.
.
2
lembro-me do pai.
Estendido no chão, coitado, enorme, à espera do caixão!
E eu pensei : tão forte, homem... e também morreste!
e vituperei
- tirem-no do chão,
porque ele não morreu caído. Este homem levantou-se sempre
por si mesmo, é como as árvores que não admitem
que se morra deitado. E o caixão
veio logo, trouxeram-no, não antes de perguntaram
- quer um caixão
de 20, 30 ou 40 contos
- quero o melhor que
haja neste mundo, ele merece o melhor
e merecia. Trabalhou
como um desalmado para ter uma velhice descansada, para morrer como um
herói na súplica da imitação da
integridade dos homens de antanho
- vistam-lhe o melhor
fato, penteiem-no, que vá como um chefe
e foi .
. *
a mãe Joaquina,
duas lágrimas nos olhos, vidrados, excrementos enxaguados e limpos,
bela, sem ossos, que a doença carcomeu antes
do tempo, à espera do milagre
na forma de um grande alguidar, cheio de gemas de ovos, que a livraria
da morte ao devorá-las, ela
tinha esperança nas gemas
ovíparas que lhe trariam o cálcio da eternidade, mas desistiu
quando tomou conhecimento da sua
precaridade, da esperança
vã na eternidade, uma esperança que a alvoroçou durante
dias e dias, e que a todos punha pasmados,
extasiados de tanta fé,
mas logo a seguir veio a desolação, uma desolação
incrivelmente doentia, pungida e pungente, macilenta que
incomodava, irritava, até
sangrava qualquer expectativa latente congelada, uma expectação
em coma, uma confiança amorfa, à
espera de uma revelação
que estivesse escondida nos astros, oculta nas estrelas e nos cometas,
mas nada sucedeu de anormal, contra
toda a aura gerada nesta aflita
convulsão, nada sucedeu a não ser uma lenta agonia, com períodos
cada vez mais curtos de lucidez,
foi esta a última a morrer,
só morreu quando o coração parou por completo, nesse
momento expeliu tudo o que tinha para oferecer à
morte
foi naquele momento que te deste
conta da precaridade da Vida, quando esqueceste as gemas da salvação
pelo calcário
a Vida sendo precária é
uma viagem num corpo feio, bonito, torto, direito, pequeno, grande, médio,
mais imperfeito, mais perfeito, a
que a alma se molda, dele tem de
gostar, de se adaptar com mais ou menos resignação, nuns
orgulhosamente, noutros abnegadamente
aparecer assim num ovo, num óvulo,
encascar-se com pele, poros, desenvolver potenciais órgãos
a procurar a sua forma programada
num tempo perdido no tempo, com
características do pai, da mãe, dos avós, às
vezes desenterrando um olho verde que já se tinha
consumido há quatro gerações,
um cabelo louro dum normando por aqui deslocado numa viagem de aventura,
de ambição ou simples
procura de subsistência
aquele corpo amorfo pouco depois
com pernas a pontapear a barriga da mãe, gérmen do ser humano
que continua aos pontapés pela
vida fora
deste-te conta de tanta precaridade
e desististe
.
Mas é
a Vida que vence sempre no fim. A Vida iniversal. Se assim não fosse
não andávamos há séculos à busca dum
elexir. Esse
elixir da longa vida é o
protesto das gerações insatisfeitas, que acumulam a conjura
da morte no obscurantismo do mistério. Não
existindo morte, desapareceria
o enigma, este anular-se-ia pela sua inexistência. O cérebro
humano não está pronto para entender a
metamorfose e só esta é
capaz de entender a Vida. Anotem-se, reforcem-se os símbolos da
Vida: o Sol, a Água, a Terra, o Ar e
construam-se para eles os altares
da glorificação, da festa permanente, os palanques das exibições
espectaculares, as molduras da
realeza, da santificação,
para nos insurgirmos contra a danação aplicada a Adão
e Eva. É um protesto impenitente, impertinente,
mal educado, até ao fim.
A morte não nos merece a mínima consideração,
a mínima reverência, ela é o contrário de toda
a
excelência. E é bom
que se mantenha acesa esta vela (se não o fizerem tanto pior para
todos nós), este facho que acendo em cada
pessoa, porque é desta forma
que lhe manifestamos todo o nosso desprezo, assim como a todas as imagens
que dela se conseguiu
criar e irradiar!
mãe, tu tinhas
um jeito especial de ser forte, na escassez da plenitude, foste castigada
pela vida que não te poupou, usada e
abusada, aproveitada para comprar
casas e mais casas... lembro-me ao saíres da tua última compra,
onde eu resido agora, para não
mais voltares, o meoloma ruía-te
os ossos, o sistema linfático, a tiróide e a medula, o teu
esqueleto (que é a única coisa que dura
pelos séculos) desintegravam-se,
corroíam, ruíam, pulverizavam-se,
convido-te
convido-te à
distância de quase duas décadas com a velocidade de um meteoro
que não poupa ninguém, daquele que vem volta e se
desfaz,
para a uma comemoração
apoteótica de divinação do enigma do Mundo, da divinização
da Vida e da danação da Morte
a única
coisa a glorificar, a homenagerar, a festejar neste mundo é
a Vida, e não a morte, é esta que temos de danar
sem a morte
o mundo seria perfeito, com ela tudo se inverte, é a Vida que se
inverte, que se subverte, a danação e esconjuração
da
morte é o contrário
do que a religião anuncia e adverte. A religião vive da morte,
dela se nutre, ela ama-a, adora-a com paixão,
rende-se-lhe e a ela se deixa escravizar
com a anulação constante impositiva da Vida. Ao divinizar
a morte, o rebanho está pronto ao
sacrifício em qualquer altar
de madeira, de pedra ou de mármore
fixei, assim fosse
num flash intempestivo, mas cujo ritual não escapa aos grandes desígnios
da existência, pelo seu sentido propositado,
o teu olhar
o teu olhar a observar
pela última vez as margaridas e roseiras do jardim e disseste com
a voz agastada num jeito de súplica, que não
poderia de modo nenhum ser negada,
“parai, por quem sois, meus filhos, a quem formei cavalheiros,
parai um minuto, eu
quero ver as flores que me embelezam a casa, sei que não as voltarei
a ver, é esta a minha última vontade”, e
todos parámos até
que fechaste os olhos de extasiados ; foste e não regressaste mais,
a não ser no dia derradeiro do teu mundo, era
alta e poderosa a noite, o céu
estava carregado de nuvens negras, espessas, cavernosas, até que
o gato preto te viesse observar já
moribunda,
nunca engendraste
uma apoteose final dos teus sonhos, eu vou proporcionar-te esse desejo,
quando a minha vida estiver a zero,
reconciliado comigo mesmo e com
o meu mundo, virás com o linho rendado que te tornava a mulher mais
formosa da Terra...
e o pai Joaquim grande,
enorme, deitado, magnífico no melhor caixão do mundo, nos
pulmões um cancro cheio de pus, inchado, mas a
suplicar a um deus piedoso qualquer
castigo que o livrasse da morte
.
hás-de voltar,
pai, nem que seja só por uma noite, quero recompensar-te de tanto
esforço e abnegação, quero que partilhes a
apoteose final da glorificação
da vida que te escravizou,
reduzida à
escala familiar nas vésperas e dias de Natal, o teu semblante irradiava
felicidade, uma auréola fantástica dos seres que
extraem do Sol a sua divindade,
por todos estarmos juntos contigo, tu, à cabeceira da mesa, imponente,
comendo o grosso e lascado
bacalhau trazido dos estaleiros
de Aveiro, com aquele gesto pausado que indiciava um prazer excelso
e as tuas conversas circunstanciais;
eram fúteis de mais as tuas
conversas, nunca revelaste o teu íntimo, será que foste demasiado
calejado para esconderes os teus
dilacerantes dramas mais íntimos,
porque não desabafavas?, eu sei que os tinhas presos em algum nó
da garganta, e não os expelias
por um incomensurável pudor,
porque não
sangravas quando queríamos tanto ouvir falar dos queixumes que te
golpearam ? porque te mostravas tão forte, tão
superior aos efeitos das contrariedades,
das fustigações da orgânica mental que liga e desune
as pessoas, que as afasta e as prende
de acordo com os temperamentos
de cada um. Mereces sobretudo a minha recompensa,
trazes contigo
a mãe ou a madrasta ? vai ser um doloroso dilema de escolha, não
sei se estarás à altura de te decidires, mas que
vens onde eu te disser não
tenho dúvidas, virás sim à apoteose que para ti especialmente
vou preparar, porque viveste os meus
revezes, tens direito, oh se tens!,
a partilhar os meus sucessos, os meus êxitos, o meu triunfo final
sobre a lama que me conspurcou
em momentos críticos que
não consegui controlar, nem prever, embora estivesse sempre em estado
de alerta e precaução
todavia deixei-me
descarnar por abutres que usaram e abusaram da minha boa vontade de ajudar,
maculando às vezes a minha
reputação de homem
credível que dá credibilidade aos outros que se me associam
;
mas que puro engano,
quando te associas a mixordeiros sais de lá enlameado, não
os redimes, são eles que te enterram, te
conspurcam, te arruinam se puderem
;
toma lá, esta
foi a maior lição que aprendi durante a minha vida que não
voltará a ser como dantes. A não ser que algum desastre
esteja à minha espera com
grande manha e ardil, congeminado por algum mestre nas artes demoníacas
da persuasão e mentira,
impossível de descortinar
pela nossa mente ainda imperfeita que não tem capacidade para prever
infelizmente o futuro de cada acto
isolado com a nitidez exigível
pelos destemidos e rigorosos até à extremidade do limite
definido da evidência.
Vou quedar-me na forma
da tartaruga ou do caracol ; do caracol, não, que é muito
frágil, mas outrossim da tartaruga. Estarei
sempre alerta na vigilância
do terreno que me destinaram, graças a mim...
3
Carlos foi até
à janela, aquela janela lá do topo, para respirar fundo,
porquê recordar duas mortes?
as que mais nos põem alarmados a pensar, e nos matam também
algo dentro, que são a companhia dos
que estamos habituados a ver desde
o nascimento, a sentir antes, a amar depois, a criticar, e gostar mais
ainda no percurso final.
Isto deve ter uma explicação
psicológica, psicanalítica, ou não estará registada
em alguma memória das nossas entranhas
genesíacas? E depois a família,
a partilha do espanto, do frenesim que tudo isto provoca nas nossas veias,
como se pode explicar?
será que isto só
se dá connosco ou com todos os semelhantes? digam-me então
ó humanos e desumanos, não é assim ?!
- Carlos, não
sonhes, volta à realidade
é a minha mulher
a olhar preocupada com o meu estado de nervos, és um obcecado, obsessivo,
não sonhes tanto, também hás-de
morrer assim a sonhar
- que bom morrer a
sonhar! - repliquei
o tempo estava límpido,
o mar calmo, as gaivotas a redemoinhar ao vento, asas distendidas, rasantes,
altas às vezes, outras a pousar na
areia... gritavam pouco e baixo
as gaivotas, estavam mais calmas pela morte anterior, o mocho tinha piado
toda a noite, maldito mocho,
que me atormentou também,
adivinho da morte, ele, e o gato preto!
porém, hoje
tudo está calmo, os pássaros depenicam no meu quintal e no
jardim, trazem uma bonança inaudita, inexcedível, são
a
continuação da vida,
a tanger uma morte eterna, só contrariada pelos donos do seu destino...
- está morta
a tua mãe - disse-me o Jorge Rafeiro - já devia ter morrido
há mais tempo... ainda bem que morreu !
- queres fazer-me
rir, ó palhaço, não percebeste que morreu
- venho aqui para
te pesar e felicitar, quando os índios morrem há festa na
aldeia, é um momento de felicidade
- mas eu estou aqui
neste pedaço de terra, como podes trazer felicidade a esta terra
que chora os seus mortos
- pensa bem... é
tudo uma perspectiva filosófica, cultural, um modo de ver as coisas
e o Jorge Rafeiro
foi-se embora, tinha que ir fazer dinheiro e já perdera dez minutos
que não contabilizou, foi com a sua cara de
fuinha, com o seu porte aciganado
e eu fiquei ali a olhar o caixão, era uma rendição
da última homenagem à morta, na Igreja... outros
vieram.
Vieram outros,
vieram os amigos, os familiares, os tios e as tias, as sobrinhas e os sobrinhos,
os vizinhos, os antigos empregados, os
conhecidos mais chegados e mais
distantes, a irmã que a amparou durante algum tempo e lhe extorquiu
algum dinheiro na esperança dela
ficar até ao fim e de lhe
extorquir toda a quota disponível, como fizera com a mãe
de ambas, veio o talhante Raparrim dizer-se
consternado, arquitectando já
na imaginação uma possível maneira de mais tarde se
apoderar de uma parte da partilha numa possível
sociedade a descobrir, a constituir
pelas necessidades do tempo e do lugar, fundamentada nos ditames da amizade
e da experiência, veio
o Pedro trazendo a mulher e a amante,
ele recordando a santidade da sua mãe, a mulher e a amante com cera
gelada nos olhos
vieram os amigos
da mulheres alheias, a aguardar um olhar indefeso nalguma mulher ferida
ou carente de afecto pelo gesto tímido,
sorriso piedoso, desejando exprimir
alguma palavra de consolação que quase não exprimia
coisa nenhuma, soslaios à espera de rendição
Um pouco ao invés
dos que vieram despedir-se no fim do mundo do pai Joaquim. Para este estavam
reservados os familiares do seu
lado, os filhos dos empresários
de sucesso, que às vezes a ele recorreram em momentos de aflição,
os companheiros das tardes dos dias
inúteis de cavaqueira à
mesa do café junto ao mar, companheiros e convivas das matanças
do porco ou das festas oficiais, baptizados,
comunhões, casamentos e
aniversários, festas pagãs e religiosas
e os empregados que deram a sua
vida inteira ao trabalho e com ele contaram para a retribuição
da canseira e garantia da sua
sobrevivência honrada.
No dia seguinte,
iria ser enterrada no cemitério da freguesia, e aqueles que já
referi e alguns desconhecidos por nós e que deviam ser
do conhecimento da homenageada,
renderam novamente os seus pêsames, mais flores juntaram às
do dia anterior, queriam carregar a
urna bem asseada... a mãe
tinha sido lavada, não cheirava mal, tinha até sido perfumada,
ia como deve ser, com uma categoria
invulgar, para a cova dos seus
pais, onde só permaneciam ossos, que nela não existiam, a
não ser na cabeça e nos maxilares, levava
um dente de ouro, quem o iria roubar?
porque não tive coragem de lho tirar? para que iria ser enterrada
com um dente de ouro, se
não precisaria mais da boca?
os gusanos é que precisam da boca dos mortos para se alimentarem,
e aquele dente era demasiado frio
para os lagartos, mais valia ter-lho
arrancado, mas não consegui fazê-lo, tinha um pudor visceral
à tomada do preconceito, que na
mente se me encaixou... é
a mente que nos comanda, não, não é o raciocínio
frio ou a razão gelada das pedras tumulares
O aparato da
morte aterra mais do que própria morte, já ouvi isto algures,
ou li em alguma obra filosófica... há esta cultura de
homenagem, de veneração,
de romagem aos mortos... uma cultura que se transformou em comércio.
Há pessoas a viver dos mortos.
Pessoas a enriquecer à custa
dos mortos. Instituições que vivem deles, religiões
que se fizeram e engrandeceram por eles. Não se
venera as fontes, os princípios
da vida, mas sim a condenação que sobre ela paira como um
protesto inconsciente do qual resulta um
gesto na imitação
de outros gestos, isto é, um movimento de solidariedade pela miséria
humana exposta na mortalidade, que
ninguém deseja, mas com
a qual não tem outro remédio senão se conformar na
esperança da ressurreição que é no fundo a
continuação da vida.
A grande e mais majestosa contradição está realmente
nisto: venera-se o que se devia amaldiçoar. O choro
larvado pelos cemitérios,
ao invés, deveria ser a expressão do riso. Mas qual é
o riso apropriado para um momento solene como este
no extremo da vida em disfunção?
Um riso com umas gargalhadas sonoras retinindo em ecos como se o melhor
comediante do
mundo nos deleitasse com as surpresas
da imbecilidade? O riso provocado por uma situação anormal,
caricata, por um acto
inusitado, inesperado, por uma
expressão incoerente, impertinente ou uma voz esganiçada?
Pela zombaria duma queda desajeitada?
Escarnecer a morte com impropérios,
ou tão só maldizê-la para retratar o sorriso alegre
da e na imortalidade, ridicularizando
assim, ofendendo desta arte a sua
consagração?
- Adónis, que
vamos fazer depois da morte da nossa mãe?
- dividir o espólio
e continuar
- continuar sim, mas
dói-me o estômago
- então, vamos
almoçar, o enterro terminou, não somos mais precisos aqui
e fomos almoçar...
as gaivotas, da minha
janela, naquela manhã de Domingo andavam por cima dos surfistas
a girar e o mar estava calmo, os pássaros a
depenicar nos meus quintal e jardim
4
- que fazes agora,
Jorge Rafeiro
- vivo de expedientes...
sabes como é, compro e vendo carros, modifico-lhes a carroçaria
e o motor, vendo-os por bom dinheiro,
compro café e misturo-o
com chicória e digo que é o melhor do mundo, tem marca
e tudo, vendo senhas que dão mais dinheiro que a
lotaria, compro novidades em Espanha
e vendo-as pelo dobro nesta terra de cegos... mas agora vou meter-me na
compra e venda de
vivendas, isso é que vai
ser a minha safa, antes de vendê-las vou melhorá-las
era a tua safa, meu
sacana, vadio que não respeita o amigo, era a tua safra, cigano
que não teve eira nem beira, que perdeu com o
tempo, e, aos poucos, todos os
escrúpulos, que pôs o lema na cabeça, que só
o dinheiro interessa, não os familiares, os amigos, a
comunidade,
só o dinheiro,
e com ambições de ser muito rico, tão rico que o dinheiro
lhe brotasse das mãos, como fonte inesgotável de prazer,
e
talvez isso aconteça no
dia em que, de pés para a cova, o Jorge Rafeiro se entretenha a
ser sugado por qualquer galdéria feita
senhora à pressa, mais inteligente
do que ele,
e ele dir-lhe-á
“nunca me faltou dinheiro, faz o que quiseres, mas deixa-me algum para
que eu morra com alguma dignidade”,
todavia que dignidade? Assim só,
sem um amigo ao lado, sem um companheiro, sem um familiar, só, reduzido
à tua dimensão de
misógino incurável,
de masturbador de sonhos que são quimeras da mais parda futilidade,
com uma rameira, que ele vê todos os
dias a chupar-lhe mais um bocado
do inventário... a companhia que vais merecer, cão vadio,
intrujão, aldrabão, as palavras que a
tua puta, que é também
dos outros, dirá, sem que as ouças distintamente, contudo
tendo a certeza que as diz, porque tens ainda a
visão consciente do mundo,
e foram estas as que melhor aprendeste e serviste,
mas quando deixares
de estar consciente, vai escarrar-te na cara
e tu ironizas ao último
amigo que julgas no mundo
- ó pá,
quando eu morrer, deitem-me num baú e enterrem-me no quintal, é
isso que eu faço aos meus cães, embrulho-os num plástico
e enterro-os no quintal, o plástico
já é um luxo, mas faço-lhes um furo para apodrecerem
mais depressa e dar alimento às plantas...
façam-me o mesmo, ó
Carlos, não te esqueças, se for eu o primeiro na lista negra,
antes de ti... e façam uma festa cheia de alegria com o
meu dinheiro, a Violeta que pague,
porque fica com muito, ele todo, e é muito, nem ela o saberá
contar!
a Violeta, vinha da
alta formação da caça aos ricos, e juntou-se a ele.
Era mulher madura, que se lhe meteu em casa depois de o
engatar num bar, mulher de olhos
mortiços, lânguidos, que namorava de vez em quando, às
escapadelas, um grande rapazão, pesado, de
rabo de cavalo e brinco na orelha,
parecia um Adónis moderno, actualizado, mas, atenção,
não confundam com o nome do meu irmão,
esse é outro Adónis,
mais antigo, mais ultrapassado, um nome que quase imitou o significado,
todavia, no seu tempo próprio
- olá, Violeta!
que vens fazer a este Café, estás à espera de alguém?
- à espera
do primeiro que me pague um café, podes ser tu
- mas eu não
te pago nenhum café, posso é aceitar uma oferta gentil da
tua parte, ou não tens dinheiro para me oferecer um café?
- o Jorge hoje fechou
tudo à chave, ainda não lhe deu a dor de costas do costume
e por isso estou tesa, vê bem até o dinheiro me tirou
- então eu
ofereço-te o café, mas ofereces-me tu alguma coisa em troca?
- nada, que querias
tu?
- o que te viesse
à ideia, não tens ideias?
- tenho uma, vamos
dar um giro
- mas eu não
quero ser visto por ti em lugares públicos, comprometes de mais
as pessoas que te acompanham!
- então, que
queres que faça? Olha que não sou nenhuma peste, ouviste?
Que queres que faça?
- nada
- então vem
até ao meu carro, ele é bastante espaçoso e cómodo,
até faz de cama, mas primeiro paga-me o café e um uísque
- eh, moço,
traz-nos dois cafés e dois uísques, se faz favor !
o criado trouxe o
pedido, bebemos, paguei com uma gorjeta que mereceu um salamaleque, e saímos.
Percorridos uns metros,
a Violeta abriu as portas automatizadas e entrámos ambos no Jaguar
luxuoso do Jorge, que, nesse dia,
permanecia em casa à espera
das dores contorcidas da espinha temerosa, com hérnias cervicais
de difícil, melindrosa e perigosa cirurgia,
dores estas lombares e renais,
que lhe davam ultimamente pelas três horas da tarde, a hora em que
outros descansam para recuperar
insónias ou noites de folia,
outros ainda simplesmente para relaxar das manhãs fatigantes,
quando outros mais dormem a sesta
como refúgio dos sóis
escaldantes inclementes e desgastantes nas épocas estivais.
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Para ler os restantes vinte e três
capítulos, precisa de introduzir
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