma, de Fátima. Ao sabor das trovas de amigo, ambivalentes, bissexuais travestidas, dado que é o poeta que poetisa como se fosse mulher, e em que ela, e não ele, chora a ausência do ente querido, do mais que amado... que parte para a guerra e deixa-a a coitar de amores, ou nunca mais vem...
E ela deseja folgar nas romarias e voltar acompanhada pelo garino atrevido, mas a seu gosto... ela desvaira-se pelas novas do amigo - o amado.
Ai, tantas coitas de amor, desperdiçadas pela ignorância do homem e pela sua perdição! Ela, que o espera, que tarda! Ela, que vai só e deseja ardentemente vir acompanhada...

Era um tempo único. De grandioso, para a pequenez dos nossos entendimentos, cerceados pelo círculo restrito dum ambiente aldeão, duas ou três coisas eram postas a ferver no nosso cérebro, além das lutas pela posse dos castelos feitos de torrões onde toda a vizinhança participava, espadas feitas com ripas de madeira em forma de cruz a assemelharem-se, acrescentadas às toscas zagaias, catapultas e fisgas...
Tempo ainda das descobertas das minas, onde no fundo os poços se escondiam para quando cheios com as águas extravasantes irrigarem as terras de regadio e cultivo, de grandioso era também a vinda do circo, e, finalmente, de patético no frenesi do medo, as narrações de uma ou outra lenda rocambolesca de lobisomens feitos diabretes.

Um Verão fui passá-lo ao Furadouro. Tomou conta de mim e do meu irmão a avó Glória-pêlo-na-venta, que nos deu a fome de matar ratos! Por tamanha poupança, como se fosse por estas artes mágicas de poupar em unhas rentes, ela arranjou uma pequena fortuna na estranja. Marido especializado nas oficinas de metalurgia, com os tostões todos contados, bem contados, assim não foi muito difícil arrranjar um invejado espólio financeiro que naturalmente deu para emprestar dinheiro a juros e comprar propriedades na aldeia. Uma pequena fortuna, da qual,  também nos fins de vida, por artes dum amalucado ceguinho ganancioso associado à mulher que de ganância menos não tinha, nada sobrou para os herdeiros... Alguns deles a precisar, outros não, que estavam laborando nos Brasis e nas Franças do antigamente de miséria neste País.

No Furadouro, tostei-me que nem um varino. Passava o tempo a ver o mar, as ondas enrodilhando-se na areia, como que com ela tivesse uma relação profundamente amorosa, jogava a bola com os camaradas, putos também, ia à apanha das camarinhas. Observava embevecido o mar, e quando se dava e iniciava a companha, olhava a faina com especial interesse... comparava-a ao amanho da terra, com vantagem para aquela, uma vez que comparada à sementeira, ao lançamento da rede sucedia logo a colheita: o saco pleno de peixe. Quando era!
Eles, os pescadores amanhavam o mar... O amanho da terra era mais longo, mais árduo, mais paciente... o amanho do mar, mais rápido, mais sôfrego e violento, produzindo emoções mais fortes. Mas além disso este era muito mais arriscado! A ceifa podia ser cifrada a zero, todavia... Em anos de más meteorologias, vários meses de trabalho lá se iam por água abaixo... e podia o produto do trabalho reduzir-se a coisa nenhuma, não havendo subsídios como hoje há para isto e para aquilo. Os riscos, quanto ao produto final, eram de facto iguais... mas mais perigosa a faina no mar, pois que alguns dos melhores morriam em tempo de tempestade violenta mal prevista sem porto de abrigo que os protegesse, e podiam sair em tempo de bonança e chegar em tempo de tempestade devoradora de equipas de pesca.

Pedi aos pescadores para os ajudar, um dia, no início da faina, e lá fui com eles para o alto-mar, quando estes me ofereceram um espaço para o remo. Aí fui no tumulto das águas sulcadas de Neptuno, e remei com todas as ganas, e voltei... o mar brando como um anjo. Os bois puxaram a rede... vinha cheia de peixe, especialmente sardinha, umas raias, fanecas e ruivos. O arrais ofereceu-me um cabaz de peixe. Nunca mais nos esquecemos deste episódio... Ele e eu. O meu pai ficou contente com a coragem demonstrada e com o espírito de solidariedade revelado. Quando os bois puxaram até ao fim a enorme bolsa de peixe, muita gente admirava e cobiçava os tesouros que aí vinham dentro. Peixe vivo, prateado, brilhante, fresco, saltitante!

Depois do Verão, voltei à aldeia para seguir a escola que se me habituara a estudar. Até ir residir para um colégio interno. Mas a aldeia, passados alguns períodos de acalmia e monotonia provocadas por sóis tórridos que inundavam as eiras, onde dormitávamos ferrados e aguilhoados de desespero e revolta, uma ou outra vez e ainda outra, por mosquitos frenéticos e zangões danados e ensurdecedores, ou aprisionados no tempo frio por geadas de coalhar os pés com frieiras, a aldeia, dizia eu, era uma cordilheira de expectativas. E novidades aconteceram, havia necessidade de acontecer, de presenciar espectáculos fabulosos. Havia que esperar por coisas espantosas, como estas, que vos vou contar.

Previstamente, o circo veio à aldeia, passou a vir sempre à freguesia. Quando aqui vinha, aparecia com uma imponência arrebatadora - era uma festa do tamanho do céu fantástico para a ganapada alvoroçada! Trazia grande tenda, jaulas com leões, elefantes, girafas, macacos, cães amestrados, tigres, e, para anunciar o fenomenal evento, faziam-se acompanhar de altifalantes que enchiam campos e vales com slogans e  músicas de enfeitiçar. Uma carrinha anunciava por todo o lado a chegada do espectáculo sonhado, vozes que feriam os ouvidos e endiabravam quem os ouvisse. Nem se pregava olho durante os dias que antecediam a bestial festa rija e o maior espectáculo do mundo, jamais visto, sonhado e desfrutado. Corríamos, quando se estavam a instalar, para a tenda grande, olhávamos os animais nas jaulas de barras grossas, perscrutávamos os gestos dos palhaços, dos domadores, das ginastas, dos putos que ajudavam a acertar ferros e madeiros... as roulottes abriam-se e fechavam-se, cada gesto era suspeito, era memorizado, era uma interrogação constante para descobrirmos qual era o móbil da acção, o efeito destes ou daqueles gestos e passos, imaginávamos os diálogos... até os inventávamos. E quando chegava o grande dia anunciado, abençoado, os corações batiam excitados de ansiedade.

Pagavam-se na bilheteira uns tostões que os pais desembolsavam, muitas vezes acompanhando-nos... também eles deliravam com o espectáculo soberbo e a alegria incontida dos filhos, netos e sobrinhos... procurávamos o melhor sítio, nem muito à frente para não sermos comidos pelos leões, nem muito atrás para ouvirmos bem a voz  dos palhaços e vermos bem os corpos esbeltos e as piruetas assombrosas dos e das trapezistas. Todo o espectáculo era visto com a boca aberta propícia à entrada da mosca, com manifestações de alegria, de ternura e simpatia, e dum imenso medo quando a selva subia ou descia à cena redonda e trémula de piscas multicolores. Todos os animais se pareciam com "o Ronca". Ouviam-se risos estridentes das figuras, sketchs e ditos dos palhaços... E adorávamos a música... havia sempre um tempo para ouvir os saxofones, vários, os acordeões e a concertina, e não faltavam as bofetadas do palhaço rico arrogante, fino e queque, dadas ao palhaço pobre, um coitadinho desgraçado mal vestido e roto, diabo-ladino que driblava o primeiro. Bonito de se ver! Um tempo nunca desperdiçado, aproveitado ao milímetro e ao segundo. Era um tal deslumbramento que até comprávamos no fim a fotografia de toda a trupe para a expor na mesinha de cabeceira ao lado das estampas desbotadas do benquisto S. Cristóvão, protector das criancinhas, e da angélica e formosa Nossa Senhora, que nos amparava nas horas do azar e do desastre.

Mas falta contar a estória do Ronca. O Ronca foi o terror da minha meninice, que a adolescência também retratou. O Ronca era uma espécie de lobisomem inventado pela minha avó, com quem o meu avô condescendia na sua existência com um ar de bonomia excelsa de homem um tanto ou quanto descrente. Só ia à missa porque não fazia mal a ninguém. Se bem não fazia, mal não faria.
O Ronca era uma espécie de mistura de leão vozeirão, fantasma tenebroso que aterrorizava toda a vizinhança, como um diabrete, com cauda longa, que se ria como porco maldoso, de chifres potentes pontiagudos dilaceradores de tão afiados e cauda de macaco rabudo... era como um adamastor danado que incendiava lugares e seres humanos, tal e qual como fazem os raios e coriscos nas noites tenebrosas... era mesmo ainda como o tubarão branco dos mares agitados e perigosos do fim do mundo dos mares do Sul... nem lhe faltava o tridente com que garfava a miudagem sem dó nem piedade! O Ronca era o terror de todos os meninos da aldeia. Quando ouviam algo que os surpreendesse, corriam para casa com um medo de perdição. Nem as alminhas, erigidas em cada canto e esquina do caminho e nos ermos dos vales, salvariam as crianças da morte certa, praticada com pedaços de membros atirados ao ar, num festival de calvário dez vezes mais horrendo que o de Cristo no Gólgota, ou Tântalo nos seus suplícios, ou as sádicas torturas dos tempos medievais.

Ele vinha de noite, o malvado, bater nas vidraças das nossas janelas... vinha escondido que nem um rato manhoso atormentar o nosso sono de meninos felizes, vinha finalmente arrancar-nos o coração, trincá-lo furioso, e logo depois fritar-nos a alma atirada para o inferno dos pecadores mais viciados e criminosos. Ai, Jesus, que só de pensar nisso me persigno, abrenúncio, que se me coalha  e enregela o sangue!

E a minha avó Glória pêlo-na-venta dizia estas coisas com a máxima convicção, parecia-nos... benzia-se, rezava padre-nossos e ave-marias, e salve-rainhas, num rosário de prata, sempre dedilhado... mal se ouvia, ouvia-se um sussurro, um português macarrónico, uma ladainha imperceptível, secundada pelo meu avô, olho pisco, quase sepulcral... e quando se levantava para ir à deita que se faz tarde, escadaria acima mandava um daqueles valentes peidos estrondosos que atroam como um trovão e fazem tremer a casa inteira de pedra e cal até ao sobrado... Até tremíamos de fraqueza, julgando que aquele som estrépito era a bestial saudação, mil vezes atafegado durante séculos pelo Ronca, que nos ia surpreender naquele noite tremenda de maus presságios e sinais de terror.

Minha avó Glória, pêlo-na-venta, pequenina como petinga no meio da sardinha espigadota, rabujava quando ouvia a troada anal das lassas e vergonhosas manifestações viscerais do seu consorte, e dizia: mas que fariseu sem vergonha!

Só, e pela benção de Deus, a minha tia Luísa amenizava dum modo beneficiente o ambiente, desfiando estórias de sapos e cobras, de minhocas e zangões... era uma delícia ouvi-la, quando à noite me deitava muito junto dela, bem encostadinho, de tal modo que surpreendidos, qualquer pessoa ficaria a pensar maldosamente, sem razões evidentes nem flagrantes... e então ela desbobinava o seu estorial de narrativas populares regionais... e eu adormecia embevecido pelas tramóias dos protagonistas de fábulas de encanto. A maior parte delas inventada. Tinha uma imaginação prodigiosa! Encostadinho e atento, de tal modo que uma ou outra vez quando o meu irmão vinha dormir me acompanhando a casa dos meus avós, aquela casa de pedra cercada de parra e uvas no tempo próprio, com um poço lendário empedrado tosco, com manivela e balde de soerguer, também ele ficava de ouvido à espreita, noutra cama, e roía-se de inveja por não estar no meu lugar... ainda de tal modo que transferiu para si, o interesse da situação, e passou a contar estórias aos miúdos e à nossa pequenina irmã, nascida dum segundo casamento do nosso pai, deleitando-os, exercitando desta arte a sua memória para a troca de anedotas contadas entre amigos. Fez-lhe bem esta danação muda... passou a ser benquisto e solicitado pela miudagem e pelos companheiros escolares e amigos da família. Só muito tarde, há pouco tempo soube deste segredo. Um segredo guardado durante quase meio século... é tempo de respeito! Naquilo que ele se tornou de bom, passou-me a mim indiferente. Que revolta de repente me assolou! Raiva que contive, por compreensão, mas fiquei durante tempos com a garganta seca. Não era possível! Eis como a natureza se vinga, sem notarmos as tensões alheias, estando tão perto de nós... Sem que eu nada tenha feito para os seus recalcamentos. Que revolta, dá-me vontade de o engolir vivo! Salvo seja!, que não é mais que uma hipérbole...

Um dia houve, que não mais me deixou direito, pois o susto foi para valer. De volta da casa dos avós, bicicleta entre as pernas, o Nero a acompanhar-me por ser a protecção maior encontrada entre os amigos, depois de ouvir as estórias medonhas do Ronca que andava à solta e a papar meninos, dei-me ao caminho desta vez pela estrada, pois era onde a bicicleta rolava melhor e mais rapidamente.
Agora reparo: falei-vos do Nero. O Nero era o cão fiel, o ladino, o inteligente, animal capaz duma brandura e carinho inauditos, feroz quando ameaçado, autêntico leão amestrado para lutar contra as pedradas dos ganapos, que se escondiam na giestas e tojos dos montes, e atirava-se a eles sem dó nem piedade, esmigalhando tudo o que era perna, esfarrapando tudo o que era trapo de calça ou calção... Era um combatente destemido, uma fortaleza inexpugnável para defesa dos donos frágeis, meu irmão e eu. Um cão assim nunca se esquece por mais anos que vivamos à flor desta Terra. Morre connosco. Com a nossa memória e quiçá com a memória que conseguirmos transmitir aos nossos descendentes, por ventura aos leitores que aderirem à imagem que transmitimos no percurso de desconhecidos mistérios, que só a Natureza poderá determinar e os homens inteligentes decifrar.

Atravessámos a primeira ponte, continuámos até aos charcos , e em aí chegando, rebentou subitamente um grito estridente, um trovão de milhões de gritos agudos capazes de estilhaçar vidraças e perfurar tímpanos, era O RONCA que nos vinha desfazer em trapos, a nós, perfeitos de toda a candura, que desgraça!, pobres indefesos, criaturas angelicais de Deus... caí, acto contínuo, da bicicleta, mas o cão levantou-me, focinho feito alavanca... perdi os sentidos entrementes e caí novamente... quando acordei, dei pelo cão a lamber-me a cara, e ouvi então o coaxo estridente, um enorme coro de milhões de batráquios, mais que as mães!, um barulho ensurdecedor... O cão acabara de ganir, agora mexia o rabo de contente porque eu tinha acordado e dado sinais de vida!... depois de calcorrearmos com a bicicleta ao lado, empurrando-a, durante alguns metros até estarmos novamente refeitos do susto de morte, pus-me em cima da bicicleta a pedalar, como um autómato a cem à hora... e foi um ver se te avias, numa louca correria até à casa paterna. Estavam os nossos pais apoquentados pela vinda tardia do filho querido. Ao contar-lhes o sucedido, eles arrepiaram-se de incomodidade e inquietação, e disseram que o Ronca estava era dentro da cabeça das pessoas... que elas precisavam de Roncas para se estruturarem melhor na sociedade e balizarem as áreas do espírito e da emoção. O Ronca fazia parte estrutural do medo das pessoas nas contingências das vivências quotidianas... contra eles, todos os outros roncas, tinham de precaver-se diariamente. Mas disseram isso sem convicção nenhuma, e eu fiquei a saber que eles também temiam a noite e os mistérios que ela alberga, porque a crença não se perde num dia, nem em meses, nem em anos.

O Ronca continuou a atormentar a criançada da minha aldeia... e de vez em quando faz das suas... surge sorrateiro de dentro do escuro da noite e ronca e atira pedras, distribui bofetadas ao Deus dará... e um dia, vejam bem, até um miúdo apareceu misteriosamente degolado com sinais evidentes em todo o corpo de sádicas torturas... um acto de malvadez inédito nos anais da terra... coisas que aos miúdos eram vedadas saber em pormenor ! Depois de selvaticamente violado, sodomizado e esganado. O Ronca foi o culpado declarado, por artes de belzebu, e nunca foi castigado, a não ser por Deus, que o enforcou numa figueira, mas sem ninguém por perto para ver... Contudo, sabem que mais?, o filho da mãe renasceu, porque a maldade não morre. Soube depois que ela não morre, e quem é maldoso, mau e cruel, nunca deixa de o ser... Pode é disfarçar-se enquanto é perseguida, a maldade... À mínima desatenção, o Ronca reaparece para amaldiçoar, atormentar e violentar os meninos da minha aldeia. Mas eles estão mais atentos hoje, estão mais avisados, mais despertos, porque a noite é menos noite na aldeia que me viu nascer e me revigorou tantas vezes o sangue e a alma contra as torpezas da sociedade malsã. Ainda malsã !
 

Ago/00

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7.
 
 

 

                                                                                                                                        A BILHA DE BARRO FRESCO
 
 
 

 

A bilha fresca de barro castanho foi o segredo inacessível e maravilhoso que nos uniu durante toda a vida e dentro dela estava um tesouro, que nunca se quebrou e fazia lembrar a lamparina mágica dos desejos, nem nunca foi roubado, mas, entrementes, era partilhado e continua a sê-lo, mesmo quando a morte nos separar a todos.

Lamparina mágica, de onde não saía o fumo que se transforma em seres ou objectos que enchem o imaginário humano de heróis ansiados ou riquezas cobiçadas e apetecidas, mas uma bilha de barro, donde se bebia uma água pura, cristalina e fresca, que alimenta e revigora as veias do corpo, o refresca, o retempera para poder melhor suportar as agruras do quotidiano e à noite acalmar o homem para os sabores repousantes do descanso e do sono. À espera da bilha, estava sempre ansioso, o nosso pai.

Não sendo um homem político propagandeado, nem era esse o seu desejo ou sua ambição, o nosso falecido pai era consciente e zeloso dos seus deveres cívicos e manifestou-os em dois momentos cruciais, que se forjaram para derrubar a ditadura salazarista. Ele fez-se a pulso, um homem de sucesso comedido, sempre controlado e calculado, a quem a vida castigou desde a meninice, puxando os bois à frente da carroça, de Ovar ao Porto, trinta e cinco quilómetros, ida e volta outros tantos, fustigado por vezes por intempéries de encharcar os ossos, para levar produtos do campo à praça da cidade, homem feito do e para o trabalho e a quem só a morte veio dar a serenidade dos que não têm tempo para parar e repousar, ou gozar uma horas de ócio e espreguiçar-se.

Homem de poucas palavras, terceira classe feita a preceito, mas de grande estatura, diria que este aspecto equilibrou os outros, porque se impunha pelo porte. A ternura nele não era visível, era, sim, manifestada por sinais e preocupações, que a fisionomia cambiante não deixava iludir. Tinha o jeito do líder nas tarefas produtivas. Porque os chefes imitam o chefe supremo da Nação e este era ditador. Não era preciso que o fosse, isso é óbvio, e melhor seria que o não fosse, porque para o seguir bastava que se lhe seguisse o exemplo da afeição ao trabalho, trabalho esse que tinha como objectivo o conforto do lar e o poder de ser independente e de se orgulhar de o ser.

Recordo-me que foi político, sem que alguém o tenha notado, uma vez que detestava o exibicionismo e a vaidade calculista por temperamento e carácter. Seguiu de perto e financiou anonimamente os movimentos e as campanhas de Norton de Matos e Humberto Delgado e apercebi-me dos desgosto e a amargura por estes não terem podido derrubar o regime. Queixava-se então do poder dos monopólios, das oligarquias, instaladas de pedra e cal no poder político, que sustinham as naturais aspirações da pequena e média burguesia, melhor dizendo: dos empreendedores, que poderiam fazer prosperar o País de então, tão pobre quanto tacanho. Um País asfixiado cultural, social, económica e politicamente referenciado.

A acrescentar a esses sinais de homem consciente das suas responsabilidades cívicas, era sobretudo e especialmente alguém que adorava as coisas simples da Natureza, e os aspectos não só humildes como também os exuberantes do convívio social.

Os seus três filhos receberam dele esse amor pelos cambiantes da Natureza e pelos seres humanos. E não só! Também pelos animais domésticos e selvagens e pela flora...

Apesar de não ser muito comunicativo, não lhe faltavam amigos, que o apreciavam e lhe davam provas inconfundíveis de estreito carinho e afeição. Gostava de os receber em casa, de lhes oferecer nela o melhor que podia arranjar na horta e na capoeira ou no curral, depois de primorosamente confeccionado, e os amigos retribuíam-lhe estes indicadores de apreciada amizade. Foi industrial e camponês ou talvez o inverso, pois que nasceu camponês, criou e constituiu uma indústria e morreu camponês, tal era o seu amor à terra e a tudo o que ela produz.

Nós fomos criados, imitando e assimilando dele esse amor e essa atitude face ao mundo. Meninos ainda, o meu irmão e eu pegávamos na bilha de barro, redonda como uma cabaça, castanha, fresca, com uma pega robusta e, obedecendo ao seu desejo manifesto, íamos enchê-la à fonte do Chideiro, que distava cerca de um quilómetro de casa, aí a enchíamos aproveitando folhas de árvores para fazer uma bica. Era a comunhão plena com a natureza pródiga. A água jorrava de fonte natural escavada no rocha em forma de V. Era uma água fresca e límpida, como tudo o que aconteceu depois da criação do mundo. Aí parávamos para descansar da caminhada feita entre matos, tojos e silvados do monte, que tínhamos de subir e descer, ladeados por tocas de coelhos. O sussurro da fonte, os chilreios dos pássaros e o vento sibilante, como uma cordilheira de SSS, traziam-nos então a sensação de que também éramos terrenos e desfrutávamos dos prazeres da terra, em perfeito estado de beleza e felicidade.

Nesses percursos havia sempre vozes que nos chamavam para explorarmos os rincões, que ladeavam as encostas em redor da fonte do Chideiro. E íamos à descoberta.

Tínhamos já saciado a sede com a mão aberta, transmutada em concha e perscrutávamos a flora. Aí encontrávamos morangos silvestres entre a erva humedecida. E se eram bons! E se nos deleitávamos com o fruto suculento de tais frutos, crescidos com o húmus virgem da terra...Alimentados pela natureza rude, pura, imaculada. E nas encostas íamos à procura de outras delícias: as amoras dos silvados e, nos arbustos, os medronhos, que aqui e ali aconteciam.

De regresso, com a natureza em festa, espectáculo único e oferecido pela flora e pela fauna que nos circundavam, trazíamos a bilha de barro fresco, ora eu, ora o meu irmão, ora os dois com um pau de suporte entre a sua asa e chegávamos a casa, onde o nosso pai a recebia sorridente e introduzia num poço para içá-la quando fosse necessário retemperar a sede e o calor, que as estações mais quentes convidavam a cuidar.

A bilha fresca de barro foi o segredo que nos uniu durante a vida e dentro dela ficou um tesouro, que nunca se partiu nem ninguém teve a ousadia de roubar, foi sempre partilhado e continua a sê-lo, mesmo quando o fim do mundo nos separar a todos num adeus de amor pleno, ao som de um hino de fantasia. Porque é de sonhos que vivemos quer queiramos quer não, neste mundo de realidades virtuais. E como é bom, empolgante e arrebatador sermos assim como somos!...

 
   

 

 
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8.
 
 

 
                                                                                                                                     A ESCOLA DA IGREJA
 
 

 
 

  Dracon escrevia com sangue (dizia-se). Foi uma ideia que sempre me seduziu: escrever com sangue. Tenho-o a jorros; nunca me faltou. Mesmo quando me abriram do pescoço ao falo. Por isso já me lembrei de comprar uma seringa e sempre que escrever sobre a vida, extraí-lo duma veia com uma seringa, vertê-lo num tinteiro e molhar nele a caneta de pena na ponta. É isso, usá-lo neste penoso e deleitoso acto de escrever, armado também dum mata-borrão, igual àquele que usava quando criança na Escola da Igreja.

A minha Escola da Igreja foi o local da aprendizagem virginal. Era uma Escola do lugar da Igreja, por estar ao lado desta, apenas separada por uma estrada e distava da casa paterna cerca de dois mil metros, ligadas por um carreiro sinuoso nas ladeiras de dois montes, calcorreados quatro vezes ao dia, duas de manhã, duas de tarde. Da professora, lembro-me apenas dos seus enormes dentes, do seu temperamento irascível... Gritava que se fartava, ou que Deus a dava e era surda ou nós é que éramos mudos, já não sei bem qual das duas coisas era mesmo a verdadeira. Sim, também éramos todos surdos, porque tal voz estridente, depressa apressou a nossa surdez e ela surda ficou com o eco dos seus gritos. Aliás, a sala era feita de paredes grossas de moledo, cimento e cal. Eram mesmo muito grossas... deviam ter séculos de existência. Devia ser Romana aquela Escola, como algumas calçadas que levavam a ganapada, até ela.

Porém, apesar de ser uma Escola de surdos mudos, excepto a voz troante da mestre-escola, ela era quente de Inverno, por só ter uma janelinha de respiro, uma porta da espessura duma mão e era fresca no resto das estações do ano. A proximidade da Igreja de ínfimas características romanas na sua estrutura de base, depois erguida para o céu na época renascentista, ornada no interior de ouro e meias colunas na época barroca, cheia de Santos, Cristos e sua mãe e apóstolos, revestida de azulejos preciosos na época romântica, era um presença constante, omnipresente, protectora de Deus, que nos abençoava todos os dias, fizesse sol ou chuva e dava-nos a sensação de que éramos uns anjos purificados por tanta generosidade divina.

Nas festas religiosas e até semi-pagãs, os catraios aprendizes eram arrebanhados e colocavam-lhes asas com alfinetes grossos e laços, para que não parecessem uns anjos, mas fossem mesmo uns anjinhos de Deus nesta Terra, cheia de vícios e propícia a seguir, com uma fidelidade canina, as tentações do mafarrico, que andava sempre atrás de toda a gente com cornos e tudo, língua de palmo e meio, a picá-la e a rir-se com um louco de rabo compridíssimo no ar...

A Igreja, essa sim, é que era gelada junto à porta capital, virada a norte e por ela entrava uma corrente de ar, capaz de levar ao cadafalso qualquer fidalgo de orelha no ar, que por lá se pespegasse a dominar os dorsos dos fiéis humildes, que ajoelhavam nas mármores do chão também glaciar. Era lugar de culto e não de luxos, que ali não tinham cabimento, como convém...era e ainda é uma estrutura agora altíssima, pequena para tanta prole de prosélitos, cuja porta era e é grande enorme pesadíssima, feita de madeira exótica, provinda do Brasil e que tinha e tem ainda pelo menos meio palmo de espessura. Ao entrar as pedras eram frias e gélidas e sem querer éramos impelidos pelo desconforto traseiro, para o altar, para Deus e a Santa Hóstia, cujo espaço tinha um palco, como o da Escola, e dos lados duas reentrâncias, onde caberiam vinte pessoas, apertadinhas para aquecer. Era junto à porta capital, pois haviam duas laterais e outra de entrada para a sacristia, que nem sempre se abriam, que os mais impenitentes residiam domingo após domingo e penitenciavam-se assim de tanta impenitência semanal. Todavia, nós anjinhos de Deus, para evitar o frio íamos para junto do altar e ficávamos pertinho do Nosso Senhor, que nos estava constantemente a acenar e a abençoar.

Descrevendo melhor: é uma Igreja completa, altíssima que chega ao céu, e, embora pequena para tanta fidelidade e além das duas portas laterais, possui por cima quatro janelas, uma sacristia lateral virada a nascente-sul, incorpora grandes e faustosos candelabros de cristal, muitos santos, em vez do retrato do homem seminarista da Escola, dois pequenos altares, uma Senhora bordejada a ouro em altar-mor, que é a adoração do único Deus que é conhecido e seguido pelos conterrâneos.

Contudo, a Escola. A Escola era o local da nossa aprendizagem virginal para o bem e para o mal e aí começámos a conhecer a índole de todos nós. Desde cedo, começámos a dizer: nós os de Aveneda, nós os da Relva, nós os de Pereira, nós os da Igreja. A dividir o indivisível, a imitar uma lógica algébrica inaplicável. Mas assim era, ensinaram-nos deste modo nesse tempo.

O exterior da Escola era duma pobreza franciscana. Todavia, ainda falta falar-vos da decoração interior: uma cruz à frente, um retrato ao lado, duas estampas grandes nas paredes esverdeadas e sujas; o retrato ficava ao lado da cruz e lá estava um homem bem parecido, com marcas de seminarista, cabelo bem penteado plasmado com risca ao lado direito. Era a imagem do homem de sucesso todo poderoso omnipotente. Havia um quadro que era um encanto paradisíaco, pois mostrava um homem a trabalhar no campo, enxada na mão, mangas arregaçadas, forte saudável com dois miúdos à distância todos alegres e felizes, uma mulher a colher tronchudas volumosas, um cão rafeirito de olhar ladino. Tudo nele era um encanto que Deus me livre! Um outro quadro mostrava um jovem fardado, rapaz bonitão, másculo e musculado, com uma quina nacional na camisa de manga verde e um S no cinto preto. Era um exemplo glorioso da mocidade feliz e disciplinada. Fechados cerrados por aquelas paredes medievais, autêntica fortaleza, a hora de recreio era o gozo da nossa vitalidade e escape da nossa agressividade. E jogávamos à bola, ao berlinde, às escondidas e ao peão. O jogo do peão era o meu favorito, do pequeno peão rafeiro, passei depois a usar um peão todo nobre com um ferrão de cobre capaz de furar um pé descalço; era grande e caro e galava e escaqueirava os outros peões artesanais. De tal modo que se eu era um aselha nos outros jogos, nesse era temido e tinha poucos e acabrunhados adversários, ávidos de vingança. E quantos mais traziam, mais pedaços escaqueirados ficavam no pátio térreo. Era uma dor de alma, tal espectáculo! Ah, já me lembro. Havia outro também engraçado: era o jogo das estampas dos cromos dos jogadores de futebol. Fiz depressa a colecção em álbum próprio. A mão configurava uma concha que, com trejeito instintivo, proveniente da mão do meu pai, virava com facilidade as costas dos cromos. E quem as virava, ganhava.

Havia, contudo, cenas agressivas e recordo uma que me encheu de cólera e de castigo, já não sei exactamente porquê, seria um insulto, uma desforra, mas na resposta instintiva e improvisada, peguei na pena afiada, fiz dela um punhal de acrobata e lancei-a ao rabo do pobre companheiro, que era chamado ao quadro preto. Estava descalço, como todos nós, e a pena em vez de alvejar uma nádega, ficou espetada num calcanhar, como uma seta e enquanto ele caminhava a pena ia com ele bamboleando para riso e gozo daquela ganapada delirante. Foi o cabo dos trabalhos, caso bicudo de se resolver para a mestre escola toda dentuça. Mais uma vez arreganhou os dentes cheios de raiva, soltou um grito agudo todo trovejante e pôs-me de joelhos toda a santa tarde em frente ao quadro preto, mais preto que uma noite carregada de breu. Penitência... Penitência era o que me não faltava, praticada com fervor na Igreja ao lado do altar-mor, pelo que os meus joelhos aguentaram que nem Cristo na cruz!

Acabada a aula, autêntica jaula de macacos domesticados, aí vinha a rapaziada, revoada de putos de volta a armar traquinices, que não vos diga nada! Emboscados nos pinheirais, a coberto do tojo, dos fetos e da giesta, atiravam pedras; havia perseguições e rixas com ameaças de esfaqueamento e tudo. Era uma alegria! Era a aprendizagem do mundo humano que nos esperava no futuro, filhos de um só pai, tal pai tal filho, e aprendemos com jeito a lição. Só quando o Manel e eu atingíamos o fim do carreiro entre os dois montes, é que calçava de novo as botas e punha o tramelo ou laço, que a minha mãe, com muito carinho e vaidade me colocava ao pescoço antes de sair de casa, na caminhada penosa para a escola. Mas logo à saída, no outro dia, junto ao poço da mula do Melenas, descalçava-as, tirava o tramelo para parecer igual aos outros, meus semelhantes. Só assim me sentia bem e as botas levava-as a tiracolo, tramelo no bolso e lá era um entre os demais tão bom ou tão mau como eles, que era para a aprendizagem ser completa. E foi.
 
 
 
 

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9.
 
 

 
 
 
                                                                                                                                    O PRETÉRITO TABU
 
 

Contar estórias acerca dos meus semelhantes, é também falar de mim. Como posso falar dos que me rodearam, sem falar do elo que nos une, como um cordão umbilical ou sem falar do modo como a vida nos uniu? É preciso, sobretudo, falar de mim e do outro, para que tudo fique claro, cristalino, límpido e lúcido. Só nos alienamos, quando se é tão impessoal, que a mente passa a ser a dos outros, isto é, uma interiorização do exterior, uma exogenia e não uma exteriorização do nosso imaginário na forma de endosmose.

Com efeito, na existência humana há os que a encaram com uma dose excessiva do que captam e copiam dos outros semelhantes e há os que medem tudo pela pujança do que está contido no mais íntimo do seu ser, contido nas entranhas do barro que se lhes moldou, individualizado até ao limite de todos os limites; estes são os homens de antanho, que possuem muita originalidade (que não é narcisismo), que contêm amor próprio e auto-estima em doses maciças. Tudo nestes é ressonância exterior e não eco. "Cada um nasce, como cada qual" lá diz o rifão que gira na boca do camponês, quantas vezes rude, só porque se assume de corpo inteiro, todo o seu orgulho exposto a todas as contrariedades, embora algumas vezes oscile entre o exercício de ser um cidadão comum e outro que é apregoar-se um homem provindo da linhagem dos sete costados.

Tudo o que há em mim irradia da natureza, depois de transfigurada pelo filtro da minha auto-estima e a presunção é um artifício que a natureza não comporta. Ou se é e se assume, com toda a força que nos vai na alma e então é a própria natureza, que fala por intermédio reverberado de nós, que somos médios, mediáticos, ou se entra na imagística do artifício, que é o que a mente forja e já se extrapola para o outro lado de nós e da nossa individualidade.

É que de facto não posso dizer nada dos outros, sem falar de mim pela minha singularidade e esta é tão forte, que não a posso dissociar deles e da sociedade envolvente, do modo como a vejo e a encaro quotidianamente e da projecção que o meu "eu" verbera até chegar aos outros.

Tudo o que foi dito, vem a propósito da estória do meu pretérito tabu. Do preconceito que me acompanhou desde a meninice até à idade muito adulta e só esta conseguiu distingui-lo, cerceá-lo, individualizá-lo, pô-lo de lado, arrancá-lo como quem arranca uma erva daninha com uma raiz dos diabos, infiltrada até ao centro da terra ! Um erva daninha que se coloca em cima da mesa de trabalho e se começa a observá-la, a notar os contornos, as suas imperfeições, as suas cores e os seus odores. E foi assim que um destes dias descobri, como uma aparição milagrosa, todos os sentidos num alarme de espanto, que tinha dentro de mim com uma raiz dos demónios, um tabu do tamanho do universo e nunca o tinha notado, por mais incrível que pareça ! ... E este tabu era que só tinha uma mãe, unicamente aceite como legítima, quando na realidade tive três mães, filho de um só parto, que, por acaso, só uma conseguiu conceber.

E assim vivi, anos e anos a fio, desde o fim da minha infância, a mais feliz à face da terra. Vivi depois a esconder o que me ia na alma, no mais íntimo do meu ser. Com três mães, todas elas diferentes. Sem o dizer a ninguém. Era o meu tabu. Sem o discutir, sem me abrir com os outros. A mãe natureza era e foi sempre aquela que me ligou fortemente à terra, que me prendeu ao torrão pisado, tocado, apanhado e moldado. A terra era como o barro, que o artista molda e transfigura. Dela fiz casas e coisas e seres verosímeis, e por isso também criei da terra e do caulino substâncias e formas, todas tão verosímeis que as achei belas, como foi a criação do mundo e o seu big-ban. Também por conseguinte, fui mãe, como Deus foi mãe, criador no mistério que nos circunda. A mãe natureza, deu-me, deste modo, o privilégio de ser igualmente progenitor/a. Hermafrodita, como Deus.

Desse amor pela natureza, tão certo, tão puro, tão intemporal, nunca decepcionante, nunca traidor, houve outro tão grande como esse, que foi o amor pela minha mãe biológica. Mas não foi este tão puro como aquele, porque, como tudo o que faz parte do artifício social, a pureza é maculada de imperfeições, de preconceitos e incompreensões. Do artifício social. Da arte e do ofício social. E assim voltamos ao início, ao ponto fulcral da estrutura e da conjuntura social, vivido, experimentado, temporal, periódico. Não deixamos, nunca deixamos de ser humanos e por conseguinte incompletos e defeituosos, pois falta-nos a luz total da visão cósmica. Bons, maus, melhores, piores, a melhorar, a piorar, existimos à procura de certezas universais. Quer a aprender pela positiva, quer pela negativa. E o tempo vai-nos ensinando que a sabedoria está no amor absoluto, mas até lá o desamor pode ser um estado pelo qual um boa ou má parte de todos nós tem que passar. E se assim não fosse, a comunidade universal seria tão perfeita como a miragem do paraíso...que é um sonho e por ser sonho, também é possível de se concretizar. Disse-me um dia um filósofo, estudioso das coisas sobrenaturais, que "o mundo está condenado a ser feliz". "Mas quando atingiremos esse estado de graça?" perguntei-lhe maravilhado com os termos contraditórios na força da ideia subjacente, e ele respondeu "Quando não sei, mas que está, está".

E é preciso acreditar. E há-de sê-lo. Senão a vida não faz sentido na terra, ou mesmo que faça, não é este o que o nosso íntimo mais aspira e ambiciona. Não é certamente para a maior parte de nós. Alguns vivem da força do mal e são poderosos. Mas o bem há-de vencer um dia, por mais ou menos futuro aparecido, seja ele qual for, nem que seja no apregoado apocalipse bíblico, também um acto genuinamente purificando. Como o fogo e a água...Estes são os símbolos da purificação e podemos ser nós a usá-los para nos purificarmos ou podem ser eles (tão vivos eles são!) a usar-nos para nos purgar. Os desígnios de Deus são insondáveis e os mistérios da terra, invislumbráveis são. Como aliás tudo o que existe dentro e fora de nós.

E rodamos, todavia, à volta do meu tabu: só tinha uma mãe antes e depois do fim da minha meninice e só há pouco tempo, na recta final da minha vida, descobri que tive, que tinha, que tenho três mães. Afinal um homem afortunado... Porque o tabu era tão forte que não consentia ser questionado e fiquei assim prisioneiro, tanto tempo (quase uma vida inteira) martirizado, quando tudo era tão simples, tão imediato, tão fulminante: aceitar três progenitoras, todas elas amando-me de igual modo, sem que eu correspondesse a tanta generosidade e não as aceitasse da mesma forma em parceria.

Eu tive três mães: a mãe terra, a mãe biológica, confundida com a mãe natureza e a mãe adoptante ou adoptada.

E agora que o tempo já é pouco para viver, pois ele esvai-se com velocidade meteórica, à medida que o fim corpóreo se aproxima e que também e esse sim será o meu apocalipse ( a minha purificação), acho mesmo que unindo-as todas, com amarras de espremer, todas elas são a mesma mãe, porque ao se sumariarem, uma dá à outra ou umas dão à mesma a característica ou a qualidade que lhe faltava e , desta arte, a mãe que tive e tenho, dispersa em três, só é uma e é a mais perfeita que alguma vez pôde existir à face da terra. E só agora sou feliz finalmente em toda a dimensão do ser humano! Que pena ter vivido uma vida inteira sacrificado, quando esta descoberta tão simples e evidente, nunca por mim fora descortinada anteriormente, só por causa de um tabu consumido na lentidão de dias e dias parcelarmente aproveitados, mas que poderiam ter outro rumo e outra orientação, quiçá mais plena de amor e mais esfuziante de alegria de viver...

1994

 
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