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O Despertar da Serpente
de
 
 
 
 
 
                                                              Romance
 
 
 
 
 
                                                .
 
 
 
 
 
 
 
  desenho de
Lima.de.Freitas.....................................................................................................................................................................................................................................................
                                            À Natércia, a personagem Né, ninfa virtual que auxiliou a Carlos na feitura deste romance
                                                                            e a quem alguém quis provar que quem faz um cesto,
                                                                                                                faz um cento.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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                                                                                  Na sua primeira paixão a mulher ama o amante;
                                                                                        em todas as outras o que ama é o amor.
                                                                                                             LORD BYRON,
                                                                                           A Peregrinação do Cavaleiro Harold
                                                                                                                           .
                                                                                 Só o amor e a arte tornam a existência tolerável.
                                                                                                 SOMMERSET MAUGHAM,
                                                                                                          A Servidão Humana
                                                                                                                           .
                                                                                     Só a arte permite a realização de tudo o que
                                                                                                     a vida recusa ao homem.
                                                                                                         GOETHE, Eufrosina
                                                                                                                           .
                                                                              A arte começa precisamente onde cessa a vida real,
                                                                                          onde não há mais nada à nossa frente.
                                                                                                            WAGNER, Carta
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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                                                                                    1
 
 
 
 
    Quando Carlos viu a mãe em estado imóvel, serena, com toda a paz do mundo irradiada em tanta quietude, nunca julgou que ao
alarme misterioso da vida sucedesse o alarme fulminante, terrível da morte. Morrer-lhe a mãe assim tão de repente! quando
ninguém, mesmo ninguém, esperava o contrário, isto é, que vivesse muito mais tempo... mas ele não acreditava, julgava que ela era
eterna como o próprio acto criador; um súbito zumbido genital de poros soou em todo o seu corpo. Como pode morrer a mãe?
Aquela que nos trouxe ao mundo, precede-nos e poscede-nos, não pode, não pode ser assim, vê-la ali deitada, a cheirar ao último
excremento, imóvel, distante como se o mundo fosse todo nulo, como se nada mais existisse...
   só o gato preto que saltou da cómoda, dum salto estranho, jamais visto, jamais imaginado, só possível em estados de infinita revelação
    - ó Adónis, a mãe morreu, como pode ter morrido?, as mães nunca morrem
    - não te ponhas a fantasiar, olha que o momento é mais grave e sério do que o imaginas!
    - mas eu estou a falar a sério
    o gato preto observa o corpo ali deitado, pára por instantes, observa parado, levanta o focinho, cheira de chofre, as narinas dilatam-se
e a porta entreabre-se, não sei por que força oculta, e ele foge, escada abaixo, vai não sei onde, desaparece
    - que estranho, o gato teve o pressentimento da morte, ele viu a morte, parou  para confirmar, o gato quis confirmar a morte da mãe!
Não reparaste, Adónis? Foi-se-lhe a dona... que espanto me causa tudo isto, que lividez me invade, e que infinita tristeza e desolação me
encharcam os ossos, é o génesis que me atormenta...
    - ó Carlos, não brinques com as palavras, que respeito trazes para este momento com esses comentários atarantados ?! cala-te por
favor que me assustas
     mas a porta continua aberta e o gato vem espreitar pela última vez  a cena mórbida, ainda tétrica
    Carlos dirige-se à mãe, fecha-lhe os olhos, é a última vez que lhe fecha os olhos, ela tem neles duas lágrimas, duas lágrimas de
despedida da vida, duas lágrimas por aquilo que ficou por fazer e amar, estão vidrados, inertes, nunca mais lhe verá aqueles olhos
mortiços... só com vida eram bonitos aqueles olhos,
    a beleza estava na vida, agora nada dizem, parecem os olhos de um mocho estático... quanto viram e o que viram aqueles olhos?,
tantas coisas, tanto mundo, incrível, aterrador o que pode acontecer aos olhos, mãe do céu!, protegei-nos que morremos assim sem
glória nenhuma, só com tanta miséria no rosto, tanta despidez do ser, agora ela estava já não era, que é impossível acreditar, não
quero acreditar no destino que nos espera, dá-nos mais alguma razão de ser e de estar, alguma magnitude, alguma... não sei quê, até
nem importa...
    porém, morrer assim à espera de meter este cadáver num caixão e enterrá-lo como quem enterra um saco de batatas, e nem sequer
nascem as ramas de outras tantas, todavia só se lhe espera a putrefacção, a desfacção da carne, comida sugada pelos vermes até à
total desaparição, ao aniquilamento, só os ossos ficarão, porque ficarão os ossos, serão esses a eternidade? Mas a mãe morreu sem
ossos, ela não tem qualquer eternidade! só tem a que lhe proporcionarmos na nossa mente, é pouco, não há dúvida, querida mãe...
    eu estou a dormir num colchão estreito, tenho a certa altura medo do gato, que se calhar me vai passar por cima e devorar, que
horrorosa aflição - ser sofregamente devorado por um gato esfomeado com raiva de saciedade, grito rebentado das minhas virilhas
genesíacas, até à exaustão,
    contudo não apareceu, o gato desapareceu por completo à procura com certeza de outro ambiente, este traz-lhe o sabor amargo a
morte de alguém querido,
     o meu irmão dorme num divã ao canto da sala, está mais acima do que eu, eu estou no chão, é  minha obrigação estar no chão,
conservar a mensagem de solidariedade mortal, em frente a este acto que estou a viver, quero humilhar-me, reduzir-me à minha
miséria de ser terreno que há-de regressar ao pó, memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris, havemos todos de repetir
o pecado
original de sermos Adão na hora da morte, de nos tornarmos a Génese...
   a mãe de Carlos, a Maria Joaquina irá amanhã regressar ao pó, mas eu tenho um lugar marcado para o retorno, sou tão mortal
quanto ela, é incrível  que isto aconteça!, que andamos nós cá a fazer para termos de nos sujar no fim, de nos enlamear, de nos
borrar, a começar pelo acto de defecar no próprio momento da morte aparecida? A mãe de Carlos defecou no momento da morte,
não sei se foi por medo do que a esperava, ou não esperava coisa nenhuma?, se foi de propósito a dizer (imagino eu)
    - olha morte, sabes o que mereces, mereces que te cague em cima,
 mas a morte não estava em baixo, senão ela cagava-lhe mesmo em cima, a morte é muito esperta, está sempre por cima, com aquela
gadanha terrível, fatal, implacável, e ri-se dentro do seu fato preto, sorriso de velhaca, de velha cadavérica, horrivelmente queixuda,
a morte devia ser excomungada, até me aflige não saber que até hoje ainda nenhum papa excomungou a morte, porque ela é a coisa
mais desumana que apareceu à face da terra,
    quando deus se lembrou de ter criado a morte, devia ter-lhe dado logo antes um fanico, um chelique, pois foi a coisa pior que
inventou... mas deus também se esteve sempre nas tintas para este estado de degradação progressiva dos humanos, apesar dos
protestos de duzentas gerações que até agora já se contaram depois de Jesus Cristo, mais aquelas que as precederam!
   O Adónis no dia seguinte ajudou ao Carlos a telefonar ao Agente funerário e a dividir o dinheiro disponível e à ordem no Banco, e
marcou-se data e hora para dividir as jóias e as mobílias.
 
   Na véspera, Carlos tinha remetido a mulher e os filhos para o Cinema e depois para casa. Adónis tinha feito o mesmo, em estreita
imitação do irmão. Só quando todos eles voltaram do Cinema, fez contas às horas, telefonou para casa e disse-lhes
   - fiquem em casa, a Maria Joaquina morreu
   e todos obedeceram, obedeciam sempre... nestas ocasiões de estertor, este transmite-se a todos... mas, no dia seguinte, lá estavam a
olhar esgaseadamente para a avó e sogra, como se tudo tivesse morrido de repente, era o tal silêncio de morte a dizer tudo, a dizer
de que barro somos feitos, a revelar a nossa precaridade
    - ouve, é preciso lavá-la!
   e foi-se buscar a empregada para a lavar, duas toalhas, uma molhada e outra seca, e vestiu-se-lhe o vestido de seda branco, um
rendado, bonito,
   porque a viagem ia ser longa e convinha dar-lhe a dignidade de uma guerreira que morre por amor à vida. Antigamente os chefes
de combate iam vestidos com os melhores trajes para a guerra, porque morrer era um acto de coragem, uma festa ofertada à Pátria,
à glória, à continuidade ou ao Condado. Era o desafio da morte vivido com alegria. Mas o objectivo era vencer. Hoje, é diferente,
morre-se por amor à vida, sem qualquer objectivo, mas conserva-se a fingida aparência

.
.                                                                        2
 
   lembro-me do pai. Estendido no chão, coitado, enorme, à espera do caixão! E eu pensei : tão forte, homem... e também morreste!
e vituperei
   - tirem-no do chão, porque ele não morreu caído. Este homem levantou-se sempre por si mesmo, é como as árvores que não admitem
que se morra deitado. E o caixão veio logo, trouxeram-no, não antes de perguntaram
   - quer um caixão de 20, 30 ou 40 contos
   - quero o melhor que haja neste mundo, ele merece o melhor
   e merecia. Trabalhou como um desalmado para ter uma velhice descansada, para morrer como um herói na súplica da imitação da
integridade dos homens de antanho
   - vistam-lhe o melhor fato, penteiem-no, que vá como um chefe
   e foi .

.                                                                                         *

   a mãe Joaquina, duas lágrimas nos olhos, vidrados, excrementos enxaguados e limpos, bela, sem ossos, que a doença carcomeu antes
do tempo, à espera do milagre na forma de um grande alguidar, cheio de gemas de ovos, que a livraria da morte ao devorá-las, ela
tinha esperança nas gemas ovíparas que lhe trariam o cálcio da eternidade, mas desistiu quando tomou conhecimento da sua
precaridade, da esperança vã na eternidade, uma esperança que a alvoroçou durante dias e dias, e que a todos punha pasmados,
extasiados de tanta fé, mas logo a seguir veio a desolação, uma desolação incrivelmente doentia, pungida e pungente, macilenta que
incomodava, irritava, até sangrava qualquer expectativa latente congelada, uma expectação em coma, uma confiança amorfa, à
espera de uma revelação que estivesse escondida nos astros, oculta nas estrelas e nos cometas, mas nada sucedeu de anormal, contra
toda a aura gerada nesta aflita convulsão, nada sucedeu a não ser uma lenta agonia, com períodos cada vez mais curtos de lucidez,
foi esta a última a morrer, só morreu quando o coração parou por completo, nesse momento expeliu tudo o que tinha para oferecer à
morte

foi naquele momento que te deste conta da precaridade da Vida, quando esqueceste as gemas da salvação pelo calcário
a Vida sendo precária é uma viagem num corpo feio, bonito, torto, direito, pequeno, grande, médio, mais imperfeito, mais perfeito, a
que a alma se molda, dele tem de gostar, de se adaptar com mais ou menos resignação, nuns orgulhosamente, noutros abnegadamente

aparecer assim num ovo, num óvulo, encascar-se com pele, poros, desenvolver potenciais órgãos a procurar a sua forma programada
num tempo perdido no tempo, com características do pai, da mãe, dos avós, às vezes desenterrando um olho verde que já se tinha
consumido há quatro gerações, um cabelo louro dum normando por aqui deslocado numa viagem de aventura, de ambição ou simples
procura de subsistência
aquele corpo amorfo pouco depois com pernas a pontapear a barriga da mãe, gérmen do ser humano que continua aos pontapés pela
vida fora
deste-te conta de tanta precaridade e desististe
.
    Mas é a Vida que vence sempre no fim. A Vida iniversal. Se assim não fosse não andávamos há séculos à busca dum elexir. Esse
elixir da longa vida é o protesto das gerações insatisfeitas, que acumulam a conjura da morte no obscurantismo do mistério. Não
existindo morte, desapareceria o enigma, este anular-se-ia pela sua inexistência. O cérebro humano não está pronto para entender a
metamorfose e só esta é capaz de entender a Vida. Anotem-se, reforcem-se os símbolos da Vida: o Sol, a Água, a Terra, o Ar e
construam-se para eles os altares da glorificação, da festa permanente, os palanques das exibições espectaculares, as molduras da
realeza, da santificação, para nos insurgirmos contra a danação aplicada a Adão e Eva. É um protesto impenitente, impertinente,
mal educado, até ao fim. A morte não nos merece a mínima consideração, a mínima reverência, ela é o contrário de toda a
excelência. E é bom que se mantenha acesa esta vela (se não o fizerem tanto pior para todos nós), este facho que acendo em cada
pessoa, porque é desta forma que lhe manifestamos todo o nosso desprezo, assim como a todas as imagens que dela se conseguiu
criar e irradiar!

   mãe, tu tinhas um jeito especial de ser forte, na escassez da plenitude, foste castigada pela vida que não te poupou, usada e
abusada, aproveitada para comprar casas e mais casas... lembro-me ao saíres da tua última compra, onde eu resido agora, para não
mais voltares, o meoloma ruía-te os ossos, o sistema linfático, a tiróide e a medula, o teu esqueleto (que é a única coisa que dura
pelos séculos) desintegravam-se, corroíam, ruíam, pulverizavam-se,
   convido-te
   convido-te à distância de quase duas décadas com a velocidade de um meteoro que não poupa ninguém, daquele que vem volta e se
desfaz,
   para a uma comemoração apoteótica de divinação do enigma do Mundo, da divinização da Vida e da danação da Morte

    a única coisa a glorificar, a homenagerar,  a festejar neste mundo é a Vida, e não a morte, é esta que temos de danar
    sem a morte o mundo seria perfeito, com ela tudo se inverte, é a Vida que se inverte, que se subverte, a danação e esconjuração da
morte é o contrário do que a religião anuncia e adverte. A religião vive da morte, dela se nutre, ela ama-a, adora-a com paixão,
rende-se-lhe e a ela se deixa escravizar com a anulação constante impositiva da Vida. Ao divinizar a morte, o rebanho está pronto ao
sacrifício em qualquer altar de madeira, de pedra ou de mármore
 
   fixei, assim fosse num flash intempestivo, mas cujo ritual não escapa aos grandes desígnios da existência, pelo seu sentido propositado,
o teu olhar
   o teu olhar a observar pela última vez as margaridas e roseiras do jardim e disseste com a voz agastada num jeito de súplica, que não
poderia de modo nenhum ser negada, “parai, por quem sois, meus filhos, a quem formei cavalheiros,
   parai um minuto, eu quero ver as flores que me embelezam a casa, sei que não as voltarei a ver, é esta a minha última vontade”, e
todos parámos até que fechaste os olhos de extasiados ; foste e não regressaste mais, a não ser no dia derradeiro do teu mundo, era
alta e poderosa a noite, o céu estava carregado de nuvens negras, espessas, cavernosas, até que o gato preto te viesse observar já
moribunda,
    nunca engendraste uma apoteose final dos teus sonhos, eu vou proporcionar-te esse desejo, quando a minha vida estiver a zero,
reconciliado comigo mesmo e com o meu mundo, virás com o linho rendado que te tornava a mulher mais formosa da Terra...

   e o pai Joaquim grande, enorme, deitado, magnífico no melhor caixão do mundo, nos pulmões um cancro cheio de pus, inchado, mas a
suplicar a um deus piedoso qualquer castigo que o livrasse da morte
.
   hás-de voltar, pai, nem que seja só por uma noite, quero recompensar-te de tanto esforço e abnegação, quero que partilhes a
apoteose final da glorificação da vida que te escravizou,
   reduzida à escala familiar nas vésperas e dias de Natal, o teu semblante irradiava felicidade, uma auréola fantástica dos seres que
extraem do Sol a sua divindade, por todos estarmos juntos contigo, tu, à cabeceira da mesa, imponente, comendo o grosso e lascado
bacalhau trazido dos estaleiros de Aveiro, com aquele gesto  pausado que indiciava um prazer excelso e as tuas conversas circunstanciais;
eram fúteis de mais as tuas conversas, nunca revelaste o teu íntimo, será que foste demasiado calejado para esconderes os teus
dilacerantes dramas mais íntimos, porque não desabafavas?, eu sei que os tinhas presos em algum nó da garganta, e não os expelias
por um incomensurável pudor,
   porque não sangravas quando queríamos tanto ouvir falar dos queixumes que te golpearam ? porque te mostravas tão forte, tão
superior aos efeitos das contrariedades, das fustigações da orgânica mental que liga e desune as pessoas, que as afasta e as prende
de acordo com os temperamentos de cada um. Mereces sobretudo a minha recompensa,
    trazes contigo a mãe ou a madrasta ? vai ser um doloroso dilema de escolha, não sei se estarás à altura de te decidires, mas que
vens onde eu te disser não tenho dúvidas, virás sim à apoteose que para ti especialmente vou preparar, porque viveste os meus
revezes, tens direito, oh se tens!, a partilhar os meus sucessos, os meus êxitos, o meu triunfo final sobre a lama que me conspurcou
em momentos críticos que não consegui controlar, nem prever, embora estivesse sempre em estado de alerta e precaução
   todavia deixei-me descarnar por abutres que usaram e abusaram da minha boa vontade de ajudar, maculando às vezes a minha
reputação de homem credível que dá credibilidade aos outros que se me associam ;
   mas que puro engano, quando te associas a mixordeiros sais de lá enlameado, não os redimes, são eles que te enterram, te
conspurcam, te arruinam se puderem ;
   toma lá, esta foi a maior lição que aprendi durante a minha vida que não voltará a ser como dantes. A não ser que algum desastre
esteja à minha espera com grande manha e ardil, congeminado por algum mestre nas artes demoníacas da persuasão e mentira,
impossível de descortinar pela nossa mente ainda imperfeita que não tem capacidade para prever infelizmente o futuro de cada acto
isolado com a nitidez exigível pelos destemidos e rigorosos até à extremidade do limite definido da evidência.
   Vou quedar-me na forma da tartaruga ou do caracol ; do caracol, não, que é muito frágil, mas outrossim da tartaruga. Estarei
sempre alerta na vigilância do terreno que me destinaram, graças a mim...
 

                                                                     3
 

   Carlos foi até à janela, aquela janela lá do topo, para respirar fundo,
porquê recordar duas mortes? as que mais nos põem alarmados a pensar, e nos matam também algo dentro, que são a companhia dos
que estamos habituados a ver desde o nascimento, a sentir antes, a amar depois, a criticar, e gostar mais ainda no percurso final.
Isto deve ter uma explicação psicológica, psicanalítica, ou não estará registada em alguma memória das nossas entranhas
genesíacas? E depois a família, a partilha do espanto, do frenesim que tudo isto provoca nas nossas veias, como se pode explicar?
será que isto só se dá connosco ou com todos os semelhantes? digam-me então ó humanos e desumanos, não é assim ?!
   - Carlos, não sonhes, volta à realidade
   é a minha mulher a olhar preocupada com o meu estado de nervos, és um obcecado, obsessivo, não sonhes tanto, também hás-de
morrer assim a sonhar
   - que bom morrer a sonhar! - repliquei
   o tempo estava límpido, o mar calmo, as gaivotas a redemoinhar ao vento, asas distendidas, rasantes, altas às vezes, outras a pousar na
areia... gritavam pouco e baixo as gaivotas, estavam mais calmas pela morte anterior, o mocho tinha piado toda a noite, maldito mocho,
que me atormentou também, adivinho da morte, ele, e o gato preto!
   porém, hoje tudo está calmo, os pássaros depenicam no meu quintal e no jardim, trazem  uma bonança inaudita, inexcedível, são a
continuação da vida, a tanger uma morte eterna, só contrariada pelos donos do seu destino...
   - está morta a tua mãe - disse-me o Jorge Rafeiro - já devia ter morrido há mais tempo... ainda bem que morreu !
   - queres fazer-me rir, ó palhaço, não percebeste que morreu
   - venho aqui para te pesar e felicitar, quando os índios morrem há festa na aldeia, é um momento de felicidade
   - mas eu estou aqui neste pedaço de terra, como podes trazer felicidade a esta terra que chora os seus mortos
   - pensa bem... é tudo uma perspectiva filosófica, cultural, um modo de ver as coisas
   e o Jorge Rafeiro foi-se embora, tinha que ir fazer dinheiro e já perdera dez minutos que não contabilizou, foi com a sua cara de
fuinha, com o seu porte aciganado e eu fiquei ali a olhar o caixão, era uma rendição da última homenagem à morta, na Igreja... outros
vieram.
    Vieram outros, vieram os amigos, os familiares, os tios e as tias, as sobrinhas e os sobrinhos, os vizinhos, os antigos empregados, os
conhecidos mais chegados e mais distantes, a irmã que a amparou durante algum tempo e lhe extorquiu algum dinheiro na esperança dela
ficar até ao fim e de lhe extorquir toda a quota disponível, como fizera com a mãe de ambas, veio o talhante Raparrim dizer-se
consternado, arquitectando já na imaginação uma possível maneira de mais tarde se apoderar de uma parte da partilha numa possível
sociedade a descobrir, a constituir pelas necessidades do tempo e do lugar, fundamentada nos ditames da amizade e da experiência, veio
o Pedro trazendo a mulher e a amante, ele recordando a santidade da sua mãe, a mulher e a amante com cera gelada nos olhos
    vieram os amigos da mulheres alheias, a aguardar um olhar indefeso nalguma mulher ferida ou carente de afecto pelo gesto tímido,
sorriso piedoso, desejando exprimir alguma palavra de consolação que quase não exprimia coisa nenhuma, soslaios à espera de rendição

    Um pouco ao invés dos que vieram despedir-se no fim do mundo do pai Joaquim. Para este estavam reservados os familiares do seu
lado, os filhos dos empresários de sucesso, que às vezes a ele recorreram em momentos de aflição, os companheiros das tardes dos dias
inúteis de cavaqueira à mesa do café junto ao mar, companheiros e convivas das matanças do porco ou das festas oficiais, baptizados,
comunhões, casamentos e aniversários, festas pagãs e religiosas
e os empregados que deram a sua vida inteira  ao trabalho e com ele contaram para a retribuição da canseira e garantia da sua
sobrevivência honrada.

    No dia seguinte, iria ser enterrada no cemitério da freguesia, e aqueles que já referi e alguns desconhecidos por nós e que deviam ser
do conhecimento da homenageada, renderam novamente os seus pêsames, mais flores juntaram às do dia anterior, queriam carregar a
urna bem asseada... a mãe tinha sido lavada, não cheirava mal, tinha até sido perfumada, ia como deve ser, com uma categoria
invulgar, para a cova dos seus pais, onde só permaneciam ossos, que nela não existiam, a não ser na cabeça e nos maxilares, levava
um dente de ouro, quem o iria roubar? porque não tive coragem de lho tirar? para que iria ser enterrada com um dente de ouro, se
não precisaria mais da boca? os gusanos é que precisam da boca dos mortos para se alimentarem, e aquele dente era demasiado frio
para os lagartos, mais valia ter-lho arrancado, mas não consegui fazê-lo, tinha um pudor visceral à tomada do preconceito, que na
mente se me encaixou... é a mente que nos comanda, não, não é o raciocínio frio ou a razão gelada das pedras tumulares
    O aparato da morte aterra mais do que própria morte, já ouvi isto algures, ou li em alguma obra filosófica... há esta cultura de
homenagem, de veneração, de romagem aos mortos... uma cultura que se transformou em comércio. Há pessoas a viver dos mortos.
Pessoas a enriquecer à custa dos mortos. Instituições que vivem deles, religiões que se fizeram e engrandeceram por eles. Não se
venera as fontes, os princípios da vida, mas sim a condenação que sobre ela paira como um protesto inconsciente do qual resulta um
gesto na imitação de outros gestos, isto é, um movimento de solidariedade pela miséria humana exposta na mortalidade, que
ninguém deseja, mas com a qual não tem outro remédio senão se conformar na esperança da ressurreição que é no fundo a
continuação da vida. A grande e mais majestosa contradição está realmente nisto: venera-se o que se devia amaldiçoar. O choro
larvado pelos cemitérios, ao invés, deveria ser a expressão do riso. Mas qual é o riso apropriado para um momento solene como este
no extremo da vida em disfunção? Um riso com umas gargalhadas sonoras retinindo em ecos como se o melhor comediante do
mundo nos deleitasse com as surpresas da imbecilidade? O riso provocado por uma situação anormal, caricata, por um acto
inusitado, inesperado, por uma expressão incoerente, impertinente ou uma voz esganiçada? Pela zombaria duma queda desajeitada?
Escarnecer a morte com impropérios, ou tão só maldizê-la para retratar o sorriso alegre da e na imortalidade, ridicularizando
assim, ofendendo desta arte a sua consagração?
 
   - Adónis, que vamos fazer depois da morte da nossa mãe?
   - dividir o espólio e continuar
   - continuar sim, mas dói-me o estômago
   - então, vamos almoçar, o enterro terminou, não somos mais precisos aqui
   e fomos almoçar...

   as gaivotas, da minha janela, naquela manhã de Domingo andavam por cima dos surfistas a girar e o mar estava calmo, os pássaros a
depenicar nos meus quintal e jardim
 

                                                                   4
 
   - que fazes agora, Jorge Rafeiro
   - vivo de expedientes... sabes como é, compro e vendo carros, modifico-lhes a carroçaria e o motor, vendo-os  por bom dinheiro,
compro café e misturo-o com chicória  e digo que é o melhor do mundo, tem marca e tudo, vendo senhas que dão mais dinheiro que a
lotaria, compro novidades em Espanha e vendo-as pelo dobro nesta terra de cegos... mas agora vou meter-me na compra e venda de
vivendas, isso é que vai ser a minha safa, antes de vendê-las vou melhorá-las
   era a tua safa, meu sacana, vadio que não respeita o amigo, era a tua safra, cigano que não teve eira nem beira, que perdeu com o
tempo, e, aos poucos, todos os escrúpulos, que pôs o lema na cabeça, que só o dinheiro interessa, não os familiares, os amigos, a
comunidade,
   só o dinheiro, e com ambições de ser muito rico, tão rico que o dinheiro lhe brotasse das mãos, como fonte inesgotável de prazer, e
talvez isso aconteça no dia em que, de pés para a cova, o Jorge Rafeiro se entretenha a ser sugado por qualquer galdéria feita
senhora à pressa, mais inteligente do que ele,
   e ele dir-lhe-á  “nunca me faltou dinheiro, faz o que quiseres, mas deixa-me algum para que eu morra com alguma dignidade”,
todavia que dignidade? Assim só, sem um amigo ao lado, sem um companheiro, sem um familiar, só, reduzido à tua dimensão de
misógino incurável, de masturbador de sonhos que são quimeras da mais parda futilidade, com uma rameira, que ele vê todos os
dias a chupar-lhe mais um bocado do inventário... a companhia que vais merecer, cão vadio, intrujão, aldrabão, as palavras que a
tua puta, que é também dos outros, dirá, sem que as ouças distintamente, contudo tendo a certeza que as diz, porque tens ainda a
visão consciente do mundo, e foram estas as que melhor aprendeste e serviste,
   mas quando deixares de estar consciente, vai escarrar-te na cara
   e tu ironizas ao último amigo que julgas no mundo
   - ó pá, quando eu morrer, deitem-me num baú e enterrem-me no quintal, é isso que eu faço aos meus cães, embrulho-os num plástico
e enterro-os no quintal, o plástico já é um luxo, mas faço-lhes um furo para apodrecerem mais depressa e dar alimento às plantas...
façam-me o mesmo, ó Carlos, não te esqueças, se for eu o primeiro na lista negra, antes de ti... e façam uma festa cheia de alegria com o
meu dinheiro, a Violeta que pague, porque fica com muito, ele todo, e é muito, nem ela o saberá contar!
   a Violeta, vinha da alta formação da caça aos ricos, e juntou-se a ele. Era mulher madura, que se lhe meteu em casa depois de o
engatar num bar, mulher de olhos mortiços, lânguidos, que namorava de vez em quando, às escapadelas, um grande rapazão, pesado, de
rabo de cavalo e brinco na orelha, parecia um Adónis moderno, actualizado, mas, atenção, não confundam com o nome do meu irmão,
esse é outro Adónis, mais antigo, mais ultrapassado, um nome que quase imitou o significado, todavia, no seu tempo próprio
   - olá, Violeta! que vens fazer a este Café, estás à espera de alguém?
   - à espera do primeiro que me pague um café, podes ser tu
   - mas eu não te pago nenhum café, posso é aceitar uma oferta gentil da tua parte, ou não tens dinheiro para me oferecer um café?
   - o Jorge hoje fechou tudo à chave, ainda não lhe deu a dor de costas do costume e por isso estou tesa, vê bem até o dinheiro me tirou
   - então eu ofereço-te o café, mas ofereces-me tu alguma coisa em troca?
   - nada, que querias tu?
   - o que te viesse à ideia, não tens ideias?
   - tenho uma, vamos dar um giro
   - mas eu não quero ser visto por ti em lugares públicos, comprometes de mais as pessoas que te acompanham!
   - então, que queres que faça? Olha que não sou nenhuma peste, ouviste? Que queres que faça?
   - nada
   - então vem até ao meu carro, ele é bastante espaçoso e cómodo, até faz de cama, mas primeiro paga-me o café e um uísque
   - eh, moço, traz-nos dois cafés e dois uísques, se faz favor !
   o criado trouxe o pedido, bebemos, paguei com uma gorjeta que mereceu um salamaleque, e saímos.
   Percorridos uns metros, a Violeta abriu as portas automatizadas e entrámos ambos no Jaguar luxuoso do Jorge, que, nesse dia,
permanecia em casa à espera das dores contorcidas da espinha temerosa, com hérnias cervicais de difícil, melindrosa e perigosa cirurgia,
dores estas lombares e renais, que lhe davam ultimamente pelas três horas da tarde, a hora em que outros descansam para recuperar
insónias ou noites de folia, outros ainda  simplesmente para relaxar das manhãs fatigantes, quando outros mais dormem a sesta
como refúgio dos sóis escaldantes inclementes e desgastantes nas épocas estivais.

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